O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
“O irmão porteiro colocou o cacho diante de si e passou a manhã inteira
admirando-o: era realmente lindo. Por causa disso, resolveu entregar o presente ao Abade, que sempre o havia estimulado com palavras de sabedoria.
“O Abade ficou muito contente com as uvas, mas lembrou-se que havia no
convento um irmão que estava doente, e pensou: ‘Vou dar-lhe o cacho. Quem sabe, pode trazer alguma alegria à sua vida.’
“Mas as uvas não ficaram muito tempo no quarto do irmão doente, porque
este refletiu: ‘o irmão cozinheiro tem cuidado de mim, alimentando-me com o que há de melhor. Tenho certeza de que isso lhe trará muita felicidade.’ Quando o irmão cozinheiro apareceu na hora do almoço, trazendo sua refeição, ele entregou-lhe as uvas.
“- São para você. Como sempre está em contacto com os produtos que a
natureza nos oferece, saberá o que fazer com esta obra de Deus.
“O irmão cozinheiro ficou deslumbrado com a beleza do cacho e fez com
que o seu ajudante reparasse na perfeição das uvas. Tão perfeitas que ninguém para apreciá-las melhor que o irmão sacristão, responsável pela guarda do Santíssimo Sacramento, e que muitos no mosteiro viam como um homem santo.
“O irmão sacristão, por sua vez, deu as uvas de presente ao noviço mais
jovem, de modo que este pudesse entender que a obra de Deus está nos menores detalhes da Criação. Quando o noviço o recebeu, o seu coração encheu-se da Glória do Senhor, porque nunca tinha visto um cacho tão lindo. Na mesma hora lembrou-se da primeira vez que chegara ao mosteiro, e da pessoa que lhe tinha aberto a porta; fora este gesto que lhe permitira estar hoje naquela comunidade de pessoas que sabiam valorizar os milagres.
“Assim, pouco antes do cair da noite, ele levou o cacho de uvas para o
irmão porteiro.
“- Coma e aproveite. Porque você passa a maior parte do tempo aqui
sozinho, e estas uvas lhe farão muito bem.
“O irmão porteiro entendeu que aquele presente tinha lhe sido realmente
destinado, saboreou cada uma das uvas daquele cacho e dormiu feliz. Desta maneira, o círculo foi fechado; um circulo de felicidade e alegria, que sempre se estende em torno de quem está em contacto com a energia do amor.”
A mulher chamada Alma fez soar o prato de metal com seus apliques.-
Como fazemos todas as quintas-feiras, escutamos uma história de amor, e
contamos histórias de desamor. Vamos ver o que está na superfície, e então, pouco a pouco, entenderemos o que está embaixo: nossos costumes, nossos
valores. E quando conseguirmos furar esta camada, seremos capazes de encontrar a nós mesmos. Quem começa?
Várias mãos se levantaram, inclusive a minha - para surpresa de Marie. O
barulho recomeçou, as pessoas se agitaram nas cadeiras. Mikhail apontou para uma mulher linda, alta, de olhos azuis.
- Na semana passada, fui visitar um amigo que vive sozinho nas montanhas, perto da fronteira com a França; alguém que adora os prazeres da vida, e mais de uma vez afirmou que toda a sabedoria que dizem possuir vem justamente do fato de aproveitar cada momento.
“Desde o início, meu marido não gostou da idéia: sabia quem ele era, que
seu passatempo preferido é caçar pássaros e seduzir mulheres. Mas eu precisava conversar com este amigo, estava vivendo um momento de crise que só ele podia me ajudar. Meu marido sugeriu um psicólogo, uma viagem, discutimos,
brigamos, mas, apesar de todas as pressões em casa, eu viajei. Meu amigo foi me buscar no aeroporto, conversamos de tarde, jantamos, bebemos, conversamos um pouco mais, e fui dormir. Acordei no dia seguinte, andamos pela região, e ele tornou a me deixar no aeroporto.
“Assim que cheguei em casa, começaram as perguntas. Ele estava sozinho?
Sim. Nenhuma namorada com ele? Não. Vocês beberam? Bebemos. Por que
você não está querendo falar do assunto? Mas eu estou falando do assunto!
Vocês estavam sozinhos em uma casa que dá para as montanhas, um cenário
romântico, não é verdade? Sim. E mesmo assim não aconteceu nada além de
conversa? Não aconteceu nada. Você acha que eu acredito nisso? Por que não acreditaria? Porque vai contra a natureza humana - um homem e uma mulher, se estão juntos, se bebem juntos, se compartilham coisas íntimas, terminam na cama!
“Concordo com o meu marido. Vai contra o que nos ensinaram. Ele jamais
irá acreditar na história que contei, mas é a pura verdade. Desde então, nossa vida tem virado um pequeno inferno. Vai passar, mas é um sofrimento inútil, um sofrimento por causa do que nos contaram: um homem e uma mulher que se
admiram, quando as circunstâncias permitem, acabam na cama.” Aplausos.
Cigarros que se acendem. Barulho de garrafas e de copos.
- O que é isso? - perguntou Marie em voz baixa. - Uma terapia coletiva de casais?
- É parte do “encontro”. Ninguém diz se está certo, ou se está errado,
apenas contam histórias.
- E por que fazem isso em público, desta maneira desrespeitosa, com gente bebendo e fumando?
- Talvez porque seja mais leve. E se é mais leve, é mais fácil. E se é mais fácil, por que não fazer desta maneira?
- Mais fácil? No meio de desconhecidos que podem amanhã contar esta
história para o marido dela?
Outra pessoa tinha começado a falar, e não pude dizer para Marie que isso não tinha a menor importância: todos estavam ali para falar de desamor
disfarçado de amor.
- Sou o marido desta mulher que acaba de contar a história - disse um
senhor que devia ser pelo menos uns 20 anos mais velho que a jovem loura e bonita. - Tudo que ela disse está certo. Mas existe uma coisa que ela não sabe, e que eu não tive coragem de comentar. Farei isso agora.
“Quando ela foi para as montanhas, eu não consegui dormir de noite, e
comecei a imaginar - em detalhes - o que estava se passando. Ela chega, a lareira está acesa, tira o casaco, tira o suéter, não está usando sutiã debaixo da camiseta fina. Ele pode claramente ver o contorno dos seios.
“Ela finge que não percebe seu olhar. Diz que vai até a cozinha pegar uma outra garrafa de champagne. Está usando jeans muito justos, anda devagar, e mesmo sem virar-se, sabe que ele a olha dos pés à cabeça. Volta, discutem coisas verdadeiramente íntimas, e isso lhes dá uma sensação de cumplicidade.
“Esgotam o assunto que a levou ali. O telefone celular toca - sou eu, quero saber se tudo está bem. Ela se aproxima dele, coloca o fone em seu ouvido, os dois escutam minha conversa, uma conversa delicada, porque sei que é tarde para fazer qualquer tipo de pressão, o melhor é fingir que não estou preocupado, sugerir que aproveite seu tempo nas montanhas, porque no dia seguinte deve voltar a Paris, cuidar dos filhos, fazer compras para a casa.
“Desligo o telefone, sabendo que ele escutou a conversa. Agora os dois -
que estavam em sofás separados - estão sentados muito próximos.
“Neste momento, parei de pensar no que estava acontecendo nas
montanhas. Levantei-me, fui até o quarto dos meus filhos, depois fui até a janela, olhei Paris, e sabe o que notei? Que aquele pensamento tinha me deixado
excitado. Muito, muitíssimo excitado. Saber que minha mulher podia estar, naquele momento, beijando um homem, fazendo amor com ele.
“Eu me senti terrivelmente mal. Como é que podia ficar excitado com isso?
No dia seguinte, conversei com dois amigos; evidente que não me usei como exemplo, mas perguntei se, em algum momento em suas vidas, eles haviam
achado erótico quando, em uma festa, surpreendem o olhar de outro homem no decote de sua mulher. Ambos fugiram do assunto - porque é um tabu. Mas ambos disseram que é ótimo saber que sua mulher é desejada por outro homem: não foram além disso. Seria isso uma fantasia secreta, escondida no coração de todos os homens? Não sei. Nossa semana foi um inferno porque eu não entendo o que senti. E como não entendo, eu a culpo de provocar em mim algo que desequilibra meu mundo.”