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Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:

A Herdeira [em Português]
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Olhou para Elizabeth, sentada na cadeira da mesa, e perguntou:

- Que é que você está fazendo aqui sozinha no escuro?

Tomou-a então nos braços e carregou-a para a cama dela no andar de cima.

Elizabeth ficou acordada quase a noite inteira, pensando na alegria de ser carregada pelo pai. Depois disso, descia todas as noites e se sentava na cadeira do escritório, esperando que ele chegasse e tornasse a carregá-la, mas isso nunca mais aconteceu.

Ninguém falava com Elizabeth sobre a mãe dela, mas havia um belo retrato de corpo inteiro de Patrícia Roffe na sala de recepções e Elizabeth ficava muito tempo a olhá-lo. Em seguida, ia olhar-se ao espelho. Como era feia! Tinham lhe colocado um aparelho nos dentes e ela parecia um monstro. Não era de admirar que o pai não se interessasse por ela.

Adquiriu de repente um apetite insaciável e começou a engordar. Havia chegado a uma conclusão admirável. Se fosse gorda e feia, ninguém iria esperar que ela se parecesse com a mãe. Quando Elizabeth completou doze anos, foi matriculada em uma escola particular no East Side de Manhattan, freqüentada pela aristocracia. Chegava num Rolls-Royce com chofer, caminhava até sua sala de aulas e ali ficava sentada, retraída e calada, sem dar atenção a ninguém. Nunca respondia espontaneamente a uma pergunta.

E, quando era chamada, parecia nunca saber o que dizer.

As professoras em pouco tempo tomaram o hábito de deixá-la de lado.

Conversavam particularmente sobre o caso de Elizabeth e tinham a opinião unânime de que ela era a criança mais mimada que tinham conhecido. Num relatório anual confidencial à direta da escola, a professora de classe de Elizabeth disse o seguinte:

"Não foi possível qualquer espécie de progresso com Elizabeth Roffe. Ela se conserva afastada das colegas e se nega a participar de qualquer atividade de grupo. Não tem amigas na escola. As suas notas não são satisfatórias, mas é difícil dizer se isso acontece porque ela não faz qualquer esforço ou porque não tem capacidade de aprender a matéria. É arrogante e egoísta. Se o pai dela não fosse um dos grandes benfeitores desta escola, eu recomendaria a exclusão desta aluna".

Esse relatório estava a muitos anos-luz da realidade. A verdade era que Elizabeth Roffe não tinha um escudo protetor, nem qualquer espécie de couraça contra a terrível solidão que a engolfava.

Consciente de sua desvalia, tinha medo de fazer amizades para não revelar que não tinha méritos, nem era simpática. Não era arrogante, era de uma timidez quase patológica. Julgava que não pertencia ao mundo de seu pai. Não pertencia a mundo algum. Detestava ser levada para a escola no Rolls-Royce, pois sabia que não merecia isso. Nas aulas, estava a par de todas as perguntas que as professoras faziam, mas não tinha coragem de responder, para não chamar a atenção sobre ela.

Gostava de ler e ficava acordada na cama até altas horas da noite, devorando livros. Sonhava muito e se comprazia nas suas fantasias. Estava em Paris com o pai e, depois de atravessarem o Bois de Boulogne numa carruagem, ele a levava para o escritório, uma enorme sala, mais ou menos do tamanho da Catedral de Saint Patrick. As pessoas começavam a levar papéis para o pai assinar e ele dizia: "Não vêem que estou ocupado? Estou conversando com minha filha Elizabeth". Ela e o pai estavam esquiando na Suíça, descendo uma encosta ao lado um do outro. De repente ele caía e gritava de dor porque quebrava a perna, mas ela dizia: "Não se preocupe, papai. Eu cuidarei de você". Esquiava então até o hospital, onde dizia: "Depressa! Vão socorrer meu pai, que está machucado". Uma dúzia de homens de casacos brancos levavam-no então numa ambulância cintilante, e ela ficava à cabeceira dele, dando-lhe comida na boca. (já então quebrara o braço e não a perna), e aí a mãe entrava no quarto, de algum modo viva, e ele dizia: "Não posso falar com você agora, Patrícia. Elizabeth e eu estamos conversando".

Ou então estava na bela villa de Sardenha e os empregados não estavam em casa. Ela preparava o jantar para o pai, que repetia todos os pratos e ao fim dizia: "Você é a melhor cozinheira do que sua mãe foi, Elizabeth". Todas as cenas com seu pai tinham sempre o mesmo final. A campainha da porta tocava e um homem alto, bem mais alto do que o pai, entrava e a pedia em casamento. O pai então pedia: "Não me deixe, Elizabeth. Eu preciso muito de você". E ela resolvia ficar.

De todas as casas em que Elizabeth se criou, a villa na Sardenha era sua favorita.

Não era de modo algum a maior, mas a mais pitoresca e acolhedora. A própria Sardenha encantava Elizabeth. Era uma ilha impressionante e rochosa, a cerca de cento e cinqüenta milhas marítimas da costa da It lia. Era um maravilhoso conjunto de montanhas, mar e terras verdes. Os seus enormes penhascos vulcânicos tinham irrompido havia milênios do mar primitivo, e a costa se estendia numa imensa meia-lua até onde a vista alcançava, bordada pela franja azul do mar Tirreno.

Para Elizabeth, a ilha tinha cheiros especiais e próprios, o aroma dos ventos do mar e das florestas, bem como da macchia, a flor amarela e branca que Napoleão tinha amado. Havia as moitas de corbeccola, que alcançavam quase dois metros de altura e davam uma frutinha vermelha que tinha gosto de morango, e as guarcias, os gigantescos carvalhos cuja casca era exportada para o continente, onde se faziam com elas rolhas para as garrafas de vinhos.

Gostava de ouvir os rochedos cantantes, as misteriosas e enormes pedras cheias de buracos. Quando o vento soprava nesses buracos, os rochedos emitiam sons fantasmagóricos e tristes, como lamentos de almas penadas. Os ventos sopravam, e Elizabeth ficou conhecendo todos eles: o mistral e o ponente, a tramontana, o grecate e o levante. Havia ventos brandos, ventos impetuosos. O mais temido era o siroco, o vento quente que soprava do Saara.

A Villa Roffe ficava na Costa Esmeralda, acima do Porto Cervo, no alto de um penhasco sobre o mar, escondida entre zimbros e as oliveiras selvagens da Sardenha, que davam azeitonas amargas. Havia uma vista empolgante da baía muito abaixo, em torno da qual se espalhavam pelos montes verdes casas de alvenaria numa mistura desordenada de cores que lembravam um desenho de criança. A villa era de alvenaria, com grandes traves de zimbro, no seu interior. Era construída em vários níveis, com grandes quartos confortáveis, cada qual com sua lareira e a sua varanda. As salas de estar e de jantar tinham grandes janelas que permitiam visão panorâmica da ilha. Uma escada irregular levava aos quatro quartos do andar de cima. A mobília combinava perfeitamente com o ambiente. Havia mesas e bancos rústicos de refeitório e poltronas macias. Diante das janelas, havia cortinas franjadas de la branca, tecidas à mão na ilha.

O piso era revestido de vistosos ladrilhos ceresarda da Sardenha e de outros ladrilhos da Toscana. Nos banheiros e quartos, haviam tapetes de lã da ilha coloridos tradicionalmente com tintas vegetais. A casa era cheia de quadros, uma mistura de impressionistas franceses, grandes mestres italianos e primitivos sardos.

Na entrada, havia retratos de Samuel Roffe e Terenia Roffe, trisavós de Elizabeth.

O que mais agradava a Elizabeth era a sala da torre, sob o telhado inclinado. Subia-se para o segundo andar por uma estreita escada, e a sala servia de escritório a Sam Roffe.

Havia uma grande mesa de trabalho e uma confortável cadeira giratória estofada. Nas paredes viam-se estantes e mapas, muito destes pertencentes ao império Roffe.

Portas envidraçadas se abriam para uma pequena varanda sobre um penhasco abrupto e dali se tinha uma vista deslumbrante. Foi nessa casa, aos treze anos de idade, que Elizabeth descobriu as origens de sua família e pela primeira vez sentiu que era de casa, que era parte de alguma coisa.

Tudo começou no dia em que Elizabeth encontrou o Livro. O pai havia ido a Olbia, e Elizabeth subiu a escada para a sala da torre. Não se interessava pelos livros das estantes, pois sabia havia muito que eles versavam sobre farmacologia e farmacognosia, empresas multinacionais e direito internacional. Tudo era muito pesado e chato. Havia um volume médico em latim intitulado Circa instans, escrito na Idade Média, e outro chamado De matéria médica.

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