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Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:

A Herdeira [em Português]
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Elizabeth estava estudando latim e teve curiosidade de ver um daqueles volumes.

Ao puxar os livros, viu que havia outro embaixo. Apanhou-o. Era grosso, encardenado em couro e sem título. Mais curiosa ainda, Elizabeth abriu-o. Foi como se abrisse uma porta para outro mundo. Era uma biografia de seu trisavô, Samuel Roffe, impressa em inglês numa edição particular em pergaminho. Não havia o nome do autor, nem a data, mas era evidente que o livro devia ter mais de cem anos. Algumas páginas estavam desbotadas, outras amareladas ou já começando a desfazer-se de velhice. Mas nada disso tinha importância. O importante era a história que dava vida aos retratos pendurados na parede embaixo da escada. Elizabeth tinha visto muitas vezes esses retratos de um homem e de uma mulher de outros tempos, vestidos com roupas estranhas. O homem não era belo, mas havia em seu rosto energia e inteligência. Tinha cabelos louros, os malares salientes dos eslavos e olhos azuis muito vivos. A mulher era uma beleza. Cabelos negros, pele impecável e olhos negros como carvão. Usava um vestido de seda branca com um casaquinho e um corpete de brocado. Dois estranhos que nada significavam para Elizabeth. Mas naquele dia em que, sozinha na sala da torre, Elizabeth abriu o Livro e começou a ler, Samuel e Terenia Roffe readquiriam vida. Elizabeth se sentiu transportada no tempo e começou a viver no gueto de Cracóvia, no ano de 1853, em companhia de Samuel e Terenia. E, ao ler o Livro, ficou sabendo que seu trisavô, Samuel, fundador de Roffe and Sons, fora romântico e aventureiro. E também assassino.

Capítulo 8 De acordo com o Livro, uma das mais antigas lembranças de Samuel, era a do assassinato de sua mãe. Samuel tinha cinco anos de idade. Ele fora escondido na adega da pequena casa de madeira em que os Roffes moravam, com outras famílias, no gueto de Cracóvia. Quando a desordem finalmente terminara, depois de horas terríveis de angústia e sofrimento, e o único som que se ouvia era o choro dos sobreviventes, Samuel deixou cautelosamente seu esconderijo e saiu às ruas do gueto à procura da mãe.

Parecia ao garoto que o mundo inteiro estava em chamas. O céu mostrava-se avermelhado com o incêndio de inúmeras casas de madeira, e nuvens de espessa fumaça negra se erguiam por toda a parte. As pessoas andavam freneticamente à procura dos parentes e amigos ou tentavam salvar o que ainda fosse possível das casas e bens.

Eram meados do século XIX, Cracóvia possuía um corpo de bombeiros, que estava, proibido de prestar socorro aos judeus. Ali no gueto, nos arredores da cidade, o povo era forçado a debelar os incêndios com as próprias mãos, tirando água dos poços.

Dezenas de pessoas formavam cadeias de passagem de baldes no esforço de combater o fogo. Samuel via a morte por onde quer que olhasse, nos corpos mutilados de pessoas estendidas no chão como bonecos quebrados, de mulheres nuas e violentadas e de crianças ensangüentadas que pediam socorro.

Samuel encontrou a mãe estendida na rua, ainda consciente, o rosto coberto de sangue. O menino se ajoelhou ao lado dela, com o coração batendo descompassadamente.

- Mamãe!

Ela abriu os olhos, viu-o, tentou falar, e Samuel compreendeu que ela estava morrendo. Queria desesperadamente salvá-la, mas não sabia como, e quando lhe enxugou o sangue, ela morreu. Mais tarde, Samuel assistiu ao sepultamento e viu os homens cavarem cuidadosamente o chão em que ela caíra, pois, de acordo com as Escrituras, ela teria de ser enterrada com todo o seu sangue para aparecer inteira diante de Deus. Foi nesse momento que Samuel Roffe resolveu ser médico.

A família Roffe morava numa estreita casa de três andares, com mais oito famílias.

O jovem Samuel vivia num pequeno quarto com o pai e com a tia Rachel, e nunca em sua vida tivera um quarto só seu, nunca dormira ou comera sozinho. Nunca tinha havido um só momento em que não ouvisse as vozes dos outros, mas não era uma vida isolada e privada que Samuel desejava, pois nem sabia que isso existia. Vivera sempre no meio de uma confusão de gente.

Todas as tardes, Samuel e seus parentes e amigos eram trancados no gueto pelos gentios, e os judeus tratavam de guardar cabras, vacas e galinhas. Ao anoitecer, as pesadas portas do gueto eram fechadas e trancadas com uma chave de ferro. Quando amanhecia, as portas eram abertas, e os mercadores judeus tinham permissão de ir a Cracóvia negociar com os gentios, mas antes de escurecer deviam estar todos de novo dentro dos muros do gueto.

O pai de Samuel viera da Rússia, fugindo de um pogrom em Kiev, e fora parar em Cracóvia, onde conhecera sua noiva. Era um homem encurvado e grisalho, com rosto encarquilhado. Empurrava um carrinho, apregoando as miudezas, quinquilharias e utensílios que vendia, através das estreitas e tortuosas ruas do gueto.

O Jovem Samuel gostava de vaguear pelas ruas atravancadas, movimentadas e calçadas de pedras irregulares. Gostava do cheiro do pão recém-saído do forno misturado com os cheiros de peixe seco, queijo, frutas maduras, serragem e couro. Gostava de ouvir os pregões dos vendedores e as discussões com as freguesas que se fingiam escandalizadas com os preços. Era assombrosa a variedade de artigos que os ambulantes vendiam: roupas e rendas, pano de chão, lã, couro, carnes, verduras, agulhas, sabonete, galinhas depenadas, bombons, botões, xaropes e sapatos.

No dia em que Samuel completou doze anos, o pai levou-o à cidade de Cracóvia pela primeira vez. A idéia de passar pelos portões proibidos e de ver Cracóvia, a terra dos gentios, provocou no garoto uma ansiedade quase insuportável. Às seis horas da manhã vestido com uma única roupa boa que tinha, Samuel esperava no escuro, ao lado do pai, diante dos grandes portões fechados, no meio de uma barulhenta multidão de homens com carros de toda a espécie ao alcance das mãos.

Fazia frio, e Samuel se embrulhou mais no seu velho e gasto capote de pele de carneiro. Depois de uma espera que pareceu de muitas horas, o sol surgiu no horizonte e houve um tremor de expectativa entre os homens ali reunidos. Momentos depois, os grandes portões de madeira foram abertos. Todos passaram por eles e seguiram na direção da cidade como um bando de formigas diligentes. Quando se aproximavam da cidade admirável e terrível, o coração de Samuel começou a bater mais forte. Já avistava as fortificações que dominavam o Fístula.

Samuel agarrou-se com mais força ao pai. Estava de fato em Cracóvia, cercado pelos temidos goyim, a gente que os trancava durante a noite. Lançava olhares furtivos e medrosos para as pessoas que passavam e se espantava de que fossem tão diferentes.

Não usavam payves, cabelos encaracolados em cima das orelhas, nem bekeches, os longos casacos pretos, e muitos deles não tinham barba no rosto. Samuel e seu pai caminharam pelo Plante em direção ao Ryneck, a movimentada praça do mercado, onde passaram pelo Pavilhão dos Tecidos e pela Igreja de Santa Maria com as suas torres gêmeas. Samuel jamais imaginara tanta magnificência. O novo mundo era cheio de maravilhas. Havia principalmente uma sensação embriagadora de liberdade e de espaço que deixava Samuel sem fôlego.

As casas nas ruas eram separadas e não grudadas umas nas outras. Quase todas tinham na frente um pequeno jardim. Com certeza, pensou Samuel, todos em Cracóvia são milionários. Samuel acompanhou o pai a meia dúzia de fornecedores, aos quais o pai comprou mercadorias que jogou dentro do carro. Quando este ficou cheio, ele e o filho voltaram para gueto.

- Não podemos ficar mais um pouco? - perguntou Samuel.

- Não, meu filho. Temos de ir para casa.

Samuel não queria ir para casa. Transpusera os portões do gueto pela primeira vez em sua vida e estava dominado por uma emoção tão forte que quase o sufocava.

Havia gente que podia viver assim, podendo ir para onde bem quisesse, fazer o que bem entendesse… Por que é que ele não nascera do outro lado dos portões? Quase no mesmo instante, envergonhou-se desses pensamentos desleais. Naquela noite, ao deitarse, Samuel ficou pensando durante muito tempo em Cracóvia e nas belas casas com as suas flores e os seus jardins. Tinha de encontrar um meio de libertar-se. Queria conhecer alguém que sentisse o mesmo que ele sentia, mas não havia ninguém que o compreendesse.

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