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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Com sua permissão – disse finalmente –, gostaria de subir e examinar o local.

Subimos os dois, acompanhados pelo médico.

Deparamos com uma cena horrível ao entrar no quarto. Mencionei a impressão de flacidez que Blessington dava. Pendurado no gancho, essa impressão era exagerada e intensificada, a ponto de quase não parecer humano. O pescoço estava esticado como o de uma galinha depenada, fazendo com que o resto do corpo parecesse ainda mais obeso e pouco natural. Vestia apenas a roupa de dormir e os tornozelos inchados e pés desajeitados apareciam, nus, sob o camisolão. Ao lado do corpo, um inspetor de polícia, com expressão atenta, tomava notas num caderninho.

– Ah, sr. Holmes! – ele saudou quando entramos. – Encantado em vê-lo.

– Bom-dia, Lanner. Estou certo de que não vai me considerar um intruso. Soube dos fatos que resultaram neste caso?

– Sim, ouvi alguma coisa.

– Já tem alguma opinião?

– Pelo que vejo, o homem enlouqueceu de medo. A cama foi usada, como vê. Há uma marca profunda deixada pelo corpo. Os suicídios são mais freqüentes por volta das cinco horas. Deve ter sido mais ou menos nessa hora que ele se enforcou. Parece uma coisa deliberada.

– Eu diria que está morto há três horas, a julgar pela rigidez dos músculos – observei.

– Notou algo de estranho no quarto? – perguntou Holmes.

– Encontrei uma chave de parafusos e alguns parafusos no lavatório. Parece que ele fumou bastante durante a noite. Aqui estão quatro pontas de charuto que recolhi na lareira.

– Hum! – fez Holmes. – Encontrou a charuteira dele?

– Não, não encontrei nenhuma.

– Uma caixa de cigarros, neste caso?

– Sim, estava no bolso do casaco.

Holmes abriu-a e cheirou o único charuto que ela continha.

– Este é um Havana e os outros são charutos diferentes, importados pelos holandeses de suas colônias nas Índias Orientais. Vêm em geral envoltos em palha e são mais finos do que qualquer outra marca.

Recolhendo as quatro pontas, examinou-as com sua lente de bolso.

– Dois foram fumados com piteira e dois sem. Dois foram cortados com faca pouco afiada e dois tiveram as extremidades mordidas por dentes excelentes. Não se trata de suicídio, sr. Lanner. É um assassinato a sangue-frio, muito bem planejado.

– Impossível! – exclamou o inspetor.

– Por quê?

– Por que alguém haveria de assassinar um homem de um modo tão grosseiro como enforcamento?

– É o que precisamos descobrir.

– Como conseguiram entrar?

– Pela porta da frente.

– Estava fechada hoje de manhã.

– Então foi fechada depois que eles saíram.

– Como sabe?

– Vi as pegadas deles. Com licença. Daqui a alguns instantes darei novas informações a respeito.

Aproximando-se da porta, examinou a fechadura com seu jeito metódico. Em seguida tirou a chave, que estava do lado de dentro, e examinou-a também. A cama, o tapete, as cadeiras, a lareira, o corpo e a corda foram verificados, um a um. Finalmente deu-se por satisfeito e, com a minha ajuda e a do inspetor, desceu o corpo e colocou-o deitado, coberto com um lençol.

– E a corda? – perguntou.

– Foi tirada daqui – disse o dr. Trevelyan, puxando um rolo de corda que estava embaixo da cama. – Ele tinha um medo mórbido de incêndios e conservava a corda ao seu lado para fugir pela janela, se a escada estivesse em chamas.

– Isso deve ter poupado muito trabalho aos homens – disse Holmes, pensativo. – Sim, os fatos são bem simples e ficarei surpreso se à tarde não conseguir apresentar-lhes também as razões. Vou levar a fotografia de Blessington que está sobre a lareira. Ela pode me ajudar na investigação.

– Mas não nos disse nada – exclamou o médico.

– Não pode haver dúvidas quanto à seqüência dos acontecimentos – falou Holmes. – Eram três homens: o rapaz, o velho e um terceiro, sobre cuja identidade ainda não tenho pistas. Os dois primeiros, não preciso dizer, são os que se fizeram passar pelo conde russo e seu filho, de modo que podemos fazer dos dois uma descrição completa. Foram introduzidos pelo cúmplice que estava na casa. Permita que lhe dê um conselho, inspetor: prenda o auxiliar que, pelo que soube, está no emprego há pouco tempo, não é, doutor?

– Ninguém sabe onde está o diabrete! – disse o dr. Trevelyan. – A criada e a cozinheira já estiveram à procura dele.

Holmes deu de ombros.

– Ele desempenhou um papel sem importância neste drama. Depois que os três subiram a escada na ponta dos pés, o mais velho na frente, seguido do mais moço, com o desconhecido atrás...

– Meu caro Holmes! – exclamei.

– Não pode haver dúvidas quanto à superposição das pegadas. Tive a vantagem de poder examiná-las ontem à noite. Eles subiram até o quarto do sr. Blessington, cuja porta encontraram trancada. Mas, com a ajuda de um arame, forçaram a fechadura. Mesmo sem a lente perceberão, pelos arranhões neste recorte da chave, que foi arrombada.

– Depois de entrarem no quarto, a primeira providência deve ter sido amordaçar o sr. Blessington. Talvez ele estivesse adormecido, ou então paralisado de terror, incapaz de gritar. As paredes são grossas e é possível que seu grito, se chegou a soltá-lo, não tenha sido ouvido.

– Depois de o amarrarem, é evidente que houve algum tipo de conferência. Provavelmente algo parecido com um processo judicial. Deve ter durado algum tempo, pois os charutos foram fumados então. O mais velho sentou-se naquela cadeira de vime. Foi ele quem usou a piteira. O mais moço sentou-se ali e deixou cair um pouco de cinza no camiseiro. O terceiro ficou andando de um lado para outro. Acho que Blessington permaneceu sentado na cama, mas não tenho certeza absoluta.

– A reunião terminou com o enforcamento de Blessington. O caso foi preparado com tanta antecedência que, segundo creio, eles trouxeram algum bloco ou polia que servisse de patíbulo. Aquela chave de parafusos e os parafusos serviriam para fixá-lo, eu acho. Ao notarem o gancho, o trabalho foi poupado, naturalmente. Quando terminaram a tarefa, eles saíram, e a porta foi trancada pelo cúmplice.

Ouvimos com o mais profundo interesse o relato dos acontecimentos daquela noite, que Holmes deduziu a partir de indícios tão sutis e minúsculos que, mesmo depois de apontados por ele, mal conseguíamos acompanhá-lo no raciocínio. O inspetor saiu logo a fim de investigar o paradeiro do auxiliar, enquanto Holmes e eu voltávamos a Baker Street para tomar o café-da-manhã.

– Estarei de volta às 15 horas – disse quando terminamos a refeição. – O inspetor e o médico me encontrarão aqui a essa hora, quando espero ter esclarecido qualquer ponto obscuro que o caso ainda apresente.

Nossos visitantes chegaram na hora marcada, mas o meu amigo só apareceu quando eram 15:45h. Sua expressão dizia que tudo havia corrido bem.

– Alguma novidade, inspetor?

– Pegamos o garoto.

– Excelente. E eu peguei os homens.

– Pegou os homens!? – nós três exclamamos.

– Bem, pelo menos descobri a identidade deles. O que dizia se chamar Blessington é, como eu suspeitava, bastante conhecido da polícia, assim como os seus assassinos. Seus nomes são Biddle, Hayward e Moffat.

– A gangue que assaltou o Banco Worthington! – exclamou o inspetor.

– Exatamente – confirmou Holmes.

– E Blessington era Sutton?

– Precisamente.

– Então, tudo fica claro como cristal! – disse o inspetor.

Mas Trevelyan e eu nos entreolhamos espantados.

– Devem lembrar do grande roubo ao banco de Worthington – disse Holmes. – Havia cinco homens envolvidos no caso, estes quatro e um quinto, chamado Cartwright. Tobin, o vigia, foi assassinado, e os ladrões fugiram com 7 mil libras. Isto aconteceu em 1875. Os cinco foram presos, mas as provas contra eles não eram conclusivas. Blessington, ou Sutton, o pior da quadrilha, delatou os outros. Baseado em seu depoimento, Cartwright foi enforcado e os outros três pegaram 15 anos cada. Quando foram postos em liberdade, há dias, alguns anos antes de completarem a sentença, saíram imediatamente à procura do traidor para vingar a morte do companheiro. Por duas vezes tentaram pegá-lo, mas não conseguiram. Na terceira tiveram sorte. Há mais alguma coisa a ser explicada, dr. Trevelyan?

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