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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Quando você me descobriu no pântano, eu tinha um conhecimento completo de todo o negócio, mas não tinha um caso que pudesse ser levado a um júri. Nem mesmo a tentativa de Stapleton de atacar sir Henry naquela noite que terminou com a morte do infeliz condenado nos ajudou a provar assassinato contra o nosso homem. Parecia não haver nenhuma alternativa a não ser pegá-lo em flagrante, e para isso tínhamos de usar sir Henry como isca, sozinho e aparentemente desprotegido. Fizemos isso, e à custa de um grande choque para o nosso cliente, conseguimos completar o nosso caso e levar Stapleton à sua destruição. Que sir Henry tivesse sido exposto a isto é, devo confessar, um fato condenável na minha condução do caso, mas não tínhamos meio de prever o espetáculo terrível e paralisante que o animal apresentou, nem podíamos prever a cerração que permitiu que ele avançasse sobre nós tão inesperadamente. Alcançamos o nosso objetivo a um custo que tanto o especialista como o dr. Mortimer me garantem que é temporário. Uma viagem longa pode permitir que nosso amigo se recupere não só dos seus nervos abalados, mas também dos seus sentimentos feridos. Seu amor pela dama era profundo e sincero, e para ele a parte mais triste de todo este caso sinistro foi ter sido enganado por ela.

– Falta apenas definir o papel que ela desempenhou em tudo isso. Não pode haver dúvida de que Stapleton exercia uma influência sobre ela que pode ter sido amor ou pode ter sido medo, ou, muito provavelmente, ambos, já que elas não são, de modo algum, emoções incompatíveis. Era, pelo menos, absolutamente eficaz. Por ordem dele, ela concordou em passar por sua irmã, embora ele esbarrasse nos limites do seu poder quando tentou fazer dela o acessório direto do assassinato. Ela estava disposta a avisar sir Henry, desde que pudesse fazê-lo sem implicar seu marido, e ela tentou fazer isso várias vezes. O próprio Stapleton parece ter tido ciúmes, e quando viu o baronete fazendo a corte à dama, embora isso fizesse parte do seu próprio plano, não pôde deixar de interromper com uma explosão apaixonada que revelou a alma ardente que os seus modos retraídos escondiam de modo tão esperto. Incentivando a intimidade, ele garantiria a presença freqüente de sir Henry na Casa de Merripit, e assim teria, mais cedo ou mais tarde, a oportunidade que desejava. Mas, no dia da crise, sua mulher voltou-se de repente contra ele. Ela ouvira alguma coisa sobre a morte do condenado, e sabia que o cão estava sendo guardado na dependência anexa na noite em que sir Henry iria jantar lá. Ela responsabilizou o marido pelo crime planejado, e seguiu-se uma cena furiosa na qual ele revelou pela primeira vez que ela tinha uma rival no seu amor. A fidelidade dela transformou-se num instante num ódio amargo e ele percebeu que ela ia traí-lo. Portanto, amarrou-a, para que ela não tivesse nenhuma possibilidade de avisar sir Henry, e esperava, sem dúvida, que quando toda a região atribuísse a morte do baronete à maldição da sua família, como certamente faria, poderia recuperar a fidelidade dela, fazendo-a aceitar o fato consumado e manter silêncio sobre o que sabia. Nisto acho que, de qualquer maneira, ele cometeu um engano, e que, se nós não estivéssemos lá, a sorte dele estaria selada mesmo assim. Uma mulher de sangue espanhol não perdoa um insulto desses tão facilmente. E agora, meu caro Watson, sem recorrer aos meus apontamentos, não posso fazer a você um relato mais detalhado deste caso curioso. Não sei se alguma coisa essencial foi deixada sem explicação.

– Ele não podia ter esperado matar sir Henry de susto como havia feito com o velho tio, com o seu cão diabólico.

– O animal era selvagem e estava esfomeado. Se a sua aparência não matasse sua vítima de susto, pelo menos paralisaria a resistência que ela pudesse oferecer.

– Sem dúvida. Resta apenas uma dificuldade. Se Stapleton herdasse, como ele poderia explicar o fato de que ele, o herdeiro, estivesse vivendo escondido, com outro nome, tão perto da propriedade? Como ele poderia reivindicá-la sem despertar suspeitas e dúvidas?

– Essa é uma grande dificuldade, e receio que você esteja pedindo demais quando espera que eu resolva isso. O passado e o presente estão dentro do campo da minha investigação, mas o que um homem pode fazer no futuro é uma pergunta difícil de responder. A sra. Stapleton ouviu o marido discutir o problema em várias ocasiões. Havia três condutas possíveis. Ele podia reivindicar a propriedade da América do Sul, estabelecer sua identidade diante das autoridades inglesas lá, e assim obter a fortuna sem jamais vir à Inglaterra; ou podia adotar um disfarce sofisticado durante o curto período em que precisasse estar em Londres; ou, novamente, poderia fornecer as provas e documentos a um cúmplice, apresentando-o como herdeiro, e conservando o direito a uma parcela da renda dele. Não podemos duvidar, pelo que sabemos dele, que ele teria encontrado algum meio de sair da dificuldade. E agora, meu caro Watson, tivemos algumas semanas de trabalho duro, e por uma noite, eu acho, devemos pensar em coisas mais agradáveis. Tenho um camarote para “Les Huguenots”. Você já ouviu o De Reszkes? Posso pedir-lhe então para estar pronto em meia hora, e vamos parar no Marcini para um jantar no caminho?

*

FIM

O Vale do Medo

1ª Parte

a tragédia de birlstone

O Aviso

– Penso que... – eu disse.

– Eu deveria fazer isso – Sherlock Holmes comentou com impaciência.

Acho que sou um dos mais pacientes mortais, mas admito que fiquei aborrecido com aquela interrupção sarcástica.

– Na verdade, Holmes – eu disse, sério – às vezes você é um pouco irritante.

Ele estava absorto demais em seus pensamentos para dar uma resposta imediata à minha queixa. Curvou-se sobre a mesa, sem ter tocado em nada do que lhe fora servido no café-da-manhã, e olhou para a tira de papel que acabara de tirar de um envelope. Depois pegou o envelope, colocou-o perto da luz e examinou cuidadosamente tanto a parte externa quanto a sua dobra.

– É a letra de Porlock – disse de modo pensativo. – Tenho quase certeza de que

é a letra de Porlock, embora só a tenha visto duas vezes. O E grego, floreado em cima, é característico. Mas se é de Porlock, deve ser algo muito importante.

Ele estava falando consigo mesmo, e não comigo, mas a minha irritação desapareceu, substituída pelo interesse que aquelas palavras me despertavam.

– Mas quem, afinal, é Porlock? – perguntei.

– Porlock, Watson, é um nome de plume, uma simples identificação, mas por trás disso existe uma personalidade matreira e evasiva. Numa carta anterior ele me disse abertamente que este não era seu nome e me desafiou, afirmando que eu jamais o encontraria entre os milhões de habitantes desta cidade grande. Porlock é importante não por ele mesmo, mas pelo homem poderoso ao qual está ligado. Imagine o peixe-guia com o tubarão, o chacal com o leão – qualquer coisa que seja é insignificante ao lado do que é ameaçador. Não apenas ameaçador, Watson, mas sinistro – e sinistro no mais alto grau. É nesse aspecto que ele me interessa. Você já me ouviu falar do professor Moriarty?

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