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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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uma eternidade. Imaginava de novo as revistas sensacionalistas descrevendo como o famoso escritor, possível candidato a um importante prêmio literário, apesar de toda crítica em contrário, tinha provocado uma sessão de espiritismo em uma pizzaria, apenas para chamar a atenção sobre seu livro.

Minha paranóia continuou descontroladamente: descobririam em seguida

que aquele médium era o mesmo homem que desaparecera com sua mulher -

tudo recomeçaria, e desta vez eu não teria mais coragem ou energia para

enfrentar de novo a mesma prova.

Claro, naquelas mesas estavam alguns conhecidos meus, mas qual destes

era realmente meu amigo? Quem seria capaz de manter em silêncio o que via?

O corpo parou de tremer, relaxou, Roberto mantinha-o sentado na cadeira.

O senhor tomou seu pulso, abriu suas pálpebras e olhou para mim.

- Não deve ser a primeira vez. Há quanto tempo você o conhece?

- Eles vêm sempre aqui - respondeu Roberto, notando que eu estava

completamente sem ação. - Mas é a primeira vez que acontece em público,

embora eu já tenha tido casos como este em meu restaurante.

- Eu notei - respondeu o senhor. - Você não entrou em pânico.

Era um comentário dirigido a mim, que devia estar pálido.O senhor voltou à mesa, Roberto tentou relaxar-me:

- Ele é o médico de uma atriz muito famosa - disse. - E acho que você está precisando de mais cuidados que seu convidado.

Mikhail - ou Oleg, ou seja quem fosse aquela criatura na minha frente -

despertava. Olhou em volta, e ao invés de manifestar vergonha, sorriu, um pouco encabulado.

- Desculpe - disse. - Tentei controlar.

Eu procurava manter a postura. Roberto voltava a socorrer-me:

- Não se preocupe. Nosso escritor aqui tem dinheiro suficiente para pagar os pratos quebrados.

Em seguida, virou-se para mim:

- Epilepsia. Apenas um ataque epilético, nada mais. Saímos do restaurante, Mikhail entrou imediatamente em um táxi.

- Mas não conversamos! Aonde você vai?

- Não tenho condições agora. E você sabe onde me encontrar.

á dois tipos de mundo: aquele com que sonhamos, e aquele que é real.

No mundo que eu sonhava, Mikhail dissera a verdade, tudo não

H passava de um momento difícil em minha vida, um mal-entendido que acontece em qualquer relação amorosa. Esther me aguardava pacientemente,

esperando que eu descobrisse o que havia dado errado em nosso relacionamento, fosse até ela, pedisse desculpas, e recomeçássemos nossa vida juntos.

No mundo que sonhava, Mikhail e eu conversávamos calmamente, saíamos

da pizzaria, tomávamos um táxi, tocávamos a campainha da porta onde minha ex-mulher (ou mulher? Agora a dúvida se invertia) bordava seus tapetes de manhã, dava aula de francês de tarde e dormia sozinha de noite, também como eu esperando a campainha tocar, o marido entrar com um buquê de flores, e levá-la para tomar um chocolate quente em um hotel perto dos Champs-Élysées.

No mundo real, cada encontro com Mikhail seria sempre tenso - com medo

do que acontecera na pizzaria. Tudo que dissera era fruto de sua imaginação, na verdade tampouco ele sabia o paradeiro de Esther. No mundo real, eu estava às 11:45 da manhã na Gare du Nord, esperando o trem que vinha de Estrasburgo, para receber um importante ator e produtor americano, entusiasmadíssimo com a idéia de produzir um filme baseado em um de meus livros.

Até aquele momento, sempre que falavam em adaptação para o cinema,

minha resposta era sempre um “não estou interessado”; acredito que cada pessoa, ao ler um livro, cria seu próprio filme na cabeça, dá rosto aos personagens, constrói os cenários, escuta a voz, sente os cheiros. E, justamente por causa disso, quando vai assistir algo baseado em um romance que gostou, sempre sai com a sensação de ter sido enganada, sempre diz: “o livro é melhor que o filme.”

Desta vez minha agente literária insistira muito. Afirmava que tal ator e produtor pertencia ao “nosso time”, pretendia fazer algo totalmente diferente do que sempre nos haviam proposto. O encontro fora marcado com dois meses de antecedência, devíamos jantar esta noite, discutir os detalhes, ver se havia realmente uma cumplicidade entre nossa maneira de pensar.

Mas, em duas semanas, minha agenda havia mudado por completo: era

quinta-feira, eu precisava ir até um restaurante armênio, tentar um novo contacto com um jovem epilético que garantia ouvir vozes, mas que era a única pessoa a saber o paradeiro do Zahir. Interpretei aquilo como um sinal para não vender os direitos do título, tentei cancelar o encontro com o ator; ele insistiu, disse que não tinha importância, podíamos trocar o jantar por um almoço no dia seguinte:

“ninguém fica triste em passar uma noite em Paris sozinho” fora seu comentário, me deixando completamente sem argumentos.

No mundo que eu imaginava, Esther era ainda minha companheira, e seu

amor me dava forças para seguir adiante, explorar todas as minhas fronteiras.

No mundo que existia, ela era a obsessão completa. Sugando toda minha

energia, ocupando todo o espaço, obrigando-me a fazer um esforço gigantesco para continuar com minha vida meu trabalho, meus encontros com produtores, minhas entrevistas.

Como é possível que, mesmo depois de dois anos, eu ainda não tenha

conseguido esquecê-la? Já não agüentava mais pensar no assunto, analisar todas as possibilidades, tentar fugir, me conformar, escrever um livro, praticar ioga, fazer um trabalho beneficente, freqüentar os amigos, seduzir mulheres, sair para jantar, ir ao cinema (evitando adaptações literárias, claro, e sempre procurando filmes que fossem escritos especialmente para a tela), teatro, bale, jogos de futebol. Mesmo assim, o Zahir sempre vencia a batalha, sempre estava presente, sempre me fazia pensar “como eu gostaria que ela estivesse aqui comigo”.

Olhava o relógio da estação de trem - faltavam ainda 15 minutos. No

mundo que eu imaginava, Mikhail era um aliado. No mundo que existia, eu não tinha nenhuma prova concreta além do meu enorme desejo de acreditar no que dizia, e podia ser um inimigo disfarçado.

Voltei às perguntas de sempre: por que não me dissera nada? Teria sido a

tal pergunta de Hans? Teria Esther decidido que devia salvar o mundo, como me sugerira durante nossa conversa sobre amor e guerra, e estava me “preparando”

para acompanhá-la nesta missão?

Meus olhos estavam fixos nos trilhos do trem. Eu e Esther, caminhando

paralelos um ao outro, sem jamais nos tocarmos de novo. Dois destinos que...

Trilhos de trem.

Qual a distância entre um e outro?

Para esquecer-me do Zahir, procurei me informar com um dos empregados

que estava na plataforma.

- Distam 143,5 centímetros ou 4 pés e 8,5 polegadas - respondeu.

Era um homem que parecia em paz com sua vida, orgulhoso de sua

profissão, e em nada se enquadrava na idéia fixa de Esther - de que todos nós temos uma grande tristeza escondida na alma.

Mas sua resposta não fazia o menor sentido: 143,5 centímetros, ou 4 pés e 8,5 polegadas?

Absurdo. O lógico seria 150 centímetros. Ou 5 pés. Algum número

redondo, claro, fácil de ser lembrado pelos construtores de vagões e pelos empregados de ferrovias.

- E por quê? - insisti com o empregado.

- Porque as rodas dos vagões têm esta medida.

- Mas as rodas dos vagões são assim, por causa da distância entre os trilhos, não acha?

- O senhor crê que eu tenho obrigação de saber tudo sobre trens, só porque trabalho em uma estação? As coisas são assim porque são assim.

Ele já não era mais a pessoa feliz, em paz com seu trabalho; sabia responder a uma pergunta, mas não conseguia ir mais adiante. Pedi desculpas, fiquei o resto do tempo olhando os trilhos, sentindo que intuitivamente eles queriam me dizer alguma coisa.

Por mais estranho que parecesse, os trilhos pareciam contar algo sobre meu casamento - e sobre todos os casamentos.

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