A Herdeira [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1985
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:
Era um prazer agridoce, pois a cada encontro ficava mais próximo o momento em que iria perdê-la para sempre.
- Eu sei que você vai achar um jeito - não se cansava de dizer Terinia. Mas faltavam apenas três semanas, e Samuel não estava mais perto de uma solução do que quando tinha começado. Em uma noite, já bem tarde, Terinia procurou Samuel na estrebaria. Abraçou-o e disse:
- Vamos fugir, Samuel.
Ele nunca a amara tanto quanto a amou nesse momento ao ver que, por amor a ele, ela estava disposta a ficar desmoralizada, a abandonar o pai e a mãe e a desistir da boa vida que levava. Tomou-a nos braços, e disse:
- Não podemos, Terinia. Para onde quer que eu vá, nunca deixarei de ser um vendedor ambulante.
- Não me importo.
Samuel pensou na bela casa onde ela morava, cheia de salas espaçosas e de empregados e se lembrou do quartinho sórdido em que ele morava com o pai e a tia.
- Mas eu me importo, Terinia.
E ela se afastou. Na manhã seguinte, encontrou-se com Isaac, que tinha sido seu colega de escola e levava uma égua por um cabresto. O animal era cego de um olho, sofria de cólicas e de esparavões, sendo ainda por cima surdo.
- Bom dia, Samuel.
- Bom dia, Isaac. Não sei para onde vai com esse animal, mas é melhor andar depressa. Ele pode morrer a qualquer momento.
- Não é preciso que viva muito. Vou levar Lottie para uma fábrica de cola. Samuel olhou a velha égua com súbito interesse.
- Não creio que vão lhe pagar muito por ela.
- Sei disso. Quero apenas dois florins para comprar uma carroça. O coração de Samuel começou a bater com mais força.
- Quem sabe eu não possa lhe poupar a viagem? Estou disposto a trocar minha carroça pela égua.
Depois disso, Samuel tinha apenas de fazer outra carroça e explicar ao pai como perdera a velha e se tornar dono de um animal que estava nas ultimas. Samuel levou Lottie para a estrebaria. Examinando a égua, viu que o estado dela era bem pior do que havia julgado, mas afagou o animal e disse:
- Não se preocupe, Lottie. Você vai entrar para a história da medicina. Poucos minutos depois, Samuel começou a trabalhar em um novo soro.
Em vista das condições insalubres e do super povoamento do gueto, as epidemias eram freqüentes. A última peste consistia em uma febre que produzia tosse sufocante, ingurgitamento dos gânglios e uma morte dolorosa. Os médicos desconheciam a sua causa, e não tinham qualquer idéia do tratamento. O pai de Isaac contraiu a doença. Logo que Samuel soube disso, foi procurar Isaac.
- O médico já esteve aqui - afirmou o rapaz, chorando. -Disse que nada pode fazer. Do alto da casa, vinha o terrível som da tosse, que parecia prolongar-se indefinidamente.
- Quero que faça uma coisa para mim, Isaac - disse Samuel. - Consigame um lenço de seu pai.
- O quê?
- Quero um lenço que ele tenha usado. Mas todo o cuidado será pouco da sua parte. O lenço dever estar cheio de germes.
Uma hora depois, Samuel estava de volta à estrebaria e despejava cuidadosamente o conteúdo do lenço em um prato cheio de caldo de cultura.
Trabalhou durante toda a noite e todo o dia seguinte, injetou pequenas doses de substâncias na paciente Lottie. Depois aumentou as doses, lutando contra o tempo para tentar salvar a vida do pai de Isaac. Para tentar salvar a própria vida.
Samuel nunca pôde ter certeza posteriormente de que Deus houvesse protegido a ele ou à velha égua, mas a verdade é que Lottie sobreviveu às doses cada vez maiores, e Samuel conseguiu a sua primeira partida de antitoxina. A tarefa seguinte era convencer o pai de Isaac a consentir na aplicação dessa substância.
Na realidade, não foi preciso convencê-lo. Quando Samuel chegou à casa de Isaac, havia muitos parentes que já esperavam a morte do homem doente no andar de cima.
- Resta-lhe pouco tempo de vida - disse Isaac a Samuel.
- Posso vê-lo?
Os dois rapazes subiram. O pai de Isaac estava estendido na cama, com o rosto afogueado pela febre. Cada acesso de tosse sacudia o corpo depauperado, levando-o a um espasmo que o enfraquecia ainda mais. Era evidente que estava morrendo, Samuel respirou fundo e disse:
- Quero falar com você e sua mãe.
Não tinham confiança alguma no pequeno vidro que Samuel tinha levado, mas, ante a iminência da morte, concordaram com a aplicação do remédio, simplesmente porque não havia mais nada a perder. Samuel injetou o soro no pai de Isaac. Esperou três horas à cabeceira da cama e não houve qualquer alteração. O soro não estava fazendo efeito. Entretanto, os acessos de tosse pareciam menos freqüentes. Por fim, Samuel saiu, evitando olhar para Isaac. Tinha de ir a Cracóvia ao amanhecer do dia seguinte, para comprar mercadorias.
Estava numa impaciência febril por voltar e ver se o pai de Isaac ainda estava vivo.
Havia muita gente em todos os mercados, e Samuel demorou muito para fazer as compras. Só no fim da tarde conseguiu afinal encher a carroça e voltar para o gueto.
Quando Samuel estava ainda a três quilômetros dos portões, houve o desastre. Uma das rodas da carroça se quebrou e as mercadorias começaram a espalhar-se pelo chão.
Samuel viu-se diante de um terrível dilema. Tinha de ir procurar uma roda para substituir a quebrada, e ao mesmo tempo, não podia deixar a carroça com as mercadorias abandonadas. Estava começando a juntar gente, e era visível o olhar de avidez que muitos lançavam para as mercadorias caídas. Samuel viu um guarda de uniforme aproximar-se, um gentio, e compreendeu que estava perdido. Iam tomar-lhe tudo. O guarda abriu caminho entre os curiosos e disse ao apavorado rapaz:
- Sua carroça precisa de uma roda nova.
- É… é verdade.
- Sabe onde encontrar uma?
- Não, senhor. O guarda escreveu alguma coisa em um pedaço de papel.
- Vá procurar este homem. Diga a ele o que precisa.
- Mas eu não posso deixar o carro aqui assim.
- Pode, sim - disse o guarda. -Eu vou ficar aqui. Ande depressa!
Samuel saiu correndo. Seguindo o endereço do papel, chegou a oficina de ferreiro.
Quando Samuel explicou a situação, o ferreiro encontrou uma roda do tamanho exato para a carroça. Samuel pagou a roda, tirando o dinheiro de uma sacola que levava.
Depois dessa despesa, ficou apenas com uma dúzia de florins. Correu para a carroça, rolando a roda pelo chão. O guarda ainda estava lá e os curiosos haviam se dispersado.
As mercadorias estavam a salvo. Com a ajuda do guarda, levou mais meia hora para colocar a nova roda e prendê-la.
Retomou o caminho de casa, pensando no pai de Isaac. Iria encontrá-lo vivo ou morto? A incerteza enchia-o de dolorosa ansiedade. Já estava apenas a um quilômetro do gueto. Podia avistar os altos muros que se erguiam contra o céu. Mas, nesse momento, o sol desapareceu no horizonte e as ruas por onde ele passava mergulharam na escuridão.
Na agitação de tudo o que havia acontecido, Samuel se esquecera da hora.
Já havia escurecido e ele ainda estava fora dos portões! Começou a correr, empurrando a pesada carroça, com o coração batendo como se fosse saltar-lhe do peito.
Os portões deviam estar fechados. Samuel pensou em todas as coisas terríveis que se contavam de judeus que tinham ficado do lado de fora dos portões. Correu mais depressa. Com certeza, só um guarda devia estar de serviço. Se fosse Paul, o bom homem, Samuel poderia ter uma oportunidade. Mas, se fosse Aram, não era bom nem pensar no que lhe poderia acontecer.