A Herdeira [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1985
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:
- Estou, Dr. Wal.
O médico hesitou um pouco e continuou:
- Quanto ao seu segundo sonho, é tão impossível quanto ao outro. Não há chance de espécie alguma de você se casar com Terinia.
- Por quê?
- Por quê? Pelas mesmas razões que o impedem de ser médico. Vivemos de acordo com as regras impostas pelas nossas tradições. Minha filha tem de casar-se com alguém da mesma classe dela, alguém que possa mantê-la no mesmo estilo de vida em que foi criada. Terá de casar-se com um advogado, um médico ou um rabino. É melhor esquecer-se dela.
- Mas…
O médico levou-o até a porta do consultório.
- Mande alguém examinar essas talas dentro de alguns dias. Conserve limpas as ataduras.
- Está bem. Muito obrigado, Dr. Wal.
O médico olhou o garoto louro e o rosto inteligente que estava diante dele e murmurou:
- Adeus, Samuel Roffe.
Na tarde do dia seguinte, Samuel tocou a campainha da casa do Dr. Wal. O médico viu-o pela janela e pensou que devia dizer que não estava. Mas disse à empregada.
- Faça-o entrar.
Depois disso, Samuel passou a freqüentar a casa do Dr. Wal duas ou três vezes por semana. Dava recados e ia comprar coisas para o médico e este, em troca, deixava-o olhar enquanto ele atendia a clientes no consultório ou preparava medicamentos no laboratório. O garoto observava, aprendia e guardava tudo na memória. Tinha um talento natural, e o Dr. Wal experimentava um crescente sentimento de culpa, sabendo que estava erradamente incentivando Samuel a ser alguma coisa que ele nunca poderia ser.
Entretanto, não tinha ânimo de dissuadi-lo.
Fosse por acaso ou propositadamente, Terinia quase sempre ficava por perto quando Samuel estava presente. Quase sempre ele a via de relance passando pela porta do laboratório ou saindo de casa. Houve um dia em que esbarrou nela na cozinha e sentiu uma emoção tão forte que pensou que fosse desmaiar. Ela o olhou demoradamente, com um brilho de indagação nos olhos. Depois, teve um gesto frio de assentimento e afastouse, ao menos ela o havia notado! Era o primeiro passo. O resto seria apenas uma questão de tempo. Não havia a menor dúvida a esse respeito no espírito de Samuel. Era inevitável. Terinia participava agora dos sonhos de Samuel quanto ao futuro.
Antigamente, sonhava por ele mesmo; passou a sonhar pelos dois. De qualquer modo, sairia com ela daquele terrível gueto, daquela prisão imunda e atravancada. E seria um sucesso. Mas o sucesso não seria para ele apenas, e sim para os dois.
Ainda que tudo isso fosse impossível.
Elizabeth adormeceu lendo a história do velho Samuel. Quando acordou de manhã, escondeu cuidadosamente o Livro e começou a vestir-se para ir à escola. Mas não podia esquecer-se de Samuel. Como ele se casara com Terinia? Como conseguira sair do gueto? Como se tornara famoso?
Elizabeth estava empolgada com o Livro e se afligia com as lições que a levavam a abandoná-lo e a forçavam a voltar ao século XX. Entre as aulas que Elizabeth freqüentava, havia o balé, que ela detestava. Metia-se em sua malha cor-de-rosa e olhava-se no espelho, tentando convencer-se de que tinha um corpo voluptuoso. Mas a verdade estava ali diante de seus olhos. Era muito gorda e nunca seria uma bailarina.
Logo depois do décimo quarto aniversário de Elizabeth, Madame Netturova, a professora de balé, anunciou que dali a duas semanas as alunas dariam o seu recital anual de dança no auditório. As moças deviam convidar os pais, e, ao ouvir isso, Elizabeth ficou em estado de pânico. A simples idéia de aparecer em um palco diante do público enchia-a de medo. Nunca poderia fazer isso.
Uma criança estava atravessando a rua à frente de um carro. Elizabeth viu tudo, correu e salvou a menina das garras da morte. Infelizmente, minhas senhoras e meus senhores, os dedos dos pés de Elizabeth Roffe foram esmagados pelas rodas do carro e ela não poderá dançar no espetáculo desta noite. Uma empregada negligente deixou um pedaço de sabão no alto da escada. Elizabeth escorregou no sabão e rolou pela escada, luxando um osso do quadril. O médico diz que não é grave. Dentro de três semanas, estará inteiramente curada. Mas não teve essa sorte.
No dia do recital, Elizabeth gozava de boa saúde e estava num tremendo nervosismo. Mais uma vez, foi o velho Samuel que a ajudou. Lembrou-se de como, apesar de seu medo, ele tinha voltado para enfrentar o Dr. Wal. Ela não poderia fazer outra coisa que desmoralizasse seu trisavô. Preparou-se para enfrentar a tortura que a esperava. Nem falara ao pai sobre o recital. Todas as vezes que ela lhe havia falado em festa e reuniões da escola para as quais os pais eram convidados, ele alegara sempre que estava muito ocupado e não podia ir. Na noite em que Elizabeth se preparava para o recital de dança, ele voltou para casa.
Passara dez dias ausente da cidade. Passou pela porta do quarto dela, viu-a e disse:
- Boa noite, Elizabeth. Sabe que engordou mais um pouco?
- Sim, papai - disse ela, ficando vermelha e tentando encolher a barriga. Ele ia dizer alguma coisa, mas mudou de idéia.
- Tudo bem na escola?
- Tudo.
- Algum problema?
- Não, papai.
- Ótimo.
Era um diálogo que se havia repetido mais de cem vezes através dos anos, uma troca de palavras sem significado que parecia ser a única forma de comunicação entre eles. Era como dois desconhecidos que falassem do tempo, sem o menor interesse pela opinião um do outro.
Desta vez, porém, Sam Roffe olhou para a filha pensativamente. Estava habituado a lidar com problemas concretos e, embora sentisse que havia algum problema, não tinha idéia do que fosse. Se alguém lhe abrisse os olhos, limitaria-se a dizer: "Está muito enganado. Elizabeth tem tudo".
Quando o pai ia saindo, Elizabeth disse quase sem querer:
- Minha turma de balé vai dar um recital esta noite e eu vou dançar. Não quer ir ver?
Logo que disse as palavras, sentiu-se horrorizada. Não queria que o pai fosse ver sua falta de jeito. Por que falara? Bem sabia por quê. Ela seria a única aluna da turma cujos pais não estariam presentes no auditório. Aliás, o convite não tinha qualquer importância, pois ele ia dizer que não podia. Sacudiu a cabeça com raiva de si mesma e já ia se afastando quando ouviu atrás dela estas palavras do pai:
- Gostarei muito de ir.
O auditório estava cheio de pais, parentes e amigos, vendo as mocinhas dançarem ao som de dois grandes pianos de cauda, colocados um de cada lado do palco. Madame Netturova estava um pouco à frente, marcando o compasso em voz alta enquanto as alunas dançavam, chamando a atenção dos pais para ela própria. Algumas alunas eram muito graciosas e davam mostras de talento verdadeiro. As outras faziam os movimentos determinados, substituindo a competência pelo entusiasmo. O programa mimeografado anunciava trechos musicais de Copélia, Cinderela e O lago dos cisnes. A piéce de resistance seriam os solos, em que cada aluna teria sozinha o seu momento de glória.
Nos bastidores, Elizabeth estava tomada de verdadeira agonia. Esticando um pouco o corpo, podia ver a platéia, e, sempre que avistava o pai sentado no centro da segunda fila, pensava em como tinha sido tola em convidá-lo.
Até então, durante o recital, Elizabeth conseguira ficar em segundo plano entre as colegas que dançavam. Mas a hora do seu solo se aproximava. Ela se sentia enorme em sua malha como se fosse uma personagem de circo. Tinha certeza de que provocaria risos quando aparecesse no palco. E tinha convidado o pai para presenciar a sua humilhação!
O único consolo de Elizabeth era o fato de seu solo não durar mais de que um minuto. Madame Netturova não era louca. Tudo acabaria tão rapidamente que ninguém prestaria atenção nela. Bastaria que o pai de Elizabeth olhasse um instante para o lado e seu número teria terminado.
Elizabeth olhava as outras dançarem e todas lhe pareciam iguais a Markova, a Maximova, a Margot Fonteyn. Assustou-se ao sentir a mão fria em seus braços nus. Era Madame Matturova.