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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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1º DE MAIO DE 2209

Que fique registrado que no dia de hoje Richard Colin Wakefield efetivamente conheceu sua família e disse suas primeiras palavras. Durante quase uma semana ele vinha demonstrando progressos nesse sentido, a princípio dando sinais de reconhecimento com o rosto e os olhos, depois movendo os lábios como se quisesse formar palavras. Ele sorriu para mim hoje de manhã e quase disse meu nome, mas sua primeira palavra verdadeira foi “Katie”, dita hoje à tarde depois que sua filha querida deu-lhe um de seus enérgicos abraços.

Há um clima de euforia na família, particularmente entre as meninas.

Elas estão comemorando a volta do pai. Eu já repetira muitas vezes para Si-mone e Katie que a reabilitação de Richard certamente será longa e dolorosa, mas creio que são jovens demais para compreender o que isso significa.

Sou uma mulher muito feliz. Foi-me impossível reter as lágrimas quando Richard sussurrou distintamente “Nicole” em meu ouvido pouco antes do jantar.

Mesmo compreendendo que meu marido não está nem de longe de volta à normalidade, tenho hoje a certeza de que eventualmente ele há de se recuperar, o que enche meu coração de alegria.

18 DE AGOSTO DE 2209

Lenta porém firmemente Richard continua a melhorar. Só dorme doze horas por dia agora, consegue caminhar quase uma milha antes de se mostrar fatigado e de vez em quando mostra-se capaz de se concentrar em algum problema particularmente interessante. Ainda não começou a interagir com os ramaianos por meio do teclado e da tela, mas desmontou o Príncipe Hal, na esperança de descobrir o que causara aquela estranha voz ouvida no quarto das crianças.

Richard é o primeiro a admitir que ainda não é ele mesmo. Quando pode falar a respeito, diz que está “em uma neblina, como um sonho, porém não tão nítida”. Já se passaram mais de três meses desde que recobrou a consciência, mas ainda não se lembra de muita coisa a respeito do que aconteceu depois que nos deixou, acreditando que tenha estado em coma pelo último ano, mais ou menos. Seu cálculo é baseado mais em sentimentos vagos do que em qualquer fato em particular.

Richard insiste em afirmar que viveu na toca das aves por alguns meses e que esteve presente em uma cremação espetacular. Não sabe fornecer quaisquer outros detalhes. Duas outras vezes ele proclamou ter explorado o Hemicilindro Sul e encontrado a principal cidade das octoaranhas na Bacia Sul, mas como o que consegue lembrar-se muda de dia para dia, é difícil acreditar em qualquer lembrança específica.

Já substituí duas vezes o conjunto biométrico de Richard e tenho longa documentação sobre todos os seus parâmetros críticos. Seus gráficos são normais, a não ser em duas áreas — atividade mental e temperatura. Suas ondas cerebrais diárias desafiam qualquer descrição; não há nada nas enciclopédias médicas que me permita interpretar qualquer par desses gráficos, que dirá o conjunto. Às vezes, o nível de atividade em seu cérebro é astronomicamente alto, outras vezes parece parar completamente. As medições etetroquímicas também são peculiares. Seu hipocampo está virtualmente adormecido — o que pode explicar as dificuldades de Richard com a memória.

Sua temperatura também é muito esquisita. Ela ficou estável, há dois meses, em 37,8 °Celsius, oito décimos de um grau acima da média do ser humano. Verifiquei todos os seus gráficos pré-vôo e a temperatura “normal” de Richard na Terra era de 36,9° exatos. Não consigo explicar a persistência dessa elevação de temperatura. É quase como se seu corpo e algum componente patogênico estivessem em um equilíbrio estável, nenhum dos dois sendo capaz de dominar o outro. Mas que patogenia seria essa, que escapa a qualquer tentativa de identificação?

Todas as crianças ficaram particularmente desapontadas com o comportamento desligado de Richard. Durante sua ausência é provável que o tenhamos mitificado um pouco, porém não há dúvida de que antes ele fora um homem muito mais cheio de energia… Esse novo Richard não passa de uma sombra de sua personalidade anterior. Katie jura que se lembra de lutar e brincar com muito vigor com seu papai quando tinha apenas dois anos (sua memória foi sem dúvida reforçada pelas histórias que Michael, Simone e eu lhe contávamos enquanto ele esteve ausente), e muitas vezes fica zangada por ele passar tão pouco tempo com ela agora. Tento explicar que “papai ainda está doente”, mas não creio que ela se conforme com minhas explicações. Michael trouxe tudo o que é meu de volta para este quarto nas 24 horas que se seguiram ao retorno de Richard. Que homem doce! Passou por uma nova e violenta crise religiosa por várias semanas (acho que em sua mente andou precisando de perdão por pecados bastante graves), mas já diminuiu um pouco desde então, por causa da carga de trabalho que estava recaindo sobre mim. Ele tem um jeito fantástico com as crianças.

Simone funciona como mãe de apoio. Benjy a adora e ela tem paciência infinita com ele. Já que por várias vezes ela comentou que Benjy “é um pouquinho lento”, Michael e eu falamos com ela sobre a síndrome de Whittingham do menino. Ainda não contamos a Katie, que no momento está passando por um período difícil. Nem mesmo Patrick, que a segue por todo canto como um cachorrinho, consegue alegrá-la.

Todos nós sabemos, até as crianças, que estamos sendo observados. Fizemos uma busca cuidadosa pelas paredes e os tetos do quarto das crianças, como se fosse um jogo, e encontramos várias irregularidades mínimas no acabamento da superfície, que concluímos serem as câmeras. Conseguimos raspá-las com nossas ferramentas, mas não podíamos afirmar positivamente que houvéssemos na verdade achado os instrumentos com que somos monitorados.

Estes talvez sejam tão pequenos que não os podemos ver nem mesmo com microscópio. E Richard lembrava-se pelo menos de sua afirmação favorita, de que a tecnologia alienígena não pudesse ser diferente da mágica.

Katie foi quem mais se perturbou com as câmeras xeretas das octoaranhas. Falava aberta e ressentidamente da invasão do que ela chamava de sua “vida privada”. Ela provavelmente tem mais segredos do que qualquer outro de nós. Quando Simone disse à irmã mais moça que na verdade não tinha a menor importância, porque “afinal, Deus também nos observa o tempo todo”, tivemos nossa primeira discussão entre irmãs por motivos religiosos. Katie respondeu com um “merda”, palavra um tanto desagradável para ser usada por uma menina de seis anos. A expressão que usou lembrou-me de passar a ter mais cuidado com minha própria linguagem.

Um dia, no mês passado, levei Richard até a toca das aves, a fim de ver se refrescaria sua memória. Ele ficou muito assustado tão logo entramos no túnel que sai do corredor vertical. “Escuro”, ouvi-o resmungar, “eu não posso ver no escuro, mas eles podem.” Recusou-se a continuar caminhando depois que passamos pela cisterna de água, de modo que eu o trouxe de volta para nossa toca.

Richard sabe que Benjy e Patrick são filhos de Michael, e provavelmente suspeita que Michael e eu vivêssemos como marido e mulher por parte do tempo em que ele esteve ausente, mas jamais comenta o assunto. Tanto Michael quanto eu estamos preparados para pedir perdão a Richard e para ressaltar que não fôramos amantes (a não ser pela concepção de Benjy) antes de ele estar desaparecido por dois anos. No momento, no entanto, Richard não parece ter muito interesse no assunto.

Richard e eu temos compartilhado de nossa esteira conjugal desde o dia em que ele despertou do coma. Temos nos tocado bastante e sido muito amistosos, mas até há duas semanas não tinha havido sexo. De fato eu começava a pensar que sexo seria mais uma das coisas apagadas de sua memória, a tal ponto ele ficara sem reação mesmo a beijos provocantes. Chegou uma noite, no entanto, em que o velho Richard de repente estava na cama comigo. É o tipo de coisa que tem acontecido em outras áreas também — de repente seu antigo espírito, sua energia e inteligência aparecem por um breve período de tempo em sua plenitude. De qualquer modo, o velho Richard foi ardente, divertido e imaginativo. Para mim foi o paraíso, pois lembrei-me de níveis de prazer que enterrara já fazia muito tempo.

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