O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
em Londres. Diz o seguinte:
“A) dois terços dos empregados de uma firma têm algum tipo de relação
afetiva. Imagine só! Em um escritório de três pessoas, isso significa que duas vão terminar tendo algum tipo de contacto íntimo.
“B) 10% terminam deixando o emprego por causa disso, 40% têm relações
que demoram mais de três meses, e no caso de certas profissões que exigem longo tempo fora de casa, pelo menos oito em dez pessoas terminam se
envolvendo entre si.” Não é inacreditável?
- Tratando-se de estatísticas, temos que respeitar! - comenta um dos jovens vestidos como se fosse parte de um perigoso grupo de assaltantes. - Nós todos acreditamos em estatísticas! Isso significa que minha mãe deve estar traindo o meu pai, e a culpa não é dela, é das estatísticas!
Mais risos, mais cigarros acesos, mais alívio, como se ali, naquela
audiência, as pessoas estivessem escutando coisas que sempre temeram ouvir, e isso os libertasse de algum tipo de angústia. Penso em Esther e em Mikhaiclass="underline"
“profissões que exigem longo tempo fora de casa, oito entre dez pessoas.”
Penso em mim, e nas muitas vezes que isso também aconteceu. Afinal de
contas, são estatísticas, não estamos sós.
Outras histórias são contadas - ciúme, abandono, depressão - mas eu não
estou mais prestando atenção. Meu Zahir voltou com toda a intensidade - estou na mesma sala com o homem que roubou minha mulher, embora tenha
acreditado por alguns instantes que me encontrava apenas fazendo terapia de grupo. Meu vizinho, que tinha me reconhecido, pergunta se estou gostando. Por um momento, ele me distrai do meu Zahir, e fico contente de responder.
- Não estou entendendo o objetivo. Parece um grupo de auto-ajuda, como
alcoólicos anônimos ou conselheiros matrimoniais.
- Mas o que você está escutando não é real?
- Pode ser. Mas repito: qual é o objetivo?
- Essa não é a parte mais importante da noite - é apenas uma maneira de não nos sentirmos sozinhos. Recontando nossas vidas diante de todos, terminamos por descobrir que a maior parte das pessoas viveu a mesma coisa.
- E o resultado prático?
- Se não estamos sozinhos, temos mais força para saber onde nos
desviamos, e mudar de rumo. Mas, como eu disse, isso é apenas um intervalo entre o que o menino diz no início, e o momento de invocar a energia.
- Quem é o menino?
A conversa é interrompida pelo barulho do prato de metal. Desta vez é o
velho, diante do atabaque, que está falando.
- O lado do raciocínio está terminado. Vamos ao ritual, à emoção que tudo coroa e que tudo transforma. Para aqueles que estão hoje aqui pela primeira vez, esta dança desenvolve nossa capacidade de aceitar o Amor. O Amor é a única coisa que ativa a inteligência e a criatividade, algo que nos purifica e nos liberta.
Os cigarros são apagados, o barulho de copos termina. O estranho silêncio desce de novo sobre a sala, e uma das meninas faz uma prece.
- Senhora, dançaremos em sua homenagem. Que nossa dança nos faça voar
até o alto.
Ela disse “senhora”, ou eu escutei errado?
Com certeza ela disse “senhora”.
A outra menina acende quatro candelabros com velas, as luzes são
apagadas. As quatro figuras vestidas de branco, com suas saias rodadas,
desceram do palco e se misturaram com a platéia. Por quase meia hora, o
segundo rapaz, com uma voz que parecia sair do seu ventre, entoa um canto monótono, repetitivo, mas que - curiosamente - me fazia esquecer um pouco o Zahir, relaxar, sentir uma espécie de sonolência. Mesmo uma das crianças, que corria de um lado para o outro durante toda a parte de “recontar o amor”, agora estava quieta, olhando fixamente em direção ao palco. Alguns dos presentes têm os olhos fechados, outros contemplam o chão ou um ponto fixo, invisível, como eu vira Mikhail fazer.
Quando ele pára de cantar, começam os instrumentos de percussão - o tal
prato de metal com apliques e o atabaque -com um ritmo muito semelhante ao que estava acostumado a ver nas cerimônias de religiões vindas da África.
As figuras vestidas de branco giram em torno de si mesmas - e o público,
naquele lugar lotado, abre espaço para que as saias rodadas tracem movimentos no ar. Os instrumentos aumentam o ritmo, os quatro giram cada vez mais
depressa, deixando escapar sons que não faziam parte de nenhuma língua
conhecida - como se estivessem falando diretamente com anjos, ou com a
“senhora”, como tinha sido dito.
Meu vizinho levantou-se, e também começou a dançar e murmurar frases
incompreensíveis. Dez ou onze pessoas na platéia fazem o mesmo, enquanto o resto assiste com um misto de reverência e admiração.
Não sei quanto tempo durou aquela dança, mas o som dos instrumentos
parecia seguir as batidas do meu coração, e eu tive uma imensa vontade de entregar-me, falar coisas estranhas, movimentar meu corpo - foi preciso um misto de autocontrole e senso de ridículo, para que eu não começasse a girar como um louco em torno de mim mesmo. Entretanto, como nunca antes, a figura de Esther, o meu Zahir, parecia estar na minha frente, sorrindo, pedindo que eu louvasse a “senhora”.
Eu lutava para não entrar naquele ritual que eu não conhecia, para que tudo acabasse logo. Procurava concentrar-me no meu objetivo de estar ali naquela noite - conversar com Mikhail, fazer com que me levasse até o meu Zahir -, mas senti que era impossível continuar imóvel. Levantei-me da cadeira, e quando ensaiava, com cuidado e timidez, os primeiros passos, a música parou
abruptamente.
No salão iluminado apenas por velas, tudo que podia ouvir era a respiração ofegante dos que tinham dançado. Aos poucos, o som da respiração foi
diminuindo, as luzes tornaram a ser acesas, e tudo parecia ter voltado ao normal.
Pude ver que os copos tornavam a se encher de cerveja, vinho, água, refrigerante, as crianças recomeçaram a correr e falar alto, e logo estavam todos conversando -
como se nada, absolutamente nada de mais tivesse acontecido.
- Está na hora de terminarmos o encontro - disse a menina que tinha
acendido as velas. - Alma tem a história final.
Alma era a mulher que tocava o prato de metal. Falou com um sotaque de
alguém que vivera no Oriente.
- O mestre tinha um búfalo. Os chifres afastados faziam-no pensar que, se conseguisse sentar entre eles, seria o mesmo que estar em um trono. Certo dia, quando o animal estava distraído, ele foi até lá e fez o que sonhava. Na mesma hora, o búfalo levantou-se e atirou-o longe.
“Sua mulher, ao ver aquilo, começou a chorar.
“Não chore”, disse o mestre, assim que conseguiu recuperar-se. “Tive meu
sofrimento, mas também realizei o meu desejo.”
As pessoas começaram a sair. Perguntei ao meu vizinho o que ele havia
sentido.
- Você sabe. Você escreve isso em seus livros.
Eu não sabia, mas precisava fingir.
- Pode ser que eu saiba. Mas quero ter certeza.
Ele me olhou como se eu não soubesse, e pela primeira vez começou a
duvidar se eu era mesmo o escritor que julgava conhecer.
- Estive em contacto com a energia do Universo - respondeu. - Deus passou por minha alma.
E saiu, para não precisar explicar o que estava dizendo.
Na sala deserta ficaram apenas os quatro atores, os dois músicos e eu. As mulheres foram ao banheiro feminino do restaurante, possivelmente para trocar de roupa. Os homens se despiram das vestimentas brancas ali mesmo no salão, e colocaram suas roupas normais. Em seguida, começaram a guardar os
candelabros e os instrumentos em duas valises grandes.
O senhor mais velho, que tinha tocado atabaque durante a cerimônia,
começou a contar o dinheiro, e dividiu-o em seis pilhas iguais. Penso que foi só neste instante que Mikhail notou minha presença.
- Eu esperava vê-lo por aqui.