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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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Tanto Katie quanto eu ficamos olhando aparvalhadas. A octoaranha levantou um de seus tentáculos, apontou para o monitor e repetiu a onda roxa larga. Alguns momentos depois, como antes, sobreveio o desenho de arco-íris. “Ela está falando conosco, mamãe”, disse Katie baixinho. “Acho que você tem razão; mas não tenho idéia do que ela possa estar dizendo.”

Depois de esperar o que me pareceu uma eternidade, a octoaranha começou a se mover de costas para a porta, com seu tentáculo esticado chamandonos para que a seguíssemos. Não apareceram mais faixas de cor. Katie e eu nos demos as mãos e a seguimos, cautelosamente. Ela começou a olhar em volta e notou as fotos nas paredes pela primeira vez. “Olhe só, mamãe, eles têm retratos da nossa família.”

Fiz sinal para que se calasse e pedi-lhe que por favor prestasse atenção à octoaranha. Esta recuara até o túnel e se dirigia agora para o corredor vertical com os espinhos e as passagens subterrâneas. Era a oportunidade que eu procurava. Peguei Katie no colo, mandei que se agarrasse a mim com força e corri pelo túnel afora na máxima velocidade. Meus pés mal tocaram o chão até eu chegar ao alto da rampa e me ver de volta a Nova York.

Michael ficou deslumbrado ao ver Katie em segurança e de volta, embora muito preocupada (como eu continuo) com a existência de câmeras ocultas nas paredes e tetos de nossa moradia. Jamais repreendi Katie adequadamente por ter saído sozinha — estava aliviada demais por a ter encontrado. Katie disse a Simone que tinha tido uma “aventura fabulosa” e que a octoaranha era “boazinha”. Assim é o mundo das crianças.

4 DE FEVEREIRO DE 2209

Oh alegria das alegrias! Encontramos Richard! Ele ainda está vivo! Mal e mal, pois está em coma profundo e tem uma febre altíssima, mas mesmo assim está vivo.

Katie e Simone encontraram-no hoje pela manhã, deitado no chão a menos de cinqüenta metros da entrada de nossa toca. Nós três tínhamos combinado jogar um pouco de futebol na praça e estávamos prontas para sair quando Michael me chamou de volta para alguma coisa. Disse às meninas que me aguardassem na área em torno da abertura da toca. Quando as duas começaram a gritar daí a alguns minutos, pensei que algo horrível acontecera.

Corri escada acima e imediatamente vi o corpo comatoso de Richard a distância.

A princípio temi que Richard estivesse morto. Meu lado médico entrou em funcionamento imediatamente, verificando os sinais vitais. As meninas ficaram em cima de mim enquanto eu o examinava. Particularmente Katie, que ficava dizendo sem parar: “Papai está vivo? Ah, mamãe, faz Papai ficar bom.”

Uma vez tendo confirmado que ele estava em coma, Michael e Simone ajudaram-me a carregar Richard para baixo. Injetei uma série de sondas biométricas no sistema dele e venho monitorando as observações desde então.

Tirei-lhe as roupas e examinei-o da cabeça aos pés. Está com alguns arranhões e machucados que eu jamais vira antes, o que é natural depois de todo esse tempo. Sua contagem de células no sangue está estranhamente próxima do normal — eu esperaria anomalias das células brancas com sua febre de quase 40°.

Tivemos outra grande surpresa quando examinamos em detalhe as roupas de Richard. Em sua jaqueta encontramos os robôs shakespearianos, o Príncipe Hal e Falstaff, que haviam desaparecido há nove anos no estranho mundo abaixo do corredor de espinhos do que nós julgávamos ser a toca das octoaranhas. De algum modo, Richard deve tê-las convencido a devolver seus brinquedos.

Há sete horas que estou sentada ao lado de Richard. Durante a maior parte do tempo, esta manhã, outros membros da família também estiveram aqui, mas faz uma hora que Richard e eu estamos sozinhos. Meus olhos banquetearam-se com seu rosto por vários minutos, minhas mãos já passearam por seu pescoço, seus ombros, suas costas. Jamais esperei tornar a vê-lo e tocálo. Richard, bem-vindo ao lar! Bem-vindo de volta para sua mulher e sua família.

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13 DE ABRIL DE 2209

Tivemos um dia incrível. Logo depois do almoço, quando estava sentada ao lado de Richard, fazendo uma verificação de rotina em sua biometria, Katie perguntou-me se poderia brincar com o Príncipe Hal e Falstaff. “É claro”, respondi, sem pensar. Estava certa de que os robozinhos não estavam funcionando e, para falar a verdade, queria que ela saísse do quarto para eu tentar uma nova técnica para fazer Richard sair do coma.

Nunca vi coma nem de longe parecido com o de Richard. A maior parte do tempo seus olhos estão abertos, e ocasionalmente ele até parece estar seguindo algum objeto em seu campo de visão. Porém, não há outros sinais de vida ou de consciência. Nenhum músculo se move. Tenho usado uma grande variedade de estímulos, alguns mecânicos, a maioria químicos, tentando fazê-lo despertar de seu estado comatoso. Nenhum funcionou. Foi por isso que me senti tão despreparada para o que aconteceu hoje.

Uns dez minutos depois que Katie saiu, ouvi uma mistura muito estranha de sons vindo do quarto das crianças. Deixei Richard e caminhei pelo corredor.

Antes que chegasse ao quarto das crianças, o ruído estranho transformou-se em fala escandida de ritmo muito peculiar. “Olá”, disse uma voz que soava como se estivesse no fundo de um poço. “Somos de paz. Está aqui o seu homem.”

A voz estava vindo do Príncipe Hal, que estava de pé no centro do quarto quando eu entrei. As crianças estavam no chão, em volta do robô, meio desconfiadas, a não ser Katie, que estava excitadíssima.

“Eu estava só brincando com os botões”, disse Katie para me explicar, quando eu lhe dei um olhar de indagação, “e de repente ele começou a falar.”

Nenhum movimento acompanhava a fala do Príncipe Hal. Que coisa esquisita, pensei eu, lembrando-me do orgulho de Richard com o fato de seus robôs sempre coordenarem fala e movimento. “Richard não fez isto”, disse-me uma voz interior, mas de início recusei essa idéia. Sentei no chão ao lado das crianças.

“Olá. Somos de paz. Aqui está o seu homem”, repetiu o Príncipe Hal alguns segundos mais tarde. Dessa vez, um sentimento estranhíssimo passou por mim. As meninas ainda estavam rindo, mas pararam logo ao ver a estranha expressão em meu rosto. Benjy engatinhou por cima delas e veio agarrar minha mão.

Estávamos sentados no chão de costas para a porta. Repentinamente, tive a sensação de que havia alguém atrás de mim. Virei-me e vi Richard de pé na passagem. Sufocada, levantei-me de um pulo exatamente no momento em que ele caiu e perdeu a consciência.

As crianças todas gritaram e começaram a chorar. Tentei acalmá-las ao mesmo tempo em que examinava Richard. Já que Michael estava na superfície, em Nova York, dando sua caminhada da tarde, cuidei de Richard no chão, do lado de fora do quarto das crianças, por mais de uma hora. Durante todo esse tempo observei-o muito cuidadosamente, e ele estava exatamente como quando eu o deixei em seu quarto antes. Não havia o menor sinal de que ele tivesse acordado por trinta ou quarenta segundos nesse meio tempo.

Quando Michael voltou, ajudou-me a carregar Richard para o quarto de dormir. Conversamos por mais de uma hora sobre por que Richard haveria de despertar de modo tão abrupto. Mais tarde, li e reli todos os artigos sobre coma que achei em meus livros médicos. Estou convencida de que o estado de Richard é causado por uma mistura de problemas físicos e psicológicos. Em minha opinião, o som daquela voz estranha induziu um trauma nele que por um tempo determinado dominou os fatores que produzem o estado de coma.

Mas por que razão tivera recaída tão imediata? Essa é questão bem mais difícil. Talvez houvesse esgotado sua pequena reserva de energia ao caminhar pelo corredor. Não há meios de sabermos, realmente. Na verdade, não somos capazes de responder a maioria das perguntas sobre o que aconteceu hoje, inclusive a que Katie fica repetindo — quem é de paz?

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