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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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Katie continua a sentir uma falta terrível de Richard.

Embora Michael fique dizendo que se sente arcaico, está em ótima forma para um homem de 64 anos. Ele se preocupa muito em permanecer suficientemente ativo do ponto de vista físico por causa das crianças, e vem fazendo seu jogging duas vezes por semana desde o início de minha gravidez. Duas vezes por semana, que conceito engraçado. Temos nos mantido fiéis a nosso calendário terreno, muito embora ele não faça o menor sentido em Rama. Outra noite Simone fez-me perguntas a respeito de dias, meses, anos. Quando Michael explicou-lhe a rotação da Terra, as estações do ano, e a órbita terrestre em torno do sol, repentinamente tive uma visão de um magnífico pôr-do-sol em Utah que compartilhei com Geneviève em nossa viagem pelo Oeste americano. Quis contar tudo a Simone, mas como explicar um pôr-do-sol a alguém que jamais viu o sol? O calendário lembra-nos do que éramos. Se jamais chegarmos a um novo planeta, com dia e noite de verdade em lugar destes artificiais de Rama, então certamente teremos de abandonar o calendário terrestre. Porém, por enquanto, os feriados, a passagem dos meses, e principalmente os aniversários, todos nos lembram nossas raízes naquele lindo planeta que agora não podemos mais sequer achar no melhor telescópio ramaiano.

Benjy está pronto para mamar. Sua capacidade mental talvez não seja das melhores, mas por certo ele não tem problemas em me informar de que está com fome. Michael e eu, de comum acordo, ainda não contamos a Simone e Katie nada sobre o caso do irmão. A atenção que ele terá de roubar delas enquanto é bebê já será suficientemente difícil para elas enfrentarem. A necessidade de atenção por parte dele, que tende a continuar ou até mesmo aumentar quando ele começar a engatinhar ou se tornar um menininho, é mais do que podemos esperar que elas compreendam nesta altura de suas jovens vidas.

13 DE MARÇO DE 2207

Katie fez quatro anos hoje. Quando lhe perguntei, há duas semanas, o que queria para seu aniversário, não hesitou um segundo: “Quero meu papai de volta.”

Ela é uma menininha solitária, isolada. Com incrível velocidade de aprendizado, ela é, de meus filhos, de longe, a mais temperamental. Richard também mudava a todo momento. Às vezes, ficava tão contente e exuberante que mal conseguia conter-se, normalmente quando acabava de ter pela primeira vez alguma experiência excitante, mas suas depressões eram monumentais. Por vezes passava toda uma semana sem rir ou sequer sorrir.

Katie herdou seu dom para a matemática, e já sabe somar, diminuir, multiplicar e dividir — ao menos com números pequenos. Simone, que não tem nada de preguiçosa, parece ser ainda mais talentosa, e interessada num leque de assuntos ainda mais amplo. Mas Katie certamente chega muito perto dela na matemática.

Já faz quase dois anos que Richard desapareceu e eu tenho tentado, sem sucesso, substituí-lo no coração de Katie. A verdade é que Katie e eu entramos sempre em conflito. Nossa personalidade não é compatível enquanto mãe e filha.

A individualidade e independência que eu admirava em Richard tornam-se ameaçadoras em Katie. Apesar de minhas melhores intenções, sempre acabamos competindo.

Não nos foi possível, é claro, fazer Richard aparecer para o aniversário de Katie. Mas Michael e eu tentamos produzir alguns presentes interessantes para ela. Apesar de nenhum de nós dois ser particularmente talentoso em eletrônica, conseguimos criar um pequeno vídeo game (o que exigiu inúmeras interações com os ramaianos para conseguir os componentes certos — e muitas noites de trabalho conjunto, para fabricar algo que Richard provavelmente faria em um dia). O jogo se chama “Perdidos em Rama”. Como Katie só tem quatro anos, o jogo era bastante simples; depois de brincar com ele por duas horas, ela já exauriu todas as possibilidades e descobriu como voltar para nossa toca a partir de qualquer ponto de partida em Rama. Nossa maior surpresa teve lugar esta noite, quando lhe perguntamos (o que é uma tradição para nós, em Rama) o que gostaria de fazer na noite de seu aniversário. “Quero entrar na toca das aves”, disse Katie com um brilho travesso no olhar.

Tentamos dissuadi-la, salientando que a distância entre as plataformas é maior do que sua altura. Em resposta, Katie foi até a escada de corda feita com o material das treliças, pendurada ao lado do quarto das crianças, e mostrou-nos que sabia subir nela. Michael sorriu. “Algumas coisas ela herdou da mãe”, disse ele.

“Por favor, mamãe”, disse Katie com sua vozinha precoce; “tudo o mais é tão chato. Quero olhar eu mesma para a sentinela do tanque, só de uns poucos metros.”

Embora com certas reservas interiores, caminhei com Katie até a toca das aves, dizendo-lhe que esperasse na superfície até que eu pusesse a escada de corda no lugar. Na primeira plataforma, defronte da sentinela do tanque, parei por um momento e olhei para o outro lado do abismo, para aquela máquina de movimento perpétuo a proteger a entrada do túnel horizontal. Será que você está sempre aí? indaguei-me. Ou será que em algum momento tem de ser substituída ou consertada, nesse tempo todo?

“Está pronta, mamãe?”, ouvi minha filha chamar, lá de cima. Antes que pudesse subir para encontrar com ela, Katie já estava descendo a escada. Passeilhe um pito quando a alcancei no segundo patamar, porém ela me ignorou, terrivelmente excitada. “Viu só, mamãe? Eu desci sozinha.”

Dei-lhe meus parabéns, embora ainda estivesse assustada com a visão de Katie escorregando da plataforma, batendo em uma das paredes e despencando para o fundo do abismo. Continuamos a descer a escada, eu sempre ajudando-a por baixo, até chegarmos à primeira plataforma e a um par de túneis horizontais.

Do outro lado do abismo a sentinela do tanque continuava seu movimento repetitivo. Katie estava em êxtase.

“O que fica por trás daquela coisa do tanque? Quem o fez? O que é que ele está fazendo ali? Você pulou de um lado para o outro do buraco de verdade?…”

Em resposta a uma de suas perguntas, virei-me e dei vários passos para dentro do túnel atrás de nós, seguindo o facho de minha lanterna e supondo que Katie estivesse atrás de mim. Alguns momentos mais tarde, quando descobri que ela continuava no limiar do abismo, fiquei paralisada de medo. Eu a vi tirar um pequeno objeto do bolso de seu vestido e jogá-lo, do outro lado do abismo, no sentido da sentinela do tanque.

Gritei, mas era tarde demais. O objeto atingiu a frente do tanque. Imediatamente houve um estampido como tiros de revólver, e dois projéteis metálicos penetraram a parede da toca, a não mais de um metro acima da cabeça dela.

“Obaaaa!”, gritou Katie, enquanto eu a puxava para longe do abismo. Eu estava furiosa e minha filha começou a chorar. O barulho na toca estava ensurdecedor.

Ela parou de chorar de repente alguns segundos mais tarde. “Você ouviu?”, perguntou-me. “O quê?”, disse eu, com o coração ainda batendo violentamente. “Bem para lá”, disse ela. Apontou para a escuridão do corredor vertical, atrás da sentinela. Apontei a lanterna para o vazio, mas não pudemos ver nada.

Ficamos as duas absolutamente imóveis, de mãos dadas. Havia um som que vinha do túnel atrás da sentinela. Mas estava no extremo limite de minha audição, e não pude identificá-lo.

“É uma ave”, disse Katie com convicção. “Estou ouvindo suas asas batendo. Obaaa!”, gritou ela novamente com toda a voz.

O som cessou. Embora esperássemos por quinze minutos antes de sairmos da toca, não ouvimos mais nada. Katie contou a Michael e Simone que nós tínhamos ouvido uma ave. Eu não podia confirmar sua história, mas achei melhor não discutir com ela. Ela estava feliz; seu aniversário fora um dia de grandes acontecimentos.

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