A Herdeira [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1985
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:
Elizabeth interrompeu a leitura do Livro e fechou os olhos, imaginando então a solidão, as emoções e as frustrações de Samuel. Foi nesse momento que ela começou a identificar-se com ele, a sentir-se uma parte dele, como ele era uma parte dela. O sangue dele lhe corria nas veias. Era um sentimento admirável e perturbador de participação.
Ouviu o barulho do carro do pai que voltava e escondeu prontamente o Livro. Não teve mais oportunidade de lê-lo na Sardenha, mas quando voltou para Nova York levou-o escondido no fundo da mala.
Capítulo 9 Depois do sol quente de inverno da Sardenha, Nova York lhe pareceu uma Sibéria.
As ruas estavam cheias de neve e lama. O vento que soprava do rio East era enregelante. Mas Elizabeth não se importava. Estava vivendo na Polônia em outro século, participando das aventuras de seu trisavô.
Todas as tardes, depois da escola, corria para o seu quarto, trancava a porta e pegava o Livro. Pensara em falar dele ao pai, mas tivera medo de que este o tomasse e lhe proibisse a leitura do resto. De uma maneira admirável e inesperada, foi o velho Samuel quem animou Elizabeth. Afinal de contas, eram muito parecidos. Ele vivia isolado da mesma maneira que ela e do mesmo modo não tinha ninguém com quem pudesse falar. E, como eram quase da mesma idade, com um século de diferença, Elizabeth conseguia identificar-se com ele.
Samuel queria ser médico. Só três médicos tinham permissão para atender aos milhares de pessoas amontoadas nos limites insalubres e sujeito a epidemias do gueto.
Dos três, o mais próspero era o Dr. Zenon Wal. A casa dele se destacava entre as de seus vizinhos mais pobres como um castelo entre pardieiros. Tinha três andares e por trás de suas janelas viam-se cortinas de renda brancas, sempre lavadas e engomadas, e alguns móveis polidos e brilhantes. Dentro de casa, Samuel imaginava o médico atendendo aos seus pacientes, tratando deles, ajudando-os e curando-os.
Fazia tudo o que Samuel desejava um dia fazer. Sem dúvida, se um homem como o Dr. Wal se interessasse por ele, poderia ajudá-lo a estudar para ser médico. Mas, no que se referia a Samuel, O Dr. Wal era tão inacessível quanto qualquer dos gentios que viviam em Cracóvia, fora dos muros proibidos.
De vez em quando, Samuel via de relance o grande Dr. Zenon Wal quando este se empenhava em animar conversa na rua com algum colega. Um dia, quando Samuel passava pela frente da casa do Dr. Wal, a porta da rua se abriu e o médico saiu em companhia da filha. Ela era mais ou menos da idade de Samuel, e este nunca vira criatura mais linda.
No momento em que Samuel a viu, teve certeza de que ia casar-se com ela. Não sabia como conseguir esse milagre, mas estava certo de que era isso o que ia acontecer.
Depois desse dia, Samuel nunca mais deixou de passar diariamente pela casa do Dr.
Wal, na esperança de vê-la. Numa tarde, ia fazer alguma coisa que lhe haviam pedido e passou pela casa. Ouviu um piano e compreendeu que era ela que estava tocando. Tinha de vê-la.
Olhou para um lado e para o outro, para certificar-se de que ninguém o observava, e encaminhou-se para a casa. A música vinha de um lado da casa. No andar superior, bem acima de sua cabeça. Recuou um pouco e examinou a parede. Havia muitos lugares onde poderia apoiar as mãos e os pés. Sem um momento de hesitação, começou a escalada.
O segundo andar era mais alto do que ele havia pensado e, antes que chegasse à janela, estava três metros acima do chão. Olhou para baixo e teve um princípio de vertigem. A música lhe chegava aos ouvidos com mais força, e ele teve a impressão de que ela tocava para ele. Estendeu a mão à procura de um ponto de apoio e se agarrou à janela. Ergueu lentamente a cabeça para olhar acima do peitoril. Viu diante dos seus olhos uma sala luxuosamente mobiliada. A moça estava sentada diante de um piano branco e dourado a tocar e, atrás dela, lendo um livro numa poltrona, estava o Dr. Wal.
Samuel nem o notou. Tinha olhos apenas para a linda visão a alguns metros dele. Como a amava! Queria fazer alguma coisa espetacular e corajosa para que ela também o amasse.
Tão envolvido ficou Samuel nos seus devaneios que se distraiu, perdeu o ponto de apoio e começou a rolar no espaço. Deu um grito e viu dois rostos assustados que o olhavam da janela no momento em que chegou ao chão. Acordou numa mesa do consultório do Dr. Wal.
Era uma sala espaçosa, cheia de armários e material cirúrgico. O Dr. Wal estava com um chumaço de algodão que tinha um cheiro horrível encostado ao nariz de Samuel.
Este tossiu e sentou-se na mesa.
- Muito bem - disse o Dr. Wal. - Devia ter-lhe tirado o cérebro, mas fiquei em dúvida, sem saber se ia encontrar alguma coisa dentro da sua cabeça. O que você queria roubar, garoto?
- Nada - respondeu Samuel com indignação.
- Como é seu nome?
- Samuel Roffe.
O médico examinou com os dedos o pulso direito de Samuel, e o garoto deu um grito de dor.
- Hum… Você luxaçou o pulso, Samuel Roffe. Talvez seja melhor chamar a polícia para dar um jeito nesse pulso.
Samuel gemeu. Pensava no que poderia acontecer se a polícia levasse a desmoralização à casa dele. O coração de sua tia Rachel se partiria de dor e seu pai seria capaz de matá-lo. Mas o pior de tudo seria que, depois disso, poderia perder toda a esperança de ganhar o coração da filha do Dr. Wal. Seria um criminoso, um homem marcado. Samuel sentiu de repente uma dor estonteante no pulso e levantou os olhos para o médico numa desalentada surpresa.
- Está tudo certo - disse o Dr. Wal. - Vou colocar agora algumas talas nesse pulso.
Você vive aqui por perto, Samuel Roffe?
- Não, Dr. Wal.
- Já não o vi aqui por perto?
- Deve ter visto.
- Por quê? Sim, por quê?
Se dissesse, o médico iria com certeza rir dele.
- Porque eu quero ser médico - exclamou Samuel, sem mais poder guardar o seu segredo. O Dr. Wal o olhava, descrente.
- Efoi por isso que subiu pelas paredes da minha casa, como se fosse um gatuno?
Samuel então, contou-lhe tudo. Falou de sua mãe morta no meio da rua, da luta de seu pai, de sua primeira visita a Cracóvia e da sua frustração de passar as noites trancado dentro dos muros do gueto como se fosse um animal. Disse também o que sentia pela filha do Dr. Wal. Disse tudo o que pensava, e o médico o escutava em silêncio. Até a Samuel o que ele dizia parecia de um ridículo atroz. Quando chegou ao fim, só pôde dizer num sussurro:
- Desculpe…
O Dr. Wal olhou-o durante muito tempo e por fim disse?
- Todo homem é um prisioneiro, e o pior é ser prisioneiro de outro homem. Samuel murmurou:
- Não compreendo, Dr. Wal.
- Um dia você compreenderá.
O médico levantou-se, escolheu um cachimbo em cima de sua mesa e o encheu de fumo.
- Infelizmente, o dia de hoje vai ser muito triste para você, Samuel Roffe. Acendeu o cachimbo, saltou a primeira baforada e continuou: - Não em virtude do pulso luxado.
Isso vai sarar. Mas tenho alguma coisa para lhe dizer, na qual você não se curará com muita facilidade. São poucas as pessoas que sonham. Você tem dois sonhos. E sou obrigado a destruir a ambos.
- Não…
- Escute com muita atenção, Samuel. Você nunca poderá ser médico, ao menos em nosso mundo. Só três médicos podem exercer a profissão no gueto. Há dezenas de médicos competentes aqui à espera que algum de nós morra para que possa tomar nosso lugar. Não há chance para você, nenhuma chance. Você nasceu em época imprópria e em lugar impróprio. Está compreendendo, meu jovem?