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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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que os casos se superpusessem, e que sua mente clara e lógica fosse desviada do seu trabalho atual para ficar remoendo lembranças do passado. Mas sir Henry e o dr. Mortimer estavam em Londres, a caminho daquela longa viagem que fora recomendada para a recuperação dos seus nervos abalados. Eles haviam nos visitado naquela mesma tarde, de modo que era natural que o assunto surgisse para discussão.

– Todo o curso dos acontecimentos – disse Holmes –, do ponto de vista do homem que chamava a si mesmo de Stapleton, era simples e direto, embora para nós, que no começo não tínhamos nenhum meio de saber os motivos dos seus atos e podíamos conhecer apenas uma parte dos fatos, tudo parecesse extremamente complexo. Eu tive a vantagem de duas conversas com a sra. Stapleton, e o caso agora foi tão completamente esclarecido que não sei se há alguma coisa que tenha permanecido secreta para nós. Você encontrará algumas anotações sobre o assunto na letra B da minha lista de casos.

– Talvez você pudesse fazer a gentileza de me dar, de memória, um resumo do curso dos acontecimentos.

– Certamente, embora não possa garantir que tenha todos os fatos em mente. A concentração mental intensa tem uma maneira curiosa de apagar o que passou. O advogado que tem o seu caso na ponta da língua e pode discutir com um especialista sobre o seu próprio assunto descobre que uma semana ou duas de tribunal afastará isso tudo da sua cabeça mais uma vez. De modo que cada um dos meus casos substitui o último, e mlle. Carère apagou a minha lembrança da Mansão Baskerville. Amanhã algum outro probleminha pode ser submetido à minha atenção, o que, por sua vez, desalojará a bela dama francesa e o infame Upwood. No que diz respeito ao caso do cão, contudo, vou dar-lhe a sucessão dos fatos da maneira mais aproximada possível, e você sugerirá qualquer coisa que eu possa ter esquecido.

– Minhas investigações mostram, fora de qualquer dúvida, que o retrato de família não mentiu, e que este sujeito era realmente um Baskerville. Ele era filho daquele Rodger Baskerville, o irmão caçula de sir Charles, que fugiu com uma reputação sinistra para a América do Sul, onde dizem que morreu sem se casar. Na verdade, ele se casou e teve um filho, este sujeito, cujo nome verdadeiro é o mesmo do seu pai. Ele se casou com Beryl Garcia, uma das beldades da Costa Rica e, tendo roubado uma soma considerável de dinheiro público, mudou o nome para Vandeleur e fugiu para a Inglaterra, onde instalou um colégio a leste de Yorkshire. Seu motivo para tentar este ramo especial de negócio foi ter conhecido um tutor tuberculoso na viagem para casa, e ter usado a capacidade deste homem para fazer do empreendimento um sucesso. Mas Fraser, o tutor, morreu, e o colégio que havia começado bem caiu do descrédito para a infâmia. Os Vandeleurs acharam conveniente mudar seu nome para Stapleton; e ele trouxe o resto da sua fortuna, seus planos para o futuro e o seu gosto pela entomologia para o sul da Inglaterra. Eu soube no Museu Britânico que ele era uma autoridade reconhecida no assunto, e que o nome de Vandeleur estava ligado permanentemente a uma certa mariposa que ele, no seu tempo de Yorkshire, havia sido o primeiro a descrever.

– Chegamos agora àquela parte da vida dele que acabou tendo um interesse tão grande para nós. O sujeito, evidentemente, havia investigado e descoberto que só duas vidas se interpunham entre ele e uma propriedade valiosa. Quando foi para o Devonshire, seus planos eram, creio, extremamente vagos, mas que ele estava com más intenções desde o início é evidente pela maneira como levou sua mulher consigo disfarçada como sua irmã. A idéia de usá-la como chamariz já estava em sua mente, embora ele talvez não tivesse certeza de como os detalhes da sua trama deviam ser organizados. Ele pretendia no fim ter a propriedade, e estava pronto a usar qualquer instrumento ou correr qualquer risco para este fim. Seu primeiro ato foi estabelecer-se o mais perto possível do seu lar ancestral, e o segundo foi cultivar uma amizade com sir Charles Baskerville e com os vizinhos.

– O próprio baronete contou a ele sobre o cão da família, e assim preparou o caminho para a sua própria morte. Stapleton, como continuarei a chamá-lo, sabia que o coração do velho era fraco e que um choque o mataria. Isso ele soubera pelo dr. Mortimer. Ele ouvira também que sir Charles era supersticioso e havia levado muito a sério esta lenda sinistra. Sua mente engenhosa sugeriu logo um meio de matar o baronete e mesmo assim dificilmente seria possível atribuir a culpa ao verdadeiro assassino.

– Depois de conceber a idéia, começou a executá-la com considerável finesse. Um planejador comum teria se contentado em trabalhar com um cão selvagem. O uso de meios artificiais para tornar a criatura diabólica foi um lampejo de gênio da parte dele. O cão ele comprou em Londres de Ross e Mangles, os comerciantes da Fulham Road. Era o mais forte e o mais selvagem que eles tinham. Ele o trouxe para o sul pela linha North Devon e caminhou um trecho grande pelo pântano para levá-lo até em casa sem despertar comentários. Em suas caçadas de insetos ele já havia aprendido a penetrar no charco de Grimpen,

e assim encontrara um esconderijo seguro para a criatura. Ali ele o conservou e esperou a sua oportunidade.

– Mas demorou algum tempo. O velho cavalheiro não podia ser atraído para fora das suas terras à noite. Várias vezes Stapleton escondeu-se por perto com o cão, mas sem resultado. Foi durante estas andanças infrutíferas que ele, ou melhor, seu aliado, foi visto pelos camponeses, e que a lenda do cão diabólico ganhou uma nova confirmação. Ele esperava que sua mulher pudesse levar sir Charles à ruína, mas ela se mostrou inesperadamente independente. Ela não tentaria enredar o velho cavalheiro numa ligação sentimental que pudesse entregá-lo ao seu inimigo. Nem ameaças nem, lamento dizer, pancadas conseguiram demovê-la. Ela não queria ter nada a ver com isso, e durante algum tempo Stapleton ficou num impasse.

– Ele encontrou uma saída para as suas dificuldades por meio da oportunidade que sir Charles, que havia expressado amizade por ele, proporcionara, encarregando-o de fazer caridade em seu nome no caso desta infeliz mulher, a sra. Laura Lyons. Apresentando-se como solteiro, ele adquiriu influência absoluta sobre ela, e deu-lhe a entender que, se ela obtivesse o divórcio do seu marido, se casaria com ela. Seus planos foram levados de repente a uma fase decisiva quando ele soube que sir Charles estava prestes a deixar a Mansão a conselho do dr. Mortimer, com cuja opinião ele próprio fingia concordar. Ele devia agir imediatamente ou a sua vítima podia ficar fora do seu alcance. De modo que pressionou a sra. Lyons para escrever aquela carta, implorando ao velho para conceder-lhe uma entrevista na noite anterior à sua partida para Londres. Depois, por meio de um argumento capcioso, impediu-a de ir, e assim teve a oportunidade que estava esperando.

– Voltando de charrete à noite de Coombe Tracey, ele chegou a tempo de pegar o seu cão, lambuzá-lo com esta tinta infernal e levar o animal até o portão no qual tinha motivo para esperar encontrar o velho cavalheiro. O cão, incitado pelo dono, saltou por cima da cancela do portão e perseguiu o infeliz baronete, que fugiu gritando pela Aléia dos Teixos. Naquele túnel sombrio devia realmente ter sido uma cena horrível ver aquela criatura imensa preta, com as mandíbulas em chamas e os olhos brilhantes, saltando atrás da sua vítima. Ele caiu morto no fim da aléia de ataque cardíaco e terror. O cão tinha ficado sobre a margem de grama enquanto o baronete correra pelo caminho, de modo que nenhuma pista era visível a não ser a do homem. Ao vê-lo caído imóvel, a criatura provavelmente aproximou-se para farejá-lo, mas encontrando-o morto, havia se afastado novamente. Foi então que ela deixou a marca que foi realmente observada pelo dr. Mortimer. O cão foi chamado e levado às pressas para o seu covil no charco de Grimpen, e ficou um mistério que intrigou as autoridades, alarmou a região e finalmente trouxe o caso para o âmbito da nossa observação.

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