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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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“Vocês precisavam ter visto as aves”, disse Katie a Simone, ao mesmo tempo. “São enormes. E feias. Elas desceram até a toca…”

“As aves voltaram para pegar alguma coisa especial em sua toca”, interrompeu-a Richard. “Talvez algumas lembranças. De qualquer modo, tudo está dando certo. Nós vamos sair daqui.”

Enquanto eu corria de um lado para outro a fim de pôr o essencial em algumas de nossas caixas mais resistentes, critiquei-me por não haver percebido tudo mais cedo. Nós havíamos observado tanto a roda quanto a estrela-do-mar “descarregando” na estação intermediária, mas não nos ocorrera que nós poderíamos ser a carga a ser descarregada por Rama.

Era impossível resolver o que empacotar. Vínhamos vivendo naqueles seis cômodos (inclusive os dois que usávamos como depósito) havia trezes anos.

Havíamos requisitado uma média de cinco itens por dia, por meio do teclado. É verdade que a maioria dos objetos já haviam sido jogados fora há muito tempo, mas mesmo assim… Não sabíamos para onde estávamos indo. Como poderíamos saber o que levar?

“Você tem alguma idéia do que vai nos acontecer?”, perguntei a Richard. Meu marido estava fora de si tentando descobrir como transportar seu computador grande. “Nossa história, nossa ciência — tudo o que resta de nosso conhecimento está ali”, disse ele, apontando para o computador, em grande agitação. “E se ele for irrecuperavelmente perdido?”

Ele pesava apenas uns oitenta quilos, ao todo. Disse-lhe que todos nós o ajudaríamos a carregar o computador depois de empacotarmos nossas roupas, objetos de uso pessoal e um pouco de água e comida.

“Você tem alguma idéia de para onde estamos indo?”, repeti.

Richard deu de ombros. “Nem a mais vaga. Mas seja como for, aposto que será espantoso.”

Katie entrou em nosso quarto. Ela estava segurando uma sacolinha e seus olhos brilhavam de vida e energia. “Já arrumei tudo”, disse ela. “Posso ir para a superfície para esperar?”

A afirmativa do pai mal se desenhara e Katie já saía correndo porta afora.

Eu sacudi a cabeça e lancei um olhar de reprovação a Richard, e atravessei a sala para ir ajudar Simone e as outras crianças. O processo de arrumar as coisas dos meninos foi um sofrimento. Benjy ficou rabugento e confuso. Até Patrick ficou irritadiço. Simone e eu mal estávamos acabando (foi impossível empacotar o que quer que seja até nós mandarmos os dois meninos dormir um pouco) quando Richard e Katie voltaram da superfície.

“Nosso veículo já chegou”, disse Richard com calma, reprimindo sua excitação.

“Está estacionado no gelo”, acrescentou Katie, tirando seu casaco pesado e as luvas.

“Como sabe que é nosso?”, perguntou Michael, que entrara logo depois de Richard e Katie.

“Tem oito lugares e espaço para nossa bagagem”, respondeu minha filha de dez anos. “Para quem mais poderia ser?”

“Quem”, disse eu mecanicamente, tentando assimilar essa informação mais recente. Sentia-me como se viesse bebendo de uma mangueira de incêndio já fazia quatro dias.

“Vocês viram alguma octoaranha?” perguntou Patrick.

“Oc-to-a-ra-nha”, repetiu Benjy, cuidadosamente.

“Não”, respondeu Katie, “mas vimos quatro aviões monumentais, bem chatos, com asas muito largas. Voaram acima de nossas cabeças, vindos do sul.

Nós achamos que os aviões chatos estavam carregando as octos, não foi, papai?”

Richard concordou com um movimento de cabeça.

Eu respirei fundo. “Tudo bem, então. Agasalhem-se, todos. E vamos.

Carreguem as sacolas primeiro. Richard, Michael e eu faremos depois uma segunda viagem para buscar o computador.”

Uma hora depois estávamos todos num veículo. Tínhamos subido as escadas de nossa toca pela última vez. Richard apertou um botão vermelho que piscava e nosso helicóptero ramaiano (chamo-o assim porque foi direto para cima, não porque tivesse uma pá rotativa) levantou do chão. Nos primeiros cinco minutos, a rota do nosso vôo foi lenta e vertical. Uma vez que nos aproximamos do eixo giratório de Rama, onde não havia gravidade e muito pouca atmosfera, o veículo adejou no mesmo lugar por dois ou três minutos enquanto modificava sua estrutura externa.

A derradeira visão de Rama foi espantosa. A muitos quilômetros abaixo, a ilha em que morávamos não passava de uma pequena mancha marromacinzentada no meio do mar congelado que circundava o cilindro gigante. Pude ver os chifres da abóbada sul mais claramente do que nunca, aquelas longas e surpreendentes estruturas, apoiadas sobre possantes contrafortes, maiores do que pequenas cidades na Terra, todas apontadas direto para o norte.

Senti-me estranhamente comovida, enquanto nossa nave começou a mover-se novamente. Afinal, Rama tinha sido nosso lar por treze anos, onde eu dera à luz cinco crianças. Lá eu também amadureci, lembro-me de ter pensado, e é possível que finalmente me tenha tornado a pessoa que sempre quis ser.

Havia muito pouco tempo para remoer o passado. Logo que a alteração na configuração externa terminou, nosso veículo projetou-se para fora do eixo giratório, rumo ao norte, em questão de poucos minutos. Tínhamos deixado Rama. Sabia que jamais voltaríamos. Enxuguei as lágrimas enquanto nosso trem partia da estação.

DENTRO DO NODO

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Nicole dançava. Seu parceiro na valsa era Henry. Eram jovens, estavam muito apaixonados e a música encantadora enchia o salão de baile enquanto uns vinte pares moviam-se ritmadamente pelo salão. Nicole estava estonteante em seu longo vestido de baile branco. Os olhos de Henry estavam presos nos dela. Ele a segurava com firmeza pela cintura, porém ela sentia-se completamente livre.

Seu pai era uma das pessoas de pé em torno da pista de dança. Estava encostado sobre a coluna maciça que subia uns vinte pés até o teto abobadado.

Ele acenava e sorria enquanto Nicole dançava pelos braços de seu príncipe.

A valsa parecia durar para sempre. Quando finalmente acabou, Henry tomou suas mãos e disse a Nicole que tinha algo muito importante para perguntar. Naquele exato momento, o pai de Nicole tocou suas costas. “Temos de ir. É muito tarde”, sussurrou ele.

Nicole fez uma reverência para o príncipe, mas Henry relutava em soltar suas mãos. “Amanhã”, disse ele. “Conversaremos amanhã.” Ele soprou-lhe um beijo enquanto ela deixava o salão.

Quando Nicole saiu era quase de manhã. O sedã de seu pai estava esperando. Momentos depois, enquanto corriam estrada abaixo junto ao Loire, ela vestia uma blusa e jeans. Nicole agora era mais jovem, uns quatorze anos, e seu pai dirigia mais rápido que o normal. “Não queremos nos atrasar”, disse ele. “A representação começa às oito horas.”

Diante deles agigantava-se Chateau d’Ussé. Com suas muitas torres e cúspides, o castelo tinha servido de inspiração à história original de “A Bela Adormecida”. Ficava a apenas uns poucos quilômetros rio abaixo de Beauvois e sempre tinha sido uns dos lugares favoritos de seu pai.

Era a noite da representação anual em que a história de “A Bela Adormecida” era apresentada ao vivo diante de uma platéia. Pierre e Nicole iam todos os anos. A cada vez, Nicole torcia desesperadamente para que Aurora escapasse da roca mortal que a deixaria em coma. E a cada ano ela chorava lágrimas adolescentes quando o beijo do belo príncipe acordava a bela de seu sono mortal.

A representação tinha terminado, o público já tinha ido embora. Nicole estava subindo pelos degraus circulares que levavam à torre onde supostamente a verdadeira Bela Adormecida tinha adormecido. A adolescente corria pelos degraus, rindo, deixando seu pai bem para trás.

O quarto de Aurora ficava do outro lado da janela comprida. Nicole prendeu a respiração e olhou o suntuoso mobiliário. A cama tinha um dossel, os toucadores eram ricamente decorados. Tudo no quarto era enfeitado de branco.

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