Бесплатная библиотека
Читайте книгу на сайте или телефоне

Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
1 ... 20 21 22 23 24 25 26 27 28 ... 59
Перейти на страницу:

Desta vez muitos cigarros foram acesos, mas não houve aplausos. Como se

o tema continuasse sendo um tabu, mesmo naquele lugar.

Enquanto mantinha a mão levantada, perguntei a mim mesmo se estava de

acordo com o senhor que acabara de falar. Sim, estava de acordo: já tinha imaginado algo semelhante com Esther e os soldados no campo de batalha, mas não ousava dizer isso nem para mim mesmo.

Mikhail olhou em minha direção e fez um sinal.

Não sei como consegui levantar-me, olhar aquela audiência visivelmente

chocada com a história do homem que se excita ao pensar em sua mulher sendo possuída por outro. Ninguém parecia prestar atenção, e isso me ajudou a

começar.

- Peço desculpas por não ser tão direto como as duas pessoas que me

precederam, mas tenho algo a dizer. Hoje estive em uma estação de trem, e descobri que a distância que separa os trilhos é de 143,5 centímetros, ou 4 pés e 8,5 polegadas. Por que esta medida tão absurda? Pedi a minha namorada que descobrisse a razão, e eis o resultado:

“Porque no início, quando construíram os primeiros vagões de trem, eles

usaram as mesmas ferramentas utilizadas na construção de carruagens.

“Por que as carruagens tinham esta distância entre as rodas? Porque as

antigas estradas foram feitas para esta medida, e só assim as carruagens podiam trafegar.

“Quem decidiu que as estradas deviam ser feitas nesta medida? E aí de

repente voltamos a um passado muito distante: os romanos, primeiros grandes construtores de estradas, decidiram isso. Qual a razão? Os carros de guerra eram conduzidos por dois cavalos - e quando colocamos lado a lado os animais da raça que usavam naquela época, ocupavam 143,5 centímetros.

“Desta maneira, a distância dos trilhos que vi hoje, usados por nosso

moderníssimo trem de alta velocidade, foi determinada pelos romanos. Quando os imigrantes foram para os Estados Unidos construir ferrovias, não perguntaram se seria melhor modificar a largura, e continuaram com o mesmo padrão. Isso chegou a afetar até mesmo a construção dos ônibus espaciais: engenheiros

americanos achavam que os tanques de combustível deviam ser mais largos, mas eram fabricados em Utah, deviam ser transportados por trem até o Centro

Espacial na Flórida, e os túneis não comportavam algo diferente. Conclusão: tiveram que se resignar ao que os romanos haviam decidido como medida ideal.

“E o que tem isso a ver com o casamento?”

Dei uma pausa. Algumas pessoas não estavam nem um pouco interessadas

em trilhos de trem, e começavam a conversar entre elas. Outras me ouviam com total atenção - entre as quais Marie e Mikhail.

- Isso tem tudo a ver com o casamento e com as duas histórias que

acabamos de ouvir. Em um dado momento da história, alguém apareceu e disse: quando nos casamos, as duas pessoas devem permanecer congeladas para o resto da vida. Vocês caminharão um ao lado do outro como dois trilhos, obedecendo a este exato padrão. Mesmo que um precise estar um pouco longe ou um pouco

mais perto algumas vezes, isso é contra as regras. As regras dizem: sejam sensatos, pensem no futuro, nos filhos. Vocês não podem mais mudar, devem ser como os trilhos: têm a mesma distância entre eles na estação de partida, no meio do caminho, ou na estação de destino. Não deixem o amor mudar, nem crescer no começo, nem diminuir no meio - é arriscadíssimo. Portanto, passado o

entusiasmo dos primeiros anos, mantenham a mesma distância, a mesma solidez, a mesma funcionalidade. Vocês servem para que o trem da sobrevivência da

espécie passe em direção ao futuro: os filhos só serão felizes se vocês

permanecerem como sempre foram - a 143,5 centímetros de distância um do

outro. Se não estão contentes com uma coisa que nunca muda, pensem neles, nas crianças que trouxeram ao mundo.

“Pensem nos vizinhos. Mostrem que são felizes, comem churrasco no

domingo, assistem à televisão, ajudam a comunidade. Pensem na sociedade:

vistam-se de modo a que todos saibam que entre vocês não existem conflitos.

Não olhem para os lados, alguém pode estar olhando para vocês, e isso é uma tentação, pode significar divórcio, crises, depressão.

“Sorriam nas fotos. Coloquem as fotos na sala, para que todos vejam.

Cortem a grama, façam esporte - sobretudo façam esporte, para que possam

permanecer congelados no tempo. Quando o esporte não adiantar mais, façam operação plástica. Mas jamais se esqueçam: em algum momento, estas regras foram estabelecidas, e vocês precisam respeitá-las. Quem estabeleceu estas regras? Isso não tem importância, jamais façam este tipo de pergunta, porque elas continuarão valendo para sempre, mesmo que vocês não estejam de acordo.”

Sentei-me. Alguns aplausos entusiásticos, alguma indiferença, e eu sem

saber se tinha ido longe demais. Marie me olhava com uma mistura de admiração e surpresa.

A mulher no palco tocou o prato.

Disse para Marie que ficasse ali, enquanto eu ia lá fora fumar um cigarro.

- Agora dançarão em nome do amor, da “senhora”.

- Você pode fumar aqui.

- Preciso estar sozinho.

* * *

Embora fosse o início da primavera, ainda fazia muito frio, mas eu

precisava de ar puro. Por que contara toda aquela história? Meu casamento com Esther jamais fora da maneira como havia descrito: dois trilhos, sempre um ao lado do outro, sempre corretos, retos, alinhados. Tivéramos nossos altos e baixos, muitas vezes um dos dois ameaçara partir para sempre, e, mesmo assim

continuamos juntos.

Até dois anos atrás.

Ou até o momento em que ela começou a querer saber por que estava

infeliz.

Ninguém deve se perguntar isso: por que estou infeliz? Esta pergunta traz em si o vírus da destruição de tudo. Se perguntamos isso, vamos querer descobrir o que nos faz felizes. Se o que nos faz felizes é diferente daquilo que estamos vivendo, ou mudamos de uma vez, ou ficamos mais infelizes ainda.

E eu agora me encontrava nesta mesma situação: uma namorada com

personalidade, o trabalho que começava a andar, e uma grande possibilidade de que as coisas terminassem se equilibrando com o tempo. Melhor conformar-se.

Aceitar o que a vida estava me oferecendo, não seguir o exemplo de Esther, não prestar atenção aos olhos das pessoas, lembrar-me das palavras de Marie, criar uma nova existência ao seu lado.

Não, não posso pensar assim. Se eu reajo da maneira com que as pessoas

estão esperando que faça, eu me torno escrava delas. É preciso um controle gigantesco para evitar que isso aconteça, porque a tendência é sempre estar pronto para agradar alguém - principalmente a si mesmo. Mas se eu fizer isso, além de ter perdido Esther, terei também perdido Marie, meu trabalho, meu futuro, meu respeito por mim e por tudo que disse e escrevi.

* * *

Eu entrei ao ver que as pessoas começaram a sair. Mikhail apareceu já com a roupa trocada.

- O que aconteceu no restaurante...

- Não se preocupe - eu respondi. - Vamos passear pelas margens do Sena.

Marie entendeu o recado, disse que precisava dormir cedo aquela noite.

Pedi que nos desse carona no táxi até a ponte que fica em frente à Torre Eiffel -

assim eu poderia voltar a pé para casa. Pensei em perguntar onde Mikhail vivia, mas achei que a pergunta podia ser interpretada como uma tentativa de verificar, com meus próprios olhos, se Esther não estava com ele.

No caminho, ela perguntava insistentemente a Mikhail o que era o

“encontro”, e ele respondia sempre a mesma coisa: uma maneira de recuperar o amor. Aproveitou para dizer que tinha gostado da minha história sobre os trilhos de trem.

1 ... 20 21 22 23 24 25 26 27 28 ... 59
Перейти на страницу:
0
Сюжет
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
0
Атмосфера
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
0
Главный герой
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
0
Общее впечатление
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
Итоговая оценка: 0.0 из 10 (голосов: 0 / История оценок)