O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- E imagino que sabe a razão.
- Depois de permitir que a energia divina passe por meu corpo, eu sei a
razão de tudo. Sei a razão do amor e da guerra. Sei a razão de um homem buscar a mulher que ama.
Senti que de novo estava caminhando pelo fio de uma navalha. Se ele sabia que eu estava ali por causa do meu Zahir, sabia também que isso era uma ameaça para seu relacionamento.
- Podemos conversar como dois homens de honra, que lutam por algo que
vale a pena?
Mikhail pareceu vacilar um pouco. Eu continuei:
- Sei que sairei machucado, como o mestre que quis sentar-se entre os
chifres do búfalo: mas acho que mereço. Mereço isso pela dor que causei, mesmo que inconscientemente. Não creio que Esther me deixaria se eu tivesse respeitado seu amor.
- Você não entende nada - disse Mikhail.
Aquela frase me irritou. Como um rapaz de 25 anos podia dizer a um
homem vivido, sofrido, testado pela vida, que ele não entendia nada? Mas eu precisava me controlar, me humilhar, fazer o que fosse necessário: não podia seguir convivendo com fantasmas, não podia deixar que o meu universo inteiro continuasse sendo dominado pelo Zahir.
- Pode ser que eu realmente não entenda: justamente para isso estou aqui.
Para entender. Para libertar-me através da compreensão do que aconteceu.
- Você entendia tudo muito bem e, de repente, deixou de entender; pelo
menos foi isso que Esther me contou. Como todos os maridos, chega um
momento em que começa a considerar a esposa como parte dos móveis e
utensílios da casa.
Minha tentação era dizer: “gostaria, então, que ela me contasse, me desse chance de corrigir meus erros, e não que me deixasse por um rapaz de vinte e poucos anos, que em breve estará agindo da mesma maneira que agi.” Mas uma frase mais cuidadosa saiu de minha boca:
- Não creio que seja assim. Você leu meu livro, você foi até a minha tarde de autógrafos porque sabe o que sinto, e queria me deixar mais tranqüilo. Meu coração ainda continua em frangalhos: você alguma vez já ouviu falar no Zahir?
- Fui educado na religião islâmica. Conheço a idéia do Zahir.
- Pois Esther ocupa todo o espaço de minha vida. Achei que, ao escrever o que sentia, me livraria de sua presença. Hoje a amo de maneira mais silenciosa, mas não consigo pensar em outra coisa. Eu lhe peço por favor: farei o que desejar, mas preciso que me explique por que ela desapareceu desta maneira.
Como você mesmo disse, eu não entendo nada.
Era duro estar ali implorando ao amante de minha mulher que me ajudasse
a compreender o que se havia passado. Se Mikhail não tivesse aparecido na tarde de autógrafos, talvez aquele momento na catedral de Vitória, onde aceitei o meu amor e escrevi Tempo de rasgar, tempo de costurar, tivesse sido o suficiente. O
destino, porém, tinha outros planos - e a simples possibilidade de poder
reencontrar minha mulher mais uma vez tornava a desequilibrar tudo.
- Almoçamos juntos - disse Mikhail, depois de um longo tempo. - Você
realmente não entende nada. Mas a energia divina, que hoje atravessou meu corpo, é generosa com você.
Marcamos o encontro para o dia seguinte. No caminho de volta, lembrei-me
de uma conversa com Esther, ocorrida três meses antes de seu desaparecimento.
Uma conversa sobre a energia divina atravessando o corpo.
ealmente seus olhos são diferentes. Existe o medo da morte, sim
- mas acima do medo da morte, existe a idéia do sacrifício. As
- R suas vidas têm um sentido, porque eles estão prestes a oferecê-las por uma causa.
- Você fala dos soldados?
- Falo dos soldados. E falo de uma coisa que é terrível para mim aceitar, mas que não posso fingir que não vejo. A guerra é um rito. Um rito de sangue, mas um rito de amor.
- Você perdeu o juízo.
- Talvez. Conheci outros correspondentes de guerra. Vão de um país a
outro, como se a rotina da morte fizesse parte de suas vidas. Não têm medo de nada, enfrentam o perigo como um soldado enfrenta. Tudo por uma notícia? Não creio. Já não conseguem viver sem o perigo, a aventura, a adrenalina no sangue.
Um deles, casado e com três filhos, me disse que o lugar onde sente-se melhor é no campo de batalha - embora adore sua família, fala o tempo todo sobre a mulher e as crianças.
- E realmente impossível entender. Esther, não quero interferir em sua vida, mas acho que esta experiência terminará lhe fazendo mal.
- O que me fará mal é viver uma vida sem sentido. Na guerra, todo mundo
sabe que está experimentando alguma coisa importante.- Um momento histórico?
- Não, isso não é suficiente para arriscarem a vida. Experimentando... a
verdadeira essência do homem.
- A guerra.
- Não, o amor.
- Você está ficando como eles.
- Acho que sim.
- Diga à sua agência de notícias que basta.
- Não consigo. E como se fosse uma droga. Se estou no campo de batalha,
minha vida tem um sentido. Fico dias sem tomar banho, me alimento de rações de soldados, durmo três horas por noite, acordo com barulho de tiros, sei que a qualquer instante alguém pode jogar uma granada no lugar onde estamos, e isso me faz... viver, entende? Viver, amar cada minuto, cada segundo. Não existe espaço para tristeza, dúvidas, para nada: resta apenas um grande amor pela vida.
Você está prestando atenção?
- Totalmente.
- E como se... uma luz divina... estivesse ali, no meio dos combates, no
meio daquilo que existe de pior. O medo existe antes e depois, mas não no momento em que os tiros estão sendo disparados. Porque, nesta hora, você vê o homem em seu limite: capaz dos gestos mais heróicos e mais desumanos. Saem debaixo de uma saraivada de balas para resgatar um companheiro, e ao mesmo tempo atiram em tudo que se move - crianças, mulheres, quem estiver na linha de combate vai morrer. Pessoas que sempre foram honestas, em suas pequenas
cidades do interior onde nada acontece, invadem museus, destroem peças que resistiram séculos e roubam coisas de que não necessitam. Tiram fotos de
atrocidades que eles mesmos cometeram e se orgulham disso, ao invés de tentar esconder. É um mundo louco.
“Pessoas que sempre foram desleais, traiçoeiras, sentem uma espécie de
camaradagem e cumplicidade, e passam a ser incapazes de um gesto errado. Ou seja, tudo funciona exatamente ao contrário.”
- Ajudou a responder à pergunta que Hans fez a Fritz em um bar de Tóquio, conforme a história que me contou?
- Sim. A resposta está em uma frase do jesuíta Teilhard de Chardin, o
mesmo que disse que nosso mundo estava envolto por uma camada de amor: “Já dominamos a energia do vento, dos mares, do sol. Mas no dia em que o homem souber dominar a energia do amor, será algo tão importante como foi a
descoberta do fogo.”
- E só aprendeu isso porque foi para a frente de batalha?
- Não sei. Mas vi que, na guerra, por mais paradoxal que seja, as pessoas estão felizes. O mundo, para elas, tem um sentido. Como disse antes, o poder total, ou o sacrifício por uma causa, dá um significado às suas vidas. Elas são capazes de amar sem limite, porque já não têm nada a perder. Um soldado ferido de morte nunca pede à equipe médica: “Por favor, me salve!” Suas últimas
palavras são geralmente: “Diga a meu filho e minha mulher que eu os amo.” No momento de desespero, eles falam de amor!
- Ou seja, na sua opinião, o ser humano só encontra sentido na vida, quando está em uma guerra.
- Mas estamos sempre em uma guerra. Estamos sempre em uma luta contra
a morte, e sabemos que a morte vai ganhar no final. Nos conflitos armados isso é mais visível, mas na vida diária acontece o mesmo. Não podemos nos dar o luxo de ser infelizes o tempo todo.
- O que você quer que eu faça?
- Preciso de ajuda. E ajuda não é dizer: “vá e peça demissão”, porque isso me deixa mais confusa que antes. Precisamos descobrir uma maneira de canalizar isso, deixar que a energia deste amor puro, absoluto, passe por nosso corpo e se espalhe ao redor. A única pessoa que conseguiu me entender até agora foi um intérprete que fala que teve revelações a respeito desta energia, mas ele me parece um pouco fora da realidade.