O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- Foi assim que o amor se perdeu - disse. - Quando começamos a
estabelecer exatamente as regras para que ele pudesse se manifestar.
- E quando foi isso? - perguntou Marie.
- Não sei. Mas sei que é possível fazer com que esta Energia retorne. Sei, porque quando danço, ou quando escuto a voz, o Amor conversa comigo.
Marie não sabia o que era “escutar a voz”, mas já tínhamos chegado à
ponte. Descemos e começamos a andar pela fria noite de Paris.
- Sei que ficou assustado com o que viu. O maior perigo é enrolar a língua e sufocar; o dono do restaurante sabia como agir, e isso quer dizer que já deve ter acontecido antes em sua pizzaria. Não é tão raro assim. Entretanto, seu
diagnóstico está errado: não sou epilético. É o contacto com a Energia.
Claro que ele era epilético, mas não adiantava dizer o contrário. Eu
procurava agir normalmente. Precisava manter a situação sob controle - estava surpreso com a facilidade com que ele aceitara me encontrar desta vez.
- Preciso de você. Preciso que escreva algo sobre a importância do amor -
disse Mikhail.
- Todo mundo sabe da importância do amor. Quase todos os livros escritos
são sobre isso.
- Então, vou reformular meu pedido: preciso que escreva algo sobre o novo Renascimento.
- O que é o novo Renascimento?
- É o momento parecido com o que surgiu na Itália nos séculos XV e XVI,
quando gênios como Erasmo, Da Vinci, Michelangelo param de olhar para as
limitações do presente, a opressão das convenções da época, e se voltam para o passado. Assim como ocorreu naquela época, estamos retornando à linguagem mágica, à alquimia, à idéia da Deusa Mãe, à liberdade de se fazer aquilo em que acreditamos, e não o que a igreja ou o governo exigem. Como em Florença de 1500, descobrimos de novo que o passado contém as respostas para o futuro.
“Veja essa história de trem que contou: em quantas outras coisas estamos
obedecendo a padrões que não entendemos? Como as pessoas lêem o que você
escreve, será que não pode tocar neste tema?”
- Jamais negociei um livro - respondi, lembrando-me de novo de que
precisava manter o respeito por mim mesmo. - Se o assunto for interessante, se estiver em minha alma, se o barco chamado Palavra me levar até esta ilha, talvez eu escreva. Mas isso nada tem a ver com minha procura por Esther.
- Eu sei, e não estou impondo uma condição; apenas sugerindo o que julgo
ser importante.
- Ela lhe comentou sobre o Banco de Favores?
- Sim. Mas não se trata de Banco de Favores. Trata-se de uma missão que
não estou conseguindo cumprir sozinho.
- Sua missão é o que faz no restaurante armênio?
- Apenas uma pequena parte. Fazemos a mesma coisa nas sextas-feiras,
com mendigos. Trabalhamos nas quartas-feiras com os novos nômades.
Novos nômades? Melhor não interromper agora; o Mikhail que conversava
comigo não tinha a arrogância da pizzaria, o carisma do restaurante, a
insegurança da tarde de autógrafos. Era uma pessoa normal, um companheiro com quem sempre terminamos a noite conversando sobre os problemas do
mundo.
- Só posso escrever sobre aquilo que realmente me toca a alma - insisti.
- Gostaria de ir conosco conversar com os mendigos?
Lembrei-me do comentário de Esther, e da falsa tristeza nos olhos daqueles que deviam ser os mais miseráveis do mundo.
- Deixe-me pensar um pouco.
Nos aproximávamos do museu do Louvre, mas ele parou, debruçou-se
sobre a murada do rio, e ficamos olhando os barcos que passavam, com os
holofotes ferindo nossos olhos.
- Veja o que estão fazendo - disse, porque eu precisava puxar qualquer
assunto, com medo que ele se entediasse e resolvesse ir para casa. - Olhando aquilo que a luz ilumina. Quando voltarem para casa, dirão que conhecem Paris.
Amanhã devem ver a Mona Lisa, e dirão que visitaram o Louvre. Não conhecem Paris e nem foram ao Louvre - tudo que fizeram foi andar de barco e olhar um quadro, um único quadro. Qual a diferença entre ver um filme pornográfico e fazer amor? A mesma diferença entre olhar uma cidade, e tentar saber o que acontece nela, ir aos bares, entrar por ruas que não estão nos guias turísticos, Perder-se para encontrar consigo mesmo.- Admiro seu controle. Fala dos barcos no Sena, e espera o momento certo para fazer a pergunta que o trouxe até mim.
Sinta-se livre agora para conversar abertamente sobre o que quiser saber.
Não havia nenhuma agressividade em sua voz, e eu resolvi ir adiante.
- Onde está Esther?
- Fisicamente muito longe, na Ásia Central. Espiritualmente, muito perto, acompanhando-me dia e noite com seu sorriso, e com a lembrança de suas
palavras de entusiasmo. Foi ela quem me trouxe até aqui, um pobre jovem de 21
anos, sem futuro, que as pessoas de minha aldeia consideravam uma aberração, um doente ou um feiticeiro que tinha pacto com o demônio, e as pessoas da cidade consideravam um simples camponês em busca de emprego.
“Outro dia lhe conto melhor minha história, mas o fato é que eu sabia falar inglês, e comecei a trabalhar como seu intérprete. Estávamos na fronteira com um país onde ela precisava entrar: os americanos estavam construindo muitas bases militares lá, preparavam-se para a guerra com o Afeganistão, era
impossível conseguir um visto. Eu a ajudei a atravessar as montanhas
ilegalmente. Durante a semana que passamos juntos, ela me fez entender que eu não estava sozinho, que me compreendia.
“Perguntei o que estava fazendo tão longe de casa. Depois de algumas
respostas evasivas, ela finalmente me contou o que deve ter lhe contado:
procurava o lugar onde a felicidade se escondera. Eu lhe falei da minha missão: conseguir que a Energia do Amor volte a se espalhar pela terra. No fundo, os dois estavam em busca da mesma coisa.
“Esther foi à embaixada da França, e me conseguiu um visto - como
intérprete da língua casaque, embora todo mundo em meu país fale apenas russo.
Vim morar aqui. Nos víamos sempre que ela voltava de suas missões no exterior; viajamos mais duas vezes juntos para o Casaquistão; estava interessadíssima na cultura Tengri, e em um nômade que conhecera - e que acreditava ter resposta para tudo.”
Eu queria saber o que era Tengri, mas a pergunta podia esperar. Mikhail
continuou falando, e seus olhos denotavam a mesma saudade que eu tinha de Esther.
- Começamos a fazer um trabalho aqui em Paris - foi ela quem deu a idéia
de reunir as pessoas uma vez por semana. Dizia: “Em toda relação humana, a coisa mais importante é a conversa; mas as pessoas já não fazem mais isso -
sentar-se para falar e para escutar os outros. Vão ao teatro, cinema, vêem televisão, escutam rádio, lêem livros, mas quase não conversam. Se quisermos mudar o mundo, temos que voltar para a época em que os guerreiros se reuniam em torno da fogueira e contavam histórias.”
Lembrei-me que Esther dizia que todas as coisas importantes em nossas
vidas tinham surgido de longos diálogos em uma mesa de bar, ou caminhando pelas ruas e parques.
- E minha a idéia de que seja às quintas-feiras, porque assim manda a
tradição em que fui criado. Mas é dela a idéia de sair de vez em quando pelas noites de Paris: dizia que apenas os mendigos não fingiam estar contentes - ao contrário, fingiam estar tristes.
“Deu-me seus livros para ler. Entendi que também você, talvez de maneira
inconsciente, imaginava o mesmo mundo que nós dois. Entendi que não estava sozinho, embora apenas eu escutasse a voz. Pouco a pouco, à medida que as pessoas passavam a freqüentar meu encontro, comecei a acreditar que podia cumprir minha missão, ajudar que a Energia voltasse, embora Para isso fosse preciso voltar ao passado, ao momento em que ela partiu - ou se escondeu.”- Por que Esther me deixou?
Será que eu não conseguia mudar de assunto? A pergunta deixou Mikhail