A Herdeira [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1985
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:
- Alô, Senhorita Elizabeth.
- Onde está meu pai? - perguntou Elizabeth.
- Teve de ir à Austrália para resolver um caso urgente. Mas deixou belos presentes.
Vai ser um Natal muito feliz.
Capítulo 11 Elizabeth havia levado o Livro. Um dia, ficou diante dos retratos de Samuel e Terinia Roffe, sentindo-lhes a presença como se tivessem voltado à vida. Depois de algum tempo, subiu a escada para a sala de torre, levando o Livro. Ficava ali durante horas todos os dias, lendo e relendo as suas páginas. De cada vez, sentia-se mais perto de Samuel e Terinia, como se não houvesse um século de intervalo entre eles.
Elizabeth leu que nos anos que se seguiram Samuel passou muitas horas no laboratório do Dr. Wal, ajudando o médico a preparar ungüentos e outros medicamentos e apreendendo enquanto trabalhavam. E sempre no fundo de tudo estava Terinia, obsecante, linda. Vê-la era o bastante para alimentar o sonho de Samuel de que um dia ela lhe pertenceria. Samuel se entendia muito bem com o Dr. Wal, mas com a mãe de Terinia a história era bem diferente. Tratava-se de uma mulher irascível, ferina e esnobe.
Detestava Samuel e ele procurava manter-se o mais afastado possível dela.
Samuel ficava fascinado pelas muitas substâncias terapêuticas usadas através dos tempos. Fora encontrado um papiro que relacionava oitocentas e onze receitas usadas pelos egípcios no ano 1550 antes de Cristo. A expectativa de vida nessa época era de quinze anos, e Samuel compreendeu a razão desses números ao ler algumas receitas: excremento de crocodilo, carne de lagarto, sangue de morcego, saliva de camelo, fígado de leão, patas de rã e pó de unicórnio. O sinal Rx1 usado em muitas receitas era uma invocação antiga a Hórus, o deus egípcio da saúde. A própria palavra "química" derivada do antigo nome Egito, a terra de Kahmi ou Chemi. Os sacerdotes médicos eram chamados de magos.
As farmácias no gueto e na própria Cracóvia eram primitivas. Quase todos os vidros e potes continham medicamentos que nunca tinham sido analisados e devidamente experimentados. Alguns eram inúteis, outros, nocivos. Samuel conhecia todos. Havia óleo de rícino, calomelanos, ruibarbos, composto de iodo, codeína e ipecacuanha.
Compravam-se panacéias para coqueluche, cólicas e tifo.
Como não havia precauções higiênicas, era comum encontrar ungüentos e gargarejos cheios de insetos mortos, baratas, excremento de ratos e pedaços de pernas e peles. Quase todos os doentes que tomavam esses remédios morriam ou das doenças ou dos remédios. Havia várias revistas dedicadas a assuntos farmacêuticos, e Samuel lia-as todas com avidez.
Discutia as suas teorias com o Dr. Wal. - é claro - dizia ele com voz vibrante de convicção - que deve haver uma cura para cada doença. A saúde é natural, a doença, não.
- Pode ser - dizia o Dr. Wal -, mas os meus clientes não me permitem experimentar novos medicamentos neles. E acho que estão certos.
Samuel devorou os poucos livros do Dr. Wal sobre farmacologias. Depois de ler e reler esses livros, sentiu-se frustrado diante da falta de resposta para as questões suscitadas. Samuel ficou entusiasmado com uma revolução que se vinha verificando.
Alguns cientistas pensavam que era possível combater as causas das doenças criando uma resistência do organismo contra elas. O Dr. Wal tentou isso uma vez. Extraiu sangue de um doente com difteria e injetou em um cavalo. Quando o cavalo morreu, o Dr. Wal abandonou a experiência. Mas o jovem Samuel estava convencido de que o Dr. Wal havia tomado o caminho certo. O Dr. Wal sacudiu a cabeça.
- Você fala assim porque tem dezessete anos, Samuel. Quando chegar à minha idade, não terá mais certeza de coisa alguma. Não pense mais nisso.
Essas palavras não convenceram Samuel. Queria prosseguir nas experiências, mas para isso precisava de animais e poucos havia à sua disposição, salvo os gatos e ratos que conseguia apanhar. Todos eles morriam, por menores que fossem as doses que Samuel lhes aplicasse. Os animais eram muito pequenos, pensava Samuel.
Precisava de um maior, um cavalo, um boi ou um carneiro. Mas onde encontrá-lo?
Uma tarde, quando Samuel voltou para casa, encontrou um velho cavalo atrelado a uma carroça em frente à porta. Num dos lados da carroça estava pintado com letras toscas o letreiro: Roffe and Sons. Samuel olhou para tudo sem acreditar, e correu para dentro de casa, onde estava o pai.
- Aquele cavalo lá fora… onde o conseguiu?
O pai dele sorriu todo orgulhoso.
- Fiz uma compra. Podemos cobrir mais território com um cavalo. Talvez daqui a quatro ou cinco anos possamos comprar outro cavalo. Imagine só. Teremos dois cavalos!
Era até onde iam as ambições de seu pai. Queria possuir dois cavalos velhos e cansados para arrastar carroças com mercadorias pelas ruas sujas e atravancadas do gueto de Cracóvia. Samuel teve vontade de chorar. Naquela noite, quando todos dormiam, Samuel foi até a estrebaria e examinou o cavalo, a que tinham dado o nome de Fred.
Em matéria de cavalos, aquele era sem dúvida um dos mais fracos da espécie.
Era muito velho, desancado e com tumores nas pernas. Talvez não pudesse andar muito mais depressa que o pai de Samuel. Mas nada disso importava.
O essencial era que Samuel já dispunha de uma cobaia. Podia fazer as suas experiências sem se preocupar em apanhar gatos vadios e ratos. É claro que teria de ter cuidado. Seu pai nunca poderia saber o que ele estava fazendo. Samuel afagou a cabeça de Fred e informou-lhe:
- Você vai entrar no negócio de farmácia.
Samuel improvisou o seu laboratório em um canto da estrebaria onde Fred era guardado. Desenvolveu uma cultura de germes de difteria em um prato fundo. Quando o caldo ficou denso, transferiu-o para outro recipiente, diluindo-o e em seguida aquecendo-o ligeiramente. Encheu a seringa e aproximou-se de Fred.
- Lembra-se do que eu lhe disse? Hoje é o seu grande dia.
Samuel injetou o líquido na espádua do cavalo, como virá o Dr. Wal fazer. Fred voltou para ele os olhos tristes e respingou-o de urina. Samuel estimou que a cultura levaria setenta e duas horas para desenvolver-se em Fred. Ao fim desse tempo, lhe daria uma dose mais forte. Se a teoria dos anticorpos fosse correta, cada dose criaria uma resistência maior do sangue à doença, e Samuel teria a sua vacina. Mais tarde, teria de encontrar um ser humano em que pudesse experimentar a vacina, mas isso não seria difícil. Qualquer vítima da temida doença experimentaria pressurosamente qualquer coisa capaz de salvarlhe a vida.
Nos dois dias seguintes, Samuel passou com Fred quase todos os momentos em que esteve acordado.
- Nunca vi ninguém gostar tanto de um animal! - disse-lhe o pai. - Não consegue deixar Fred, não é?
Samuel murmurou uma resposta inteligente. Tinha um sentimento de culpa a respeito do que estava fazendo, mas sabia o que iria acontecer se mencionasse o caso a seu pai. Tudo o que Samuel tinha de fazer era extrair sangue de Fred para encher um ou dois vidros de soro, e ninguém saberia de nada. Na manhã do terceiro dia, que era decisivo, Samuel foi despertado pela voz do pai diante da casa. Samuel levantou-se e correu para a janela. O pai estava no meio da rua, com sua carroça, berrando com toda força de seus pulmões. Não havia nem sinal de Fred. Vestiu-se de qualquer maneira e saiu.
- Momser! - gritava o pai. - Tratante! Mentiroso! Ladrão!
Samuel passou por entre a multidão que começava a reunir-se em torno de seu pai.
- Onde está Fred? - perguntou Samuel.
- Ainda me pergunta? Morreu. Morreu na rua como um cachorro. Samuel sentiu um baque no coração.
- Nós íamos bem calmamente. Eu estava tratando dos meus negócios, sem fazer o bichinho correr, sem bater nele, nem maltratá-lo, como fazem outros ambulantes que conheço. E o que foi que aconteceu? Caiu morto de repente. Quando eu pegar o gonif que me vendeu o cavalo, vou matá-lo.
Samuel afastou-se, desolado. Junto com Fred, morrera também os seus sonhos.
Com Fred desaparecia a esperança de fugir do gueto e de libertar-se, de ter uma bela casa para Terinia e seus filhos. Mas uma calamidade ainda maior estava por acontecer.