A Herdeira [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1985
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:
A escuridão era mais densa e o envolvia como um nevoeiro negro, ao mesmo tempo em que uma leve chuva começava a cair. Samuel se aproximava dos muros do gueto e, de repente, avistou os grandes portões. Já estavam trancados. Era a primeira vez que os via fechados do lado de fora. Foi como se de súbito a vida lhe tivesse deixado o corpo, e Samuel começou a tremer de terror. Estava separado de sua família, do seu mundo, de tudo aquilo que lhe era íntimo e familiar.
Diminuiu o passo e se aproximou dos portões cautelosamente, esperando pelos guardas. Não os via e encheu-se de uma súbita esperança delirante. Os guardas talvez tivessem sido chamados para alguma emergência. Samuel descobriria um meio de abrir os portões ou de escalar o muro sem ser visto. Ao se aproximar dos portões, viu o vulto de um guarda emergir das sombras.
- Continue a andar - ordenou o guarda. Na escuridão, Samuel não podia ver o rosto dele. Mas reconheceu a voz. Era Aram. - Venha até aqui. Aram olhava Samuel com um sorriso de satisfação no rosto. O rapaz tropeçou. - Pise firme - disse Aram para animá-lo. - Continue a caminhar.
Samuel se aproximou lentamente do gigante, com o estômago contraído e a cabeça latejando.
- Posso explicar tudo… Tive um acidente. Minha carroça…
Aram estendeu o braço forte, agarrou Samuel pela gola e suspendeu-o no ar.
- Judeu imundo! - exclamou ele. - Pensa que eu quero saber por que você ficou do lado de fora? Sabe o que é que vai acontecer com você agora? O rapaz sacudiu a cabeça cheio de terror. - Pois eu vou lhe dizer. Temos um novo decreto nesta semana. Todos os judeus capturados fora dos portões depois do escurecer serão deportados para a Sibéria.
Dez anos de trabalhos forçados. Que tal? Samuel não pôde acreditar.
- Mas… mas eu não fiz nada…
Aram deu um tapa com a mão direita na boca de Samuel, que foi ao chão, e em seguida disse:
- Vamos.
- Para… onde? -perguntou Samuel com a voz embargada de terror.
- Para o quartel. Amanhã de manhã será embarcado com o resto da ralé. Levantese.
Samuel caíra com o tapa e estava ali, incapaz de coordenar os seus pensamentos.
- Eu… eu tenho de entrar para despedir-me de minha família. Aram riu.
- Ninguém vai sentir sua falta.
- Por favor! Deixe-me ir até lá. Deixe-me pelo menos mandar um recado.
O sorriso desapareceu do rosto de Aram. Cresceu ameaçadoramente para Samuel, mas falou com voz suave:
- Mandei que você se levantasse, judeu imundo. Se eu tiver de dar-lhe a ordem outra vez, será a pontapés.
Samuel levantou-se lentamente. Aram agarrou-lhe o braço com mãos de ferro e começou a levá-lo para o quartel da polícia. Dez anos de trabalhos forçados na Sibéria!
Ninguém jamais voltara da Sibéria. Olhou para o homem que o levava pela ponte para o quartel da polícia.
- Não faça isso - disse Samuel. - Solte-me.
Aram apertou o braço de Samuel com mais força, a tal ponto que deu a impressão de que o sangue deixara de correr.
- Peça mais, implore mais! - disse Aram. - Não há nada de que eu goste mais do que ouvir as súplicas de um judeu. Sabe alguma coisa sobre a Sibéria? Vai chegar lá a tempo de passar o inverno. Não se preocupe. Dentro das minas, você vai sentir calor. Só quando seus pulmões estiverem pretos de tanto carvão, e você começar a vomitá-lo em acessos de tosse, tirarão você de lá para morrer em cima da neve.
À frente deles, do outro lado da ponte, quase invisível sob a chuva, estava a lúgubre construção, o quartel da polícia.
- Mais depressa! - gritou Aram. Samuel percebeu de repente que não podia deixar que ninguém fizesse aquilo com ele. Pensou em Terinia, em sua família, no pai de Isaac.
Ninguém iria roubar-lhe a vida. Fosse como fosse, tinha de fugir para salvar-se.
Estava atravessando a estreita ponte, sob a qual o rio corria cuidadosamente, engrossado pelas chuvas de inverno. Restavam apenas uns trinta metros. O que tivesse de ser feito deveria ser naquele momento.
Mas como seria possível fugir? Aram tinha uma pistola, e ainda que não estivesse armado, poderia matá-lo com a maior facilidade. Era quase duas vezes maior que Samuel e muito mais forte. Tinham chegado ao outro lado da ponte, e o quartel estava bem diante deles.
- Ande depressa - disse Aram, puxando Samuel pelo braço. - Tenho outras coisas para fazer.
Estavam tão perto que Samuel podia ouvir os risos dos guardas lá dentro. Aram começou a arrastar o rapaz pelo pátio calçado que ficava diante do quartel. Faltava apenas alguns segundos, e Samuel levou a mão direita ao bolso, pegando o bornal em que levava cerca de meia dúzia de florins.
Fechou-o na mão e sentiu no seu nervosismo o sangue correr-lhe mais depressa nas veias. Tirou cuidadosamente o bornal do bolso, puxando então os cordões que o fechavam, e deixou-o cair. Ele caiu sobre as pedras, fazendo tilintar as moedas. Aram parou de repente.
- Que foi isso?
- Nada - respondeu prontamente Samuel.
Aram olhou para o rapaz e riu. Sem deixar de segurar firmemente Samuel, deu um passo para trás e viu o bornal de dinheiro aberto.
- Você não precisar de dinheiro no lugar aonde vai - disse Aram. Curvou-se para apanhar o bornal e Samuel acompanhou-o.
Mas não era o bornal que Samuel queria e, sim, uma grande pedra que estava no chão. Quando Aram levantou o corpo, Samuel bateu com a pedra no olho direito de Aram com toda a força, transformando-o numa posta de sangue. Continuou a bater desesperadamente no rosto e na cabeça. Viu o nariz do guarda afundar, depois a boca e, por fim, todo o rosto virou uma massa sangrenta. Mas Aram continuava de pé como se fosse algum monstro cego. Samuel olhava-o, cheio de medo, sem coragem de bater de novo. Então, lentamente, o gigantesco corpo começou a cair.
Samuel olhou para o guarda morto, sem poder acredita no que havia feito. Ouviu vozes no quartel e compreendeu o terrível perigo em que ainda se encontrava. Se o capturassem naquele momento, não o mandariam para a Sibéria. Tratariam de esfolá-lo e enforcá-lo em praça pública. A pena por bater num policial era simplesmente a morte. E Samuel matara um deles. Tinha de fugir rapidamente. Poderia tentar atravessar a fronteira, mas, nesse caso, seria um fugitivo perseguido pelo resto da vida. Deveria haver outra solução.
Olhou para o corpo desfigurado e percebeu de repente o que devia fazer. Revistou o guarda até encontrar a grande chave que abria os portões. Depois, dominando a repulsa que sentia, agarrou as botas de Aram e começou a puxar o guarda para a margem do rio. O morto parecia pesar uma tonelada. Samuel continuou a puxar, estimulado pelo barulho que vinha do quartel. Alcançou a margem do rio. Parou um momento para recuperar o fôlego. Depois, empurrou o corpo pela ribanceira e viu-o cair nas águas tumultuosas embaixo.
Continuou inclinado sobre a margem por um tempo que lhe pareceu uma eternidade e, por fim, viu o corpo ser levado pelo rio e desaparecer.
Ali ficou algum tempo como que hipnotizado, cheio de horror pelo que havia feito.
Apanhou a pedra que tinha usado e jogou-a na água. Mas ainda corria enorme perigo.
Atravessou a ponte e voltou correndo para os grandes portões trancados no gueto. Não havia ninguém à vista. Com os dedos trêmulos, girou a chave na fechadura dos portões e empurrou-os.
Nada aconteceu. Eram pesados demais. Mas naquela noite nada era impossível para Samuel. Com uma força que parecia vir de fora dele, conseguiu por fim abri-los.
Empurrou a carroça para dentro, fechou os portões e foi correndo para casa. Todos os moradores da casa estavam reunidos na sala e, quando Samuel apareceu, olharam para ele como se fosse um fantasma.
- Deixaram você entrar!
- Não compreendo - murmurou o pai.
- Pensávamos que você…
Samuel explicou em breves palavras o que havia acontecido, e a preocupação de todos se transformou em terror.
- Meu Deus! - exclamou o pai de Samuel. - Todos nós seremos mortos!