O jardim de Rama
- Автор: Ли Джентри, Кларк Артур Чарльз
- Серия: Рама #3
- Год: 1991
- Язык: португальский
- Год: Nova Fronteira
- ISBN: 85-209-0584-6
- Переводчик: Barbara Heliodora
- Жанр: Научная фантастика
Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:
Seu interesse sexual continuou por três noites consecutivas, depois foi embora de modo tão abrupto quanto sua aparição. A princípio, fiquei desapontada (isso não é bem a natureza humana? A maior parte do tempo queremos que tudo seja melhor; e quando é o melhor possível, queremos que dure para sempre), mas agora aceitei que essa faceta de sua personalidade também tem de passar por um processo de cura.
Na noite passada, Richard computou nossa trajetória pela primeira vez depois que voltou. Michael e eu ficamos encantados. “Continuamos no mesmo curso”, anunciou ele com orgulho. “Estamos agora a menos de três anos-luz de Sirius.”
6 DE JANEIRO DE 2210
Quarenta e seis anos. Meu cabelo agora está quase todo grisalho na frente e nos lados. Lá na Terra eu estaria debatendo a possibilidade de começar a pintálo. Aqui em Rama não tem importância.
Estou velha demais para engravidar. É o que deveria dizer à menininha que está crescendo dentro de meu útero. Fiquei espantada quando percebi que estava na verdade grávida de novo. O início da menopausa já se anunciava com suas estranhas ondas de calor e momentos de tontura, com menstruação totalmente imprevisível. Mas o esperma de Richard fabricou mais um bebê, mais uma adição a esta família sem lar perdida à deriva no espaço.
Se jamais tornarmos a encontrar um ser humano (e se Eleonor Joana Wakefield for um bebê saudável, o que parece muito provável a esta altura), então haverá um total de seis combinações possíveis de pais para nossos netos. É quase certo que nem todas essas permutações terão lugar, mas é fascinante imaginá-las. Eu costumava pensar que Simone se acasalaria com Benjy e Katie com Patrick; mas onde irá se encaixar Ellie?
Este é meu décimo aniversário a bordo de Rama. Parece totalmente impossível que eu tenha passado apenas vinte por cento de minha vida neste cilindro gigante. Terei tido uma vez outra vida, lá no planeta oceânico a milhares de bilhões de quilômetros de distância? Terei conhecido humanos adultos além de Richard Wakefield e Michael O’Toole? Será que meu pai foi realmente Pierre des Jardins, o famoso escritor de ficção histórica? Tive um caso secreto e onírico com Henrique, príncipe de Gales, que produziu minha maravilhosa primeira filha Geneviève?
Nada disso parece possível. Pelo menos hoje, quando completo 46 anos. É engraçado, Richard e Michael me indagaram, cada um por sua vez, a respeito do pai de Geneviève. Eu continuo a não contar a ninguém. Não é ridículo? Que diferença poderia fazer a verdade em Rama? Nenhuma. Mas o segredo é meu (só compartilhado com meu pai) desde o momento em que Geneviève foi concebida. Ela é minha filha. Eu a trouxe ao mundo e a criei. Seu pai biológico, eu sempre disse a mim mesma, não tinha importância.
É claro que isso é uma bobajada. Ah! Essa palavra de novo. Quem a usava muito era o dr. David Brown. Ora vejam! Há anos que eu não pensava em nenhum dos outros cosmonautas da Newton. Me pergunto se Francesca e seus amigos ganharam todos os seus milhões com a missão Newton. Espero que Janos tenha recebido o quinhão dele. O querido dr. Tabori, um homem absolutamente encantador. É. E me pergunto também como o fato de Rama ter conseguido escapar da falange nuclear foi explicado aos cidadãos da Terra. Sem dúvida, Nicole, este é um aniversário típico: uma viagem longa e instrutiva ao longo do caminho da memória.
Francesca era tão bonita. Sempre tive ciúmes do modo pelo qual ela controlava a si mesma e os outros. Será que ela drogou o dr. Borzov e Wilson? É provável. Não creio por um momento que fosse sua intenção matar Valeriy, mas seu código moral era realmente deturpado. Como o da maioria das pessoas autenticamente ambiciosas.
Divirto-me agora, ao relembrar o passado; como eu fui obcecada em minha maternidade aos vinte anos. Tinha de ter sucesso em tudo. Minha ambição era bem diversa da de Francesca. Queria mostrar ao mundo que podia jogar dentro de todas as regras e mesmo assim ganhar, do mesmo modo que fizera no salto triplo nas Olimpíadas. O que poderia ser mais impossível para uma mãe solteira do que ser selecionada como cosmonauta? Eu por certo era muito cheia de mim naquela época. Para sorte minha, e de Geneviève, meu pai esteve sempre a meu lado.
Cada vez que olhava para Geneviève eu sabia, é claro, que a marca de Henrique estava muito presente. Do alto dos lábios até a base do queixo ela se parece exatamente com ele. E eu não tinha realmente qualquer intenção de negar a genética. Era apenas tão importante para mim conseguir vencer sozinha, o bastante para provar ao menos para mim mesma que eu era soberba como mulher e mãe, mesmo que não servisse para ser rainha.
Eu era preta demais para ser a rainha Nicole da Inglaterra, ou até mesmo Joana d’Arc em uma festa escolar na França. Pergunto-me quantos anos se passarão até que a cor da pele não seja mais questão crucial para os seres humanos da Terra. Quinhentos? Mil? O que foi mesmo que disse o americano William Faulkner — alguma coisa sobre Sambo só ser livre no dia em que todos e cada um de seus vizinhos acordarem um dia e disserem, tanto para si quanto para seus amigos, que Sambo é livre. Eu penso que ele está certo. Já verificamos que preconceito racial não é erradicado por legislação. Ou sequer por educação. A viagem de cada indivíduo pela vida tem de ter uma epifania, um momento de verdadeira conscientização, no qual ele (ou ela) compreende, de uma vez por todas, que Sambo e todo outro indivíduo no mundo que seja de qualquer modo diferente dele (ou dela) precisa ser livre para que possamos sobreviver.
Quando fiquei no fundo daquele buraco há dez anos, certa de que ia morrer, perguntei-me que momentos específicos de minha vida eu viveria de novo se tivesse oportunidade. Aquelas horas com Henrique saltaram-me na mente, apesar do fato de ele depois ter partido o meu coração. Ainda hoje eu alçaria vôo novamente com o meu príncipe. Ter experimentado a felicidade total, mesmo que apenas por alguns minutos ou horas, é ter vivido. Não importa, em face da morte, que o companheiro de seu grande momento tenha depois traído ou desapontado. O que é importante é aquela sensação de alegria momentânea tão grande que você imagina de haver transcendido a Terra.
Embaraçou-se um pouco, naquele buraco, que as lembranças de Henrique estivessem no mesmo nível que as de meu pai, minha mãe, minha filha. Mas compreendi desde então que não sou assim tão única ao prezar minhas lembranças daquelas horas com ele. Cada pessoa tem momentos ou acontecimentos especiais que são unicamente seus e zelosamente guardados no coração.
Minha única grande amiga na universidade, Gabrielle Moreau, passou uma noite com Geneviève e comigo em Beauvois no ano anterior à expedição Newton. Fazia sete anos que não nos víamos e passamos a maior parte da noite conversando, principalmente a respeito dos maiores acontecimentos emocionais de nossas vidas. Gabrielle era muito feliz. Tinha um marido bonitão, sensível e bem-sucedido, três filhos bonitos e saudáveis, e um belo casarão antigo perto de Chinon. Mas o momento “mais maravilhoso” de Gabrielle, confiou-me ela com um sorriso de menina, ocorrera antes que conhecesse seu marido. Ela tinha tido uma grande paixonite por um famoso astro cinematográfico que certo dia, por acaso, estava em uma locação em Tours. Gabrielle de algum modo conseguiu encontrarse com ele em seu quarto de hotel e conversar sozinha com ele durante quase uma hora. Ela o beijou uma única vez nos lábios e foi embora. E essa era sua lembrança mais preciosa.
Ah, meu príncipe, completaram-se ontem dez anos desde que o vi pela última vez. Você está feliz? É um bom rei? Alguma vez pensa na campeã olímpica preta que se deu a você, seu primeiro amor, com total abandono?