O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- Você conhece alguém mais com um pedaço deste tecido?
- Todas as pessoas que estavam no palco. Estamos juntos porque Esther nos uniu.
Eu precisava ir com cuidado, estabelecer uma relação. Fazer um depósito
no Banco de Favores. Não assustá-lo, não demonstrar ansiedade. Perguntar sobre ele, sobre seu trabalho, sobre seu país - do qual falara com tanto orgulho. Saber se o que estava me dizendo era verdade, ou se tinha outras intenções. Ter absoluta certeza de que ele ainda mantinha contacto com Esther, ou se também havia perdido sua pista. Mesmo vindo de um lugar tão distante, onde os valores talvez fossem outros, eu sabia que o Banco de Favores funcionava em qualquer parte, era uma instituição que não conhecia fronteiras.
Por um lado, eu queria acreditar em tudo que dizia. Por outro lado, meu
coração já tinha sofrido e sangrado muito, pelas mil e uma noites em que ficava acordado, esperando o barulho da chave girando na fechadura, Esther entrando, deitando-se ao meu lado, sem dizer nada. Prometera a mim mesmo que, se isso acontecesse um dia, jamais faria qualquer pergunta, apenas a beijaria, diria
“durma bem, meu amor”, e acordaríamos juntos no dia seguinte, de mãos dadas, como se aquele pesadelo jamais tivesse acontecido.
Roberto chegou com as pizzas - ele parecia ter um sexto sentido, aparecera na hora em que precisava ganhar tempo para pensar.
Voltei a encarar Mikhail. Calma, controle seu coração, ou terá um enfarte.
Bebi um copo inteiro de vinho, e notei que ele fazia a mesma coisa.
Por que estava nervoso?
- Acredito no que me diz. Temos tempo para conversar.
- Você vai me pedir para que o leve até onde ela está. Ele havia estragado meu jogo; precisava recomeçar.
- Sim, eu vou lhe pedir. Eu vou tentar convencê-lo. Eu vou fazer todo o
possível para conseguir isso. Mas não estou com pressa, ainda temos uma pizza inteira pela frente. Quero ouvir mais sobre você.
Reparei que suas mãos estavam tremendo, e ele fazia algum esforço para
controlá-las.
- Sou uma pessoa com uma missão. Até o momento, ainda não consegui
cumpri-la. Mas acho que ainda tenho muitos dias pela frente.
- E talvez eu possa ajudá-lo.
- Você pode me ajudar. Qualquer pessoa pode me ajudar, basta ajudar a
Energia do Amor a espalhar-se pelo mundo.
- Posso fazer mais que isso.
Não queria ir mais longe, para não parecer que estava tentando comprar sua fidelidade. Cuidado - todo cuidado é pouco. Ele pode estar falando a verdade, mas também pode estar mentindo, tentando aproveitar-se do meu sofrimento.
- Conheço apenas uma energia de amor - continuei. -Aquela que tenho pela
mulher que partiu... melhor dizendo, afastou-se, e está me esperando. Se puder tornar a vê-la, serei um homem feliz. E o mundo será melhor, porque uma alma está contente.
Ele olhou para o teto, olhou para a mesa, e eu deixei que o silêncio se
prolongasse o máximo possível.
- Ouço uma voz - disse afinal, sem coragem de me encarar.
A grande vantagem de abordar temas que envolvem a espiritualidade em
livros é saber que sempre entrarei em contacto com pessoas que possuem algum tipo de dom. Alguns destes dons são reais, outros são invenção, algumas destas pessoas tentam se aproveitar, outras estão me testando. Eu já vira tanta coisa surpreendente que hoje não tinha a menor dúvida que milagres acontecem, que tudo é possível, o homem está recomeçando a aprender aquilo que já esqueceu -
seus poderes interiores.
A diferença é que esse não era o momento ideal para falar do assunto. Meu único interesse era o Zahir. Eu precisava que o Zahir voltasse a chamar-se Esther.
- Mikhail...
- Meu nome verdadeiro não é Mikhail. Meu nome é Oleg.
- Oleg...
- Mikhail é meu nome - eu o escolhi, quando decidi renascer para a vida. O
arcanjo guerreiro, com sua espada de fogo, abrindo caminho para que - como é que você chama mesmo? - os “guerreiros da luz” possam encontrar-se. Esta é minha missão.
- Esta é também minha missão.
- Você não prefere falar de Esther?
Como? Ele desviara de novo o assunto para aquilo que me interessava?
- Não estou me sentindo bem. - Seu olhar começava a perder-se, vagava
pelo restaurante, como se eu não estivesse ali. - Não quero tocar neste assunto. A voz...
Alguma coisa estranha, muito estranha, estava acontecendo. Até onde ele
seria capaz de ir para me impressionar? Terminaria pedindo, como muita gente antes pediu, que eu escrevesse um livro sobre sua vida e seus poderes?
Sempre que tenho um objetivo claro na minha frente, estou disposto a tudo para atingi-lo - afinal, era isso que eu dizia em meus livros, e não podia trair minhas palavras. Tinha um objetivo agora: olhar mais uma vez nos olhos do Zahir. Mikhail me dera uma série de informações novas: não era seu amante, ela não me havia deixado, tudo era uma questão de tempo até trazê-la volta. Havia também a possibilidade do encontro na pizzaria ser uma farsa; um rapaz que não tem como ganhar a vida, se aproveita da dor alheia para conseguir o que
pretende.
Bebi outro copo de vinho de uma vez só - Mikhail fez a mesma coisa.
Prudência, dizia meu instinto.
- Sim, quero falar de Esther. Mas quero também saber mais de você.
- Não é verdade. Você está querendo me seduzir, me convencer a fazer
coisas que eu, a princípio, já estava mesmo disposto a fazer. Mesmo assim, a sua dor não o deixa enxergar claramente: acha que eu posso estar mentindo,
querendo me aproveitar da situação.
Embora Mikhail soubesse exatamente o que eu estava pensando, falava
mais alto do que manda a boa educação. As pessoas começaram a virar-se para ver o que estava passando.
- Você está querendo me impressionar, sem saber que seus livros marcaram
minha vida, que eu aprendi muito com o que estava escrito ali. Sua dor o deixou cego, mesquinho, com uma obsessão: o Zahir. Não é o seu amor por ela que me fez aceitar o convite para este almoço: eu não estou convencido disso, acho que pode ser apenas seu orgulho ferido. O que me fez estar aqui...
A voz aumentava de tom; ele começou a olhar em várias direções, como se
estivesse perdendo o controle. -As luzes...
- O que está acontecendo?
- O que me fez estar aqui é o amor dela por você!
- Você está bem?
Roberto notou que alguma coisa estava errada. Veio até a mesa, sorrindo,
segurou no ombro do rapaz, como quem não quisesse nada.
- Bem, pelo visto minha pizza está péssima. Não precisam pagar, podem ir
embora.
Era a saída que estava faltando. Podíamos levantar, sair e evitar o desolador espetáculo de alguém que finge estar recebendo um espírito em uma pizzaria, apenas para me causar algum tipo de impressão ou constrangimento - embora eu achasse que a coisa era mais séria que uma simples representação teatral.
- Você está sentindo um vento?
Neste momento, tive certeza que não estava representando: ao contrário,
fazia um grande esforço para controlar-se, e estava entrando em um pânico maior que o meu.
- As luzes, as luzes estão aparecendo! Por favor, me leve embora!
Seu corpo começou a ser sacudido por tremores. Agora já não dava para
esconder mais nada, as pessoas em outras mesas tinham se levantado.
-No Casaquis...
Não conseguiu terminar a frase. Empurrou a mesa - pizzas, copos, talheres voaram, atingindo quem comia ao nosso lado. Sua expressão mudou por
completo, seu corpo tremia e seus olhos reviravam nas órbitas. A cabeça foi jogada violentamente para trás, e escutei o ruído de ossos. Um senhor se levantou em uma das mesas. Roberto agarrou-o antes que caísse, enquanto o senhor
pegava uma colher no chão e enfiava em sua boca.
A cena deve ter demorado alguns segundos apenas, mas para mim pareceu