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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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Bebem, fumam, conversam alto, como se as pessoas no palco não

existissem. Aos poucos a conversa fica cada vez mais alta, escutam-se muitas gargalhadas, o ambiente é de alegria e de festa. Seita? Só se fosse uma confraria de fumantes. Olho ansiosamente de um lado para o outro, julgo ver Esther em todas as mulheres que estão ali, mas, sempre que chego perto, trata-se de uma outra pessoa - às vezes sem qualquer semelhança física com a minha esposa (por que não me acostumo a dizer “minha ex-esposa ?).

Pergunto a uma mulher bem-vestida o que é aquilo. Ela parece sem

paciência para responder - olha-me como se fosse um principiante, uma pessoa que precisasse ser educada nos mistérios da vida.

- Histórias de amor - diz ela. - Histórias e energia.

Histórias e energia. Melhor não insistir, embora a mulher tenha a aparência de ser absolutamente normal. Penso em perguntar para outra pessoa, resolvo que é melhor ficar calado - daqui a pouco descobrirei por mim mesmo. Um senhor ao meu lado me olha e sorri:

-Já li seus livros. E, claro, sei por que razão está aqui.

Eu fico assustado: será que ele conhece a relação entre Mikhail e minha

esposa - preciso corrigir-me de novo - a relação entre uma das pessoas no palco e minha ex-esposa?

- Um autor como você conhece os Tengri. Eles têm uma relação direta com

o que chama de “guerreiros da luz”.

- Claro - respondo aliviado.

E penso: nunca ouvi falar disso.

Vinte minutos depois, quando o ar da sala está quase irrespirável por causa da fumaça dos cigarros, escuta-se o barulho do tal prato de metal com aplique em suas bordas. A conversa pára como por milagre, o ambiente de completa anarquia parece ganhar uma aura religiosa: tanto o palco como a platéia estão em silêncio, o único ruído que se escuta vem do restaurante ao lado.

Mikhail, que parece estar em transe, e continua fixando o ponto invisível diante de si, começa:

- Diz o mito mongol da criação do mundo:

Apareceu um cão selvagem que era azul e cinza

Cujo destino era imposto pelo céu.

Sua mulher era uma corça.

Sua voz é outra, mais feminina, mais segura.

- Assim começa mais uma história de amor. O cão selvagem com sua

coragem, sua força, a corça com sua doçura, intuição, elegância. O caçador e a caça se encontram e se amam. Conforme as leis da natureza, um deveria destruir o outro - mas no amor não há bem nem mal, não há construção nem destruição, há movimentos. E o amor muda as leis da natureza.

Ele fez um gesto com a mão e os quatro giram em torno de si mesmos.

- Nas estepes de onde venho, o cão selvagem é um animal feminino.

Sensível, capaz de caçar porque desenvolveu seu instinto, mas ao mesmo tempo tímido. Não usa a força bruta, usa a estratégia. Corajoso e cauteloso, rápido. Em um segundo muda de um estado de relaxamento total, para a tensão de saltar sobre seu objetivo.

E a corça?, pensei, já que estou acostumado a escrever histórias. Mikhail também estava acostumado a contá-las, e responde à pergunta que estava no ar:-

A corça tem os atributos masculinos: velocidade, entendimento da terra. Os dois viajam em seus mundos simbólicos, duas impossibilidades que se encontram, e porque superam suas naturezas e suas barreiras, tornam também o mundo

possível. Assim é o mito mongoclass="underline" das naturezas diferentes, nasce o amor. Na contradição, o amor ganha força. No confronto e na transformação, o amor se preserva.

“Temos nossa vida. O mundo custou muito até chegar onde está, nos

organizamos da melhor maneira possível; não é o ideal, mas podemos conviver.

Entretanto, falta alguma coisa - sempre falta alguma coisa, e é por isso que estamos reunidos aqui esta noite: para que cada um de nós ajude os outros a pensar um pouco na razão de sua existência. Contando histórias que não fazem sentido, procurando fatos que não se enquadram na maneira geral de perceber a realidade, até que, talvez em uma ou duas gerações, possamos descobrir um outro caminho.

“Quando o poeta italiano Dante escreveu A divina comédia, ele disse: No

dia em que o homem permitir que o verdadeiro amor apareça, as coisas que estão bem estruturadas se transformarão em confusão, e irão balançar tudo aquilo que achamos que é certo, que é verdade. O mundo será verdadeiro quando o homem souber amar - até lá, viveremos achando que conhecemos o amor, mas sem

coragem de enfrentá-lo tal como é.

“O amor é uma força selvagem. Quando tentamos controlá-lo, ele nos

destrói. Quando tentamos aprisioná-lo, ele nos escraviza. Quando tentamos entendê-lo, ele nos deixa perdidos e confusos.

“Esta força está na terra para nos dar alegria, para nos aproximar de Deus e do nosso próximo: e mesmo assim, da maneira que amamos hoje, temos uma

hora de angústia para cada minuto de paz.”Mikhail fez uma pausa. O estranho prato de metal tocou novamente.

- Como fazemos todas as quintas-feiras, não vamos contar histórias de

amor. Vamos contar histórias de desamor. Vamos ver o que está na superfície, e entenderemos o que está por baixo: a camada onde se encontram nossos

costumes, nossos valores. Quando conseguirmos furar esta camada, veremos que ali estamos nós. Quem começa?

Várias pessoas levantaram a mão. Ele apontou para uma moça de aparência

árabe. Ela se virou para um homem sozinho, do outro lado da sala.

- Você já ficou impotente na cama com alguma mulher? Todo mundo riu. O

homem, porém, evitou a resposta direta.

- Você pergunta isso porque seu namorado é impotente?

Todo mundo riu de novo. Enquanto Mikhail falava, eu voltara a suspeitar

que uma nova seita estava se formando, mas imagino que nas reuniões de seitas ninguém fuma, bebe ou faz perguntas constrangedoras sobre a atividade sexual do próximo.

- Não - disse a menina, com voz firme. - Mas já aconteceu com ele. E sei

que, se você tivesse levado minha pergunta a sério, a resposta seria “sim, já aconteceu comigo”. Todos os homens, em todas as culturas e países,

independentemente do amor ou da atração sexual, já ficaram impotentes, muitas vezes com a pessoa que mais desejam. É normal.

Sim, era normal, e quem tinha me dado esta resposta era um psiquiatra,

quando achei que eu tinha um problema. A moça continuou:

- Entretanto, a história que nos foi contada é a seguinte: todos os homens sempre conseguem ter uma ereção. Quando não conseguem, eles acham que são incapazes, e as mulheres se convencem que não são atraentes o bastante para interessá-los. Como o assunto é um tabu, ele não conversa com seus amigos sobre isso. Diz para a mulher a famosa frase: “Foi a primeira vez que isso aconteceu.” Tem vergonha de si mesmo, e na maior parte das vezes se afasta de alguém com quem poderia ter uma excelente relação, se tivesse permitido uma segunda, terceira, ou quarta chance. Se confiasse mais no amor dos amigos, se falasse a verdade, descobriria que não é o único. Se confiasse mais no amor da mulher, não se sentiria humilhado.

Aplausos. Cigarros eram de novo acesos, como se muita gente ali -

mulheres e homens - sentisse um grande alívio.

Mikhail aponta para um senhor, com ar de executivo de multinacional.

- Sou advogado, envolvido em processos de separação litigiosa.

- O que é litigiosa? - pergunta alguém da audiência.

- Onde uma das duas pessoas não está de acordo - responde o advogado,

irritado por ter sido interrompido, e com ar de quem acha um absurdo

desconhecerem uma palavra tão simples.

- Continue - diz Mikhail, com uma autoridade que eu jamais seria capaz de reconhecer no rapaz que encontrara em minha tarde de autógrafos.

O advogado obedece:

- Recebi hoje um relatório da firma Human and Legal Resources, baseada

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