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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Isso quanto à morte de sir Charles Baskerville. Você percebe a astúcia diabólica disso, porque realmente seria quase impossível instaurar um processo contra o verdadeiro assassino. Seu único cúmplice não poderia jamais denunciá-lo, e a natureza grotesca, inconcebível do artifício só serviu para torná-lo mais eficaz. As duas mulheres relacionadas com o caso, a sra. Stapleton e a sra. Laura Lyons, ficaram muito desconfiadas de Stapleton. A sra. Stapleton sabia que ele tinha planos em relação ao velho, e também da existência do cão. A sra. Lyons não sabia nenhuma destas coisas, mas ficara impressionada com o fato de a morte ocorrer na ocasião de um encontro não desmarcado, o que só ele sabia. Mas ambas estavam sob a influência dele, e ele não tinha nada a recear delas. A primeira metade da sua tarefa fora realizada com sucesso, mas faltava o mais difícil.

– É possível que Stapleton não soubesse da existência de um herdeiro no Canadá. De qualquer maneira ele saberia disso muito em breve pelo seu amigo, o dr. Mortimer, que contou a ele todos os detalhes da chegada de Henry Baskerville. A primeira idéia de Stapleton foi que este jovem estranho do Canadá talvez pudesse ser morto em Londres, sem chegar a ir até o Devonshire. Ele não confiava na sua mulher desde que ela se recusara a ajudá-lo a preparar uma armadilha para o velho, e não se atrevia a deixá-la por muito tempo longe dele com medo de perder a influência sobre ela. Foi por este motivo que a levou para Londres consigo. Eles se hospedaram, eu descobri, no Hotel Particular Mexborough, na Craven Street, que foi realmente um daqueles visitados pelo meu agente em busca de provas. Ali Stapleton manteve a mulher prisioneira no quarto enquanto ele, disfarçado com uma barba, seguiu o dr. Mortimer até Baker Street e depois até a estação e ao Hotel Northumberland. Sua mulher tinha alguma idéia dos seus planos; mas tinha tanto medo do marido – medo baseado nos maus-tratos brutais –, que não se atreveu a escrever para prevenir o homem que ela sabia que estava em perigo. Se a carta caísse nas mãos de Stapleton, sua própria vida correria risco. Finalmente, como sabemos, ela recorreu ao expediente de cortar as palavras que formariam a mensagem, e endereçar a carta numa letra disfarçada. Ela chegou ao baronete e deu-lhe o primeiro aviso do perigo que corria.

– Era essencial para Stapleton arranjar alguma peça de vestuário de sir Henry para que, no caso de ser obrigado a usar o cão, pudesse ter os meios de lançá-lo na sua pista. Com presteza e audácia características, ele cuidou disto imediatamente, e não podemos duvidar de que o engraxate ou a camareira do hotel foram bem subornados para ajudá-lo em seu plano. Mas, por acaso, a primeira bota que foi conseguida para ele era nova e, portanto, inútil para o seu objetivo. Então Stapleton fez com que ela fosse devolvida e obteve outra, um incidente muito instrutivo, já que provou que estávamos lidando com um cão verdadeiro, porque nenhuma outra hipótese poderia explicar esta ansiedade para obter uma bota velha e esta indiferença pela nova. Quanto mais outré e grotesco é um incidente, com mais cuidado ele merece ser examinado, e o próprio detalhe que parece complicar um caso é, quando devidamente considerado e cientificamente manipulado, aquele que tem mais probabilidade de elucidá-lo.

– Depois tivemos a visita dos nossos amigos na manhã seguinte, seguidos sempre por Stapleton no cabriolé. Por conhecer o nosso endereço e a minha aparência, bem como pela sua conduta geral, estou inclinado a pensar que a carreira criminosa de Stapleton não está limitada de modo algum a este caso isolado de Baskerville. É sugestivo o fato de durante os últimos três anos ter havido quatro roubos vultosos na região Oeste, e nenhum criminoso jamais foi preso por qualquer um deles. O último destes, em Folkestone Court, em maio, foi notável pelo disparo a sangue-frio do pajem, que surpreendeu o ladrão mascarado e solitário. Não tenho dúvida de que Stapleton obteve seus recursos, que estavam acabando, desta maneira, e que durante anos ele tem sido um homem desesperado e perigoso.

– Tivemos um exemplo da presteza dos seus recursos naquela manhã em que se livrou de nós com tanto êxito, e também da sua audácia ao mandar de volta o meu próprio nome por intermédio do cocheiro. A partir daquele momento ele compreendeu que eu havia assumido o caso em Londres, e que, portanto, não havia nenhuma chance para ele aqui. Ele voltou para Dartmoor e esperou a chegada do baronete.

– Um momento! – eu disse. – Você descreveu a seqüência dos acontecimentos corretamente, mas há um detalhe que você deixou inexplicado. O que aconteceu com o cão quando o seu dono esteve em Londres?

– Eu dei alguma atenção a este assunto, e ele de fato é importante. Não pode haver nenhuma dúvida de que Stapleton tinha um confidente, embora seja pouco provável que ele chegasse a se colocar em seu poder compartilhando todos os seus planos com ele. Havia um velho empregado na Casa de Merripit cujo nome era Anthony. Sua ligação com os Stapletons era antiga, desde o tempo em que ele dirigiu o colégio, de modo que ele devia saber que seu patrão e sua patroa eram realmente marido e mulher. Este homem desapareceu e fugiu do país. É sugestivo o fato de que Anthony não é um nome comum na Inglaterra, mas Antonio é em todos os países hispânicos ou hispano-americanos. O homem, como a própria sra. Stapleton, falava inglês bem, mas com um curioso sotaque ciciado. Eu mesmo vi este velho atravessar o charco de Grimpen pelo caminho que Stapleton havia demarcado. É muito provável, portanto, que na ausência do seu patrão fosse ele quem cuidasse do cão, embora talvez não soubesse com que objetivo o animal era usado.

– Os Stapletons depois foram para o Devonshire, seguidos pouco tempo depois por sir Henry e você. Uma palavra agora quanto à minha própria posição na ocasião. Provavelmente você deve se recordar que, quando examinei o papel no qual as palavras impressas foram coladas, fiz um exame minucioso da marca d’água. Ao fazer isso, segurei-o a poucos centímetros dos meus olhos e percebi um ligeiro aroma do perfume conhecido como jasmim branco. Há 75 perfumes e por isso é necessário que um especialista em crimes consiga distinguir uns dos outros,

e mais de uma vez ocorreram casos em minha própria experiência que dependiam do seu rápido reconhecimento. A fragrância sugeria a presença de uma dama, e os meus pensamentos já começavam a se voltar para os Stapletons. Assim eu havia me certificado do cão, e havia desconfiado do criminoso antes mesmo de irmos para a região Oeste.

– O meu plano era vigiar Stapleton. Mas era evidente que eu não poderia fazer isso se estivesse com vocês, já que ele ficaria em guarda. Portanto, enganei todo mundo, inclusive você, e fui para o sul secretamente, quando pensavam que eu estava em Londres. Minhas dificuldades não foram tão grandes como você imaginou, embora esses detalhes triviais nunca devam interferir na investigação de um caso. Fiquei a maior parte do tempo em Coombe Tracey, e só usei a cabana do pântano quando foi necessário ficar perto do local da ação. Cartwright tinha vindo comigo, e em seu disfarce de menino do campo me deu uma grande ajuda. Eu dependia dele para a comida e a roupa branca limpa. Enquanto eu ficava observando Stapleton, Cartwright ficava freqüentemente observando você, de modo que eu podia controlar todos os cordões.

– Eu já disse a você que os seus relatórios me chegavam rapidamente, sendo reenviados na mesma hora de Baker Street para Coombe Tracey. Eles me ajudaram muito, principalmente aquela sorte, incidentalmente verdadeira, da biografia dos Stapletons. Eu consegui determinar a identidade do homem e da mulher, e saber afinal a quantas andava. O caso ficou mais complicado por causa do incidente do condenado foragido e das relações entre ele e os Barrymores. Isto também você esclareceu de modo muito eficiente, embora eu já tivesse chegado às mesmas conclusões pelas minhas próprias observações.

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