Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
– O sr. Blessington está mais abalado com o caso do que me parece razoável, embora o assunto seja suficientemente desagradável para abalar a tranqüilidade de qualquer um. Sentou-se chorando numa poltrona e mal consegui que falasse alguma coisa coerente. Por sugestão dele recorri ao senhor, e percebi logo a conveniência disso, porque o incidente era muito estranho, embora ele pareça estar exagerando a sua importância. Se quiserem ir na minha carruagem, poderão ao menos tranqüilizá-lo, ainda que dificilmente se possa esperar que expliquem esse fato extraordinário.
Sherlock Holmes escutou a longa narrativa com uma atenção que mostrava estar profundamente interessado. Sua expressão continuava imperturbável, como sempre, mas as pálpebras caíam mais pesadas sobre os olhos, a fumaça enroscava-se mais espessa ao sair do cachimbo, sublinhando cada um dos estranhos episódios da narrativa do médico. Quando o nosso visitante terminou, Holmes levantou-se sem uma palavra, entregou-me o meu chapéu, apanhou o dele, que estava sobre a mesa, e saímos junto com o dr. Trevelyan. Quinze minutos depois saltávamos diante da residência do médico, em Brook Street, uma daquelas construções sombrias, de fachada lisa, que costumamos associar a uma clínica do West End. Um rapazinho abriu a porta para nós e subimos a escada ampla e bem atapetada.
Mas uma interrupção estranha nos deixou imóveis. A luz do alto da escada apagou-se de repente e na escuridão ouvimos uma voz trêmula gritar:
– Estou com uma pistola e juro que vou disparar se insistirem em subir!
– Isto é um absurdo, sr. Blessington! – gritou o dr. Trevelyan.
– Ah, é o doutor? – disse a voz, num arquejo de alívio. – Mas os outros senhores são de fato quem dizem ser?
Percebemos que, do escuro, ele nos observava atentamente.
– Sim, sim, está bem – disse a voz finalmente. – Podem subir e perdoem as minhas precauções.
Ele tornou a acender a lâmpada a gás que iluminava a escada e nós nos vimos diante de um homem estranho, cuja aparência e voz revelavam extremo abalo nervoso. Era muito gordo, mas aparentemente já fora mais, porque a pele pendia do rosto em bolsas flácidas, lembrando o focinho de um mastim. Sua pele tinha uma cor doentia e o cabelo louro e ralo parecia estar em pé devido à intensidade da emoção. Empunhava uma pistola, que guardou no bolso quando nos aproximamos.
– Boa-noite, sr. Holmes – cumprimentou. – Sou muito grato por ter vindo. Ninguém precisa mais dos seus conselhos do que eu. Suponho que o dr. Trevelyan tenha contado a inexplicável invasão do meu quarto.
– Exatamente – disse Holmes. – Quem são esses dois homens, sr. Blessington, e por que querem prejudicá-lo?
Nervoso, o paciente interno respondeu:
– Ora, é difícil saber. Como espera que eu responda a uma pergunta dessas, sr. Holmes?
– Então não sabe?
– Entrem, por favor. Tenham a bondade de entrar.
E conduziu-nos ao seu quarto, que era amplo e confortavelmente mobiliado.
– Estão vendo aquilo? – disse, apontando para uma grande caixa preta aos pés da cama. – Nunca fui muito rico, sr. Holmes. Só fiz um investimento na vida, como o dr. Trevelyan deve ter contado. Não acredito em banqueiros. Jamais confiaria num banqueiro, sr. Holmes. Aqui entre nós, o pouco que tenho está naquela caixa, de modo que podem imaginar o que significa para mim saber que pessoas desconhecidas invadiram meu quarto.
Holmes olhou para Blessington com seu jeito interrogativo e meneou a cabeça.
– Não posso dar-lhe nenhum conselho quando tenta me enganar.
– Mas já contei tudo.
Virando-lhe as costas com um gesto de aborrecimento, Holmes disse:
– Boa-noite, dr. Trevelyan.
– E não vai me dar nenhum conselho? – exclamou Blessington com a voz trêmula.
– Meu conselho é que diga a verdade, senhor.
Um minuto depois estávamos na rua, voltando a pé para casa. Tínhamos atravessado Oxford Street e estávamos no meio da Harley Street quando consegui extrair uma palavra do meu amigo.
– Lamento tê-lo arrastado para esta missão idiota, Watson – disse finalmente. – No fundo, é um caso interessante.
– Não entendi quase nada – confessei.
– É evidente que há dois homens, talvez mais, porém dois pelo menos, decididos, por algum motivo, a prejudicar esse Blessington. Não tenho a menor dúvida de que tanto na primeira como na segunda ocasião o rapaz entrou no quarto de Blessington, enquanto seu cúmplice, graças a um artifício engenhoso, impedia o médico de interferir.
– E a catalepsia?
– Imitação fraudulenta, Watson, embora eu não ouse sugeri-lo ao nosso especialista. É muito fácil imitar um ataque. Eu mesmo já o fiz.
– E depois?
– Por mero acaso, Blessington havia saído nas duas ocasiões. O motivo da escolha de uma hora tão insólita para a consulta era evidentemente garantir que não houvesse outros pacientes na sala de espera. Acontece que o momento coincidiu com a hora do passeio de Blessington, o que demonstra que não estavam a par de sua rotina diária. É claro que se quisessem apenas roubar, teriam feito ao menos uma tentativa. Além do mais, sei ler nos olhos de um homem quando é pela própria vida que ele teme. É inconcebível que o sujeito tenha feito sem o saber dois inimigos tão vingativos. É certo, portanto, que ele sabe quem são esses homens, mas se cala por motivos pessoais. É possível que amanhã nós o encontremos com uma disposição mais comunicativa.
– Não haverá outra alternativa concebível, por mais grotesca e improvável que seja? – sugeri. – A história do russo que sofre de catalepsia e apareceu acompanhado do filho não seria uma invenção do dr. Trevelyan, que, por motivos pessoais, entrou no quarto de Blessington?
Vi à luz de um lampião que Holmes sorria, divertido com a minha brilhante sugestão.
– Meu caro amigo, foi uma das primeiras soluções que me ocorreram, mas pude comprovar logo a veracidade da história do médico. O rapaz deixou pegadas no tapete da escada, o que me dispensou de pedir para ver as que havia deixado no quarto. Quando lhe disser que os sapatos eram de biqueira quadrada, e não pontuda como os de Blessington, e uns 2,5 centímetros maiores que as do médico, perceberá que não pode haver dúvidas quanto à identidade. Mas vamos dormir agora, e eu ficarei surpreso se não recebermos notícias de Brook Street pela manhã.
A profecia de Sherlock Holmes realizou-se logo, e de maneira dramática. Às 7:30h seguinte, quando o dia começava a clarear, dei com ele ao lado da minha cama, envolto no roupão.
– Há uma carruagem à nossa espera, Watson – ele disse.
– O que aconteceu?
– O caso de Brook Street.
– Novidades?
– Trágicas, mas ambíguas – respondeu, erguendo a veneziana. – Veja –, uma folha de bloco de anotações com um bilhete rabiscado a lápis: “Pelo amor de Deus, venha imediatamente – P. T.” Nosso amigo, o médico, estava em apuros quando escreveu. Vamos, meu caro amigo, porque o chamado é urgente.
Quinze minutos depois estávamos novamente na casa do médico. Ele veio correndo ao nosso encontro, com uma expressão de horror estampada no rosto.
– Que coisa horrível! – exclamou, levando as mãos às têmporas.
– O que aconteceu?
– Blessington suicidou-se!
Holmes assobiou.
– Enforcou-se durante a noite!
Seguimos o médico e entramos no que, evidentemente, era sua sala de espera.
– Nem sei direito o que faço – disse Trevelyan. – A polícia está lá em cima. Estou profundamente chocado.
– Quando o encontrou?
– Ele faz questão que lhe levem uma xícara de chá de manhã bem cedo. Quando a empregada entrou no quarto, por volta das sete horas, o infeliz estava pendurado no meio do aposento. Amarrou uma corda no gancho de onde pendia um lustre pesado e saltou de cima da caixa que nos mostrou ontem.
Holmes ficou imóvel por algum tempo, em profunda meditação.