Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
– Creio que deixou tudo absolutamente esclarecido – respondeu o médico. – O dia em que ele apareceu tão perturbado deve ter sido aquele em que leu no jornal a notícia da libertação dos cúmplices.
– Exatamente. A história de roubo era simples despistamento.
– Mas, por que não contou tudo?
– Conhecendo a natureza vingativa de seus antigos cúmplices, tentava ocultar a sua verdadeira identidade. O segredo era vergonhoso e ele não tinha coragem de divulgá-lo. Por mais infeliz que estivesse, encontrava-se ainda sob o escudo da lei britânica, e não tenho dúvidas, inspetor, de que o senhor zelará para que, embora o escudo tenha falhado na proteção, a espada da justiça esteja presente para vingar.
Estas foram as circunstâncias singulares que envolveram o paciente interno e o médico de Brook Street. A partir daquela noite, nada mais se soube dos três assassinos, e a Scotland Yard deduziu que se encontravam entre os infelizes passageiros do vapor , que naufragou há alguns anos com toda a tripulação nas costas de Portugal, algumas milhas ao norte do Porto. O processo contra o rapazinho auxiliar do médico não foi adiante por falta de provas e o “Mistério de Brook Street”, como foi chamado, nunca chegou a ser inteiramente revelado ao público.
o intérprete grego
Durante o longo e estreito realcionamento com Sherlock Holmes, nunca ouvi dele nenhuma referência à sua família e muito poucas à infância. Esta reticência de sua parte aumentou a impressão pouco humana que ele me transmitia, a ponto de me surpreender às vezes a observá-lo como um fenômeno isolado, um cérebro sem coração, tão desprovido de simpatia humana quanto fértil em inteligência. Sua aversão às mulheres e pouca inclinação a fazer novas amizades eram típicas de um temperamento seco, mas não tanto quanto sua omissão total de qualquer referência à família. E eu passara a acreditar que era órfão e sem parentes vivos, até que um dia, para minha grande surpresa, ele começou a falar sobre o irmão.
Foi depois do chá, num crepúsculo de verão. A conversa que se desenrolava a esmo, de maneira espasmódica, passando de bastões de golfe às causas da mudança na obliqüidade da eclíptica, enveredou finalmente pela questão do atavismo e das aptidões hereditárias. O assunto em debate era até que ponto um talento específico num indivíduo seria devido à sua ascendência, e até que ponto era conseqüência da educação inicial.
– Diante de tudo o que me disse, no seu caso parece óbvio que sua capacidade de observação e sua facilidade peculiar para a dedução devem-se ao seu próprio treinamento sistemático.
– Até certo ponto – ele respondeu, pensativo. – Meus antepassados pertenciam à nobreza do campo e parecem ter levado a existência normal dos de sua classe. Ainda assim, minha inclinação está nas minhas veias e talvez tenha sido herdada de minha avó, que era irmã de Vernet, o artista francês. A arte no sangue é capaz de assumir as formas mais estranhas.
– Mas como sabe que é hereditária?
– Porque meu irmão Mycroft a possui num grau mais acentuado.
Isso foi novidade para mim. Se houvesse na Inglaterra outro homem com poderes tão especiais, por que nem a polícia nem o público tinham ouvido falar nele? Fiz a pergunta, dando a entender que a modéstia de meu amigo é que o levava a considerar o irmão superior a ele. Holmes riu da sugestão.
– Meu caro Watson, não concordo com os que incluem a modéstia entre as virtudes. Para o lógico, todas as coisas devem ser exatamente o que são, e subestimar-se é tão falso quanto exagerar o próprio talento. Portanto, quando digo que Mycroft tem maior capacidade de observação, pode estar certo de que falo a verdade exata e literal.
– Ele é mais moço que você?
– Sete anos mais velho.
– Como é possível que ele tenha permanecido no anonimato?
– Ele é muito conhecido em seu próprio círculo.
– Onde?
– No Clube Diógenes, por exemplo.
Eu nunca tinha ouvido falar na instituição e minha fisionomia deve ter demonstrado isso, pois Sherlock Holmes tirou o relógio do bolso.
– O Clube Diógenes é uma das mais estranhas sociedades de Londres, e Mycroft, um dos seus membros mais estranhos. Está sempre ali desde 16:45h até 19:40h. São 18 horas, e se você quiser fazer um passeio neste belo anoitecer, eu terei o maior prazer em apresentá-lo a duas curiosidades.
Cinco minutos depois estávamos na rua, caminhando na direção de Regentis Circus.
– Você deve estar admirado porque Mycroft não usa os seus talentos como detetive. Ele é incapaz disso.
– Mas você não disse...!
– Disse que era superior em dedução e observação. Se a arte do detetive começasse e terminasse no raciocínio feito numa poltrona, meu irmão seria o maior criminologista que jamais existiu. Mas não é ambicioso e não tem energia. Não se preocuparia em verificar suas próprias soluções, e iria preferir que o considerassem equivocado a dar-se ao trabalho de provar que estava certo. Levei-lhe muitas vezes um problema e recebi uma explicação que mais tarde foi comprovada. Contudo, ele foi totalmente incapaz de lidar com as questões práticas que devem ser resolvidas antes de se levar o caso à justiça.
– Então não é esta a profissão dele?
– De modo algum. O que para mim é um meio de vida, para ele é um simples de diletante. Tem uma cabeça extraordinária para números e faz auditoria nos livros de alguns departamentos do governo. Mycroft mora em Pall Mall e, todas as manhãs dobra a esquina para ir a Whitehall, e volta à noite. Durante o ano inteiro não faz outro exercício e não é visto em nenhum outro lugar, a não ser no Clube Diógenes, que fica em frente ao seu apartamento.
– Não conheço o nome.
– É bem provável. Há muitos homens em Londres que, por timidez ou por misantropia, rejeitam a companhia de seus semelhantes, mas não são avessos a poltronas confortáveis e às últimas edições dos jornais. Foi para servir a essas pessoas que foi fundado o Clube Diógenes. Ele agrupa os homens menos sociáveis e agrupáveis da cidade. Nenhum membro tem permissão de dar a mínima atenção a qualquer outro. Exceto na Sala dos Estranhos, a conversa não é permitida em nenhuma circunstância, e se três transgressões a essa norma forem levadas ao conhecimento do comitê, o conversador fica sujeito à expulsão. Meu irmão é um dos fundadores e eu mesmo acho muito calmante a atmosfera do clube.
Tínhamos chegado a Pall Mall enquanto conversávamos e enveredamos pela rua a partir de St. James. A certa distância do Carlton, Sherlock parou diante de uma porta e, fazendo sinal para que eu ficasse calado, me fez entrar no vestíbulo. Através do painel de vidro vi uma sala luxuosa, onde um número considerável de homens lia os jornais, cada qual no seu canto. Holmes conduziu-me a um pequeno recinto que dava para Pall Mall e, ausentando-se por um instante, voltou com alguém que só poderia ser seu irmão.
Mycroft Holmes era mais alto e vigoroso do que Sherlock. Seu corpo era robusto, mas o rosto, embora maciço, conservava algo da vivacidade de expressão tão notável em Sherlock. Os olhos, de um cinzento especialmente claro, pareciam manter aquela expressão distante, introspectiva, que eu observava nos do meu amigo quando ele estava utilizando plenamente os seus talentos.
– É um prazer conhecê-lo, senhor – disse ele, estendendo a mão lisa como a nadadeira de uma foca. – Ouço falar de Sherlock em toda parte desde que o senhor se tornou o biógrafo dele. E por falar nisso, Sherlock, esperava que você me consultasse na semana passada a respeito do caso daquela mansão. Achei que seria difícil demais para você.