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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Bem, alegro-me de ouvi-lo dizer isso – disse sir Henry, olhando com certa surpresa para o meu amigo. – Eu não tenho a pretensão de conhecer muito sobre estas coisas, e seria melhor juiz de um cavalo ou de um novilho do que de um quadro. Eu não sabia que o senhor encontrava tempo para essas coisas.

– Eu conheço o que é bom quando vejo, e estou vendo agora. Esse é um Kneller, posso jurar, essa dama de seda azul ali, e o cavalheiro robusto com a peruca deve ser um Reynolds. São todos retratos de família, suponho.

– Todos eles.

– O senhor sabe os nomes?

– Barrymore tem me instruído a respeito, e acho que posso recitar minha lição razoavelmente bem.

– Quem é o cavalheiro com o óculo-de-alcance?

– Esse é o contra-almirante Baskerville, que serviu com Rodney nas Índias Ocidentais. O homem com o casaco azul e o rolo de papel é sir William Baskerville, que foi presidente de Comissões da Câmara dos Comuns na época de Pitt.

– E este cavalheiro na minha frente, aquele com o veludo preto e as rendas?

– Ah, o senhor tem o direito de saber sobre ele. Esse é a causa de todas as confusões, o malvado Hugo, que começou o Cão dos Baskervilles. É provável que não o esqueçamos.

Fiquei olhando com interesse e uma certa surpresa para o retrato.

– Santo Deus! – disse Holmes. – Ele parece um homem bastante tranqüilo e de hábitos pacíficos, mas ouso dizer que havia um demônio escondido em seus olhos. Eu o havia imaginado como uma pessoa mais robusta e fanfarrona.

– Não há nenhuma dúvida quanto à autenticidade, porque o nome e a data, 1647, estão atrás da tela.

Holmes falou pouca coisa além disso, mas o retrato do velho pândego parecia exercer uma fascinação sobre ele, e seus olhos continuaram fixos nele durante a ceia. Só mais tarde, quando sir Henry já havia ido para o seu quarto, é que pude seguir a linha dos seus pensamentos. Ele me levou de volta ao salão de banquetes com a vela do seu quarto na mão, e a aproximou do retrato manchado pelo tempo na parede.

– Você está vendo alguma coisa ali?

Olhei para o chapéu de plumas grandes, os cachos encaracolados, o colarinho de renda branca e o rosto severo e franco emoldurado por eles. Não era um semblante brutal, mas era afetado, rígido e severo, com uma boca de lábios finos resolutos e um olhar friamente intolerante.

– Parece-se com alguém que você conhece?

– Há alguma coisa de sir Henry no queixo.

– Apenas uma sugestão, talvez. Mas espere um instante! – Ele subiu numa cadeira e, segurando a luz na mão esquerda, cobriu com o braço direito o chapéu largo e os longos cachos.

– Santo Deus! – exclamei, espantado.

O rosto de Stapleton havia saltado da tela.

– Ah, você está vendo agora. Meus olhos foram treinados para examinar fisionomias e não seus acessórios. A primeira qualidade de um investigador criminal é poder ver através de um disfarce.

– Mas isto é maravilhoso. Podia ser o retrato dele.

– Sim, esse é um exemplo interessante de reversão a um tipo ancestral, que parece ser tanto física como espiritual. Um estudo de retratos de família é suficiente para converter um homem à doutrina da reencarnação. O sujeito é um Baskerville, isso é evidente.

– Com pretensão na sucessão.

– Exatamente. Este acaso do retrato nos forneceu um dos elos perdidos mais óbvios. Nós o temos, Watson, nós o temos, e arrisco-me a jurar que antes de amanhã à noite ele estará esvoaçando em nossa rede tão impotente quanto uma de suas próprias borboletas. Um alfinete, uma rolha e um cartão, e nós o acrescentaremos à coleção de Baker Street! – Ele teve um dos seus raros ataques de riso enquanto se afastava do retrato. Eu não o ouvira rir muitas vezes, e isso sempre resultou em mau presságio para alguém.

Acordei cedo de manhã, mas Holmes levantou-se mais cedo ainda, porque eu o vi subindo pelo caminho enquanto me vestia.

– Devemos ter um dia cheio hoje – ele comentou, e esfregou as mãos com a alegria da ação. – As redes estão em posição, e o arrastão está prestes a começar. Saberemos, antes de o dia terminar, se pegamos o nosso lúcio grande de queixo fino, ou se ele fugiu através das malhas.

– Você já esteve no pântano?

– Mandei um relatório de Grimpen para Princetown a respeito da morte de Selden. Acho que posso prometer que nenhum de vocês será incomodado nesse caso. E comuniquei-me também com o meu fiel Cartwright, que certamente estaria grudado na porta da minha cabana como um cão na sepultura do seu dono se eu não o tivesse tranqüilizado em relação à minha segurança.

– Qual é o próximo passo?

– Ver sir Henry. Ah, aqui está ele!

– Bom-dia, Holmes – disse o baronete. – Você parece um general planejando uma batalha com o chefe do seu estado-maior.

– Essa é a situação exata. Watson estava perguntando pelas ordens.

– E eu também.

– Muito bem. Você tem um compromisso, pelo que sei, de jantar com os nossos amigos Stapletons esta noite.

– Espero que você venha também. Eles são pessoas muito hospitaleiras, e tenho certeza de que ficariam muito satisfeitos de vê-lo.

– Acho que Watson e eu teremos de ir para Londres.

– Para Londres?

– Sim, acho que poderíamos ser mais úteis lá, nas atuais circunstâncias.

O rosto do baronete se encompridou perceptivelmente.

– Eu esperava que vocês fossem me ajudar neste caso até o fim. A Mansão e o pântano não são lugares muito agradáveis quando se está sozinho.

– Meu caro amigo, você tem de confiar em mim cegamente e fazer exatamente o que eu mandar. Pode dizer aos seus amigos que ficaríamos felizes de ter ido com você, mas que negócios urgentes exigiram a nossa presença na cidade. Esperamos voltar logo ao Devonshire. Você se lembrará de dar a eles esse recado?

– Se você insiste nisso.

– Não há nenhuma alternativa, garanto-lhe.

Vi pela fronte anuviada do baronete que ele estava profundamente magoado pelo que considerava uma deserção nossa.

– Quando vocês desejam ir? – ele perguntou friamente.

– Imediatamente após o café. Iremos de charrete até Coombe Tracey, mas Watson deixará suas coisas como garantia de que voltará para a sua companhia. Watson, mande um bilhete para Stapleton dizendo-lhe que lamenta não poder ir.

– Estou com vontade de ir para Londres com vocês – disse o baronete. – Por que deveria ficar aqui sozinho?

– Porque esse é o seu posto de serviço. Porque você me deu a sua palavra de que faria o que lhe mandassem, e estou dizendo para você ficar.

– Está bem, então ficarei.

– Mais uma instrução! Quero que vá de charrete para a Casa de Merripit. Mas mande a charrete de volta e diga-lhes que pretende voltar a pé para casa.

– A pé pelo pântano?

– É.

– Mas isso é exatamente o que você me avisou tantas vezes para não fazer.

– Desta vez você pode fazer isso com segurança. Se eu não tivesse absoluta confiança na sua coragem e sua determinação, não sugeriria isso, mas é essencial que o faça.

– Então farei.

– E se você dá valor à sua vida, só atravesse o pântano pelo caminho direto que vai da Casa de Merripit até a estrada de Grimpen, e que é o seu caminho natural para casa.

– Farei exatamente o que você diz.

– Muito bem. Gostaria de ir embora logo depois do café, para chegar a Londres à tarde.

Eu fiquei muito espantado com este programa, embora me lembrasse de Holmes ter dito a Stapleton na noite anterior que sua visita terminaria no dia seguinte. Mas não passara pela minha cabeça que ele iria querer que eu fosse com ele, nem conseguia compreender como nós dois poderíamos ficar ausentes num momento que ele próprio afirmara ser decisivo. Mas não havia nada a fazer exceto obedecer cegamente, de modo que dissemos adeus ao nosso amigo pesaroso, e duas horas depois estávamos na estação de Coombe Tracey e havíamos mandado a charrete de volta. Um garotinho estava esperando na plataforma.

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