Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Não, consegui resolvê-lo – disse meu amigo, sorrindo.
– Foi Adams, naturalmente.
– Sim, foi Adams.
– Eu tinha certeza desde o início.
Os dois sentaram-se perto da janela do clube.
– Este é o lugar ideal para quem quiser estudar a humanidade – observou Mycroft. – Veja que tipos magníficos! Repare naqueles dois homens que estão caminhando na nossa direção, por exemplo.
– O marcador de bilhar e o outro?
– Exatamente. O que acha do outro?
Os dois haviam parado diante da janela. Marcas de giz sobre o bolso do colete eram os únicos sinais de bilhar que notei num deles. O outro era um homem baixinho e moreno, chapéu inclinado para trás e vários pacotes debaixo do braço.
– Um velho soldado, parece-me – disse Sherlock.
– E recentemente reformado – observou o irmão.
– Serviu na Índia, pelo que vejo.
– Como oficial não-comissionado.
– Artilharia Real, imagino – disse Sherlock.
– E viúvo.
– Com filhos, meu caro rapaz. Com filhos.
– Ora, isso é demais – protestei, rindo.
– Não é difícil dizer que um homem com aquele porte, expressão autoritária e tez curtida de sol é um soldado, mais que um soldado raso, e recentemente chegado da Índia.
– O fato de ter deixado o Exército há pouco tempo é indicado por usar ainda “botas de munição”, como são chamadas – observou Mycroft.
– Não tem o andar do cavalariano, mas usava o chapéu inclinado para o lado, como demonstra a pele mais clara naquela parte do rosto. O peso indica que não podia ser sapador. Serviu na artilharia.
– E o luto fechado revela que perdeu alguém muito querido. O fato de estar fazendo compras indica que foi a mulher. Esteve comprando coisas para os filhos, como vê. Há um chocalho, o que mostra que um deles é muito pequeno. É provável que a mulher tenha morrido ao dar à luz. O fato de levar debaixo do braço um livro ilustrado indica que há uma outra criança na história.
Comecei a perceber o que meu amigo queria dizer ao mencionar os talentos mais perspicazes do irmão. Olhando para mim, ele sorriu. Mycroft aspirou rapé tirado de uma caixinha de tartaruga e sacudiu os grãos que caíram no casaco, agitando um grande lenço de seda vermelha.
– Sherlock, tenho algo bem ao seu estilo, um problema singular que me foi apresentado. Não tive disposição para acompanhá-lo, a não ser de maneira muito superficial, mas deu-me uma base para especulações muito agradáveis. Se estiver interessado nos fatos...
– Será um prazer, meu caro Mycroft.
O irmão rabiscou um bilhete numa folha de seu caderninho de anotações e, tocando a campainha, entregou-o ao garçom.
– Pedi ao sr. Melas para vir até aqui. Ele mora um andar acima do meu. Conheço-o ligeiramente, e por isso ele me procurou quando se viu em apuros. O sr. Melas é de origem grega, segundo eu soube, e um lingüista extraordinário. Ganha a vida como intérprete em tribunais e também como guia de orientais abastados que se hospedam nos hotéis de Northumberland Avenue. Vou deixar que ele conte à sua maneira a experiência extraordinária que viveu.
Minutos depois apareceu um homem baixo e gordo, cuja tez morena e cabelos pretos indicavam sua origem sulina, embora seu modo de falar fosse o de um inglês culto. Trocou um caloroso aperto de mãos com Sherlock Holmes, e seus olhos escuros cintilaram de prazer ao perceber que o especialista estava ansioso por ouvir a sua história.
– Não acho que a polícia acredite em mim, palavra – disse em tom lamentoso. – Só porque nunca ouviram falar nisso, pensam que não possa existir. Mas eu não ficarei descansado enquanto não descobrir que fim levou o pobre homem com o rosto emplastrado de esparadrapo.
– Conte com minha total atenção – disse Sherlock.
– Hoje é a noite de quarta-feira – disse o sr. Melas. Então, foi na segunda à noite, há dois dias apenas, que tudo aconteceu. Sou intérprete, como o meu vizinho talvez tenha dito. Traduzo todas as línguas – ou quase todas –, mas como sou grego de origem e tenho nome grego, é a este idioma em particular que me associam. Há anos sou o principal intérprete do idioma em Londres e muito conhecido nos hotéis.
– Sou procurado com freqüência nas horas mais estranhas. São estrangeiros em dificuldades, ou viajantes que chegam tarde e precisam dos meus serviços. Não me surpreendi, portanto, quando na segunda-feira à noite um certo sr. Latimer, rapaz muito bem-vestido, procurou-me na minha casa, pedindo que o acompanhasse no cabriolé que aguardava à porta. Um amigo grego fora visitá-lo a negócios, explicou, e como só sabia falar a sua língua, os serviços de um intérprete eram indispensáveis. Deu-me a entender que a casa ficava um tanto distante, em Kensington, e parecia muito apressado, fazendo-me entrar no cabriolé assim que chegamos à rua.
– Disse cabriolé, mas logo me perguntei se não estaria numa carruagem. O veículo era mais espaçoso que a maioria dos que desgraçadamente circulam em Londres e o estofamento, embora em mau estado, era de boa qualidade. O sr. Latimer sentou-se na minha frente e partimos, atravessando Charing Cross e enveredando pela Shaftesbury Avenue. Estávamos em Oxford Street quando me arrisquei a fazer uma observação a respeito do caminho tortuoso que fazíamos para chegar a Kensington, mas as palavras morreram-me nos lábios diante da conduta extraordinária do meu companheiro.
– Começou exibindo um cajado enorme carregado no castão com chumbo tirado do bolso e movimentou-o de um lado para outro diversas vezes, como se quisesse testar seu peso e na força. Em seguida, sem uma palavra, colocou-o no banco ao seu lado. Depois levantou os vidros dos dois lados e eu descobri, espantado, que estavam recobertos de jornal para impedir que eu olhasse pelas janelas.
– “Lamento tirar-lhe a visão, sr. Melas. O fato é que não tenho intenção de permitir que veja o local para onde estamos indo. Seria inconveniente para mim se conseguisse encontrar novamente o caminho.”
– Como imaginam, fiquei abismado ao ouvir essas palavras.
Meu companheiro era um homem forte, de ombros largos e, mesmo sem a arma, eu não teria a menor chance, se lutasse com ele.
– “É uma conduta extraordinária, sr. Latimer”, gaguejei. “Deve saber que o que está fazendo é totalmente ilegal.”
– “É uma liberdade que tomo, sem dúvida, mas será compensado. Mas devo preveni-lo, sr. Melas, que se a qualquer momento desta noite tentar dar um alarme, ou fizer alguma coisa contrária aos meus interesses, descobrirá que corre perigo. Peço que não esqueça que ninguém sabe onde está e que, nesta carruagem ou na minha casa, acha-se em meu poder.”
– As palavras foram pronunciadas com serenidade, mas em tom áspero e bastante ameaçador. Fiquei calado, perguntando a mim mesmo qual seria o motivo para me raptarem de modo tão extraordinário. Fosse qual fosse, ficara evidente que era inútil resistir. Restava-me esperar para ver o que aconteceria.
– Viajamos durante quase duas horas sem que eu tivesse a menor pista do nosso destino. Às vezes o ruído de pedras indicava um caminho calçado, outras vezes o deslizar suave e silencioso sugeria asfalto, mas, além dessa variação de sons, não havia nada que me ajudasse a descobrir onde estávamos. O papel que recobria os vidros não deixava passar a luz e uma cortina azul fora puxada sobre o vidro dianteiro. Eram 19:15h quando saímos de Pall Mall e meu relógio mostrava que eram 21:10h quando finalmente a carruagem parou. Meu companheiro arriou o vidro e vi de relance uma porta em arco, baixa, sobre a qual ardia uma lâmpada. Fui tirado às pressas do veículo, enquanto a porta se abria e eu me vi no interior da casa, captando a vaga impressão de um gramado e árvores de ambos os lados da entrada. Mas eu não saberia dizer se era um jardim particular ou se estávamos no campo.
– Havia uma lâmpada colorida no interior com uma chama tão baixa que eu mal conseguia enxergar, a não ser que estava num vestíbulo amplo com quadros nas paredes. Nessa luz fraca percebi que a pessoa que abrira a porta era um homenzinho de meia-idade, de ombros caídos e expressão zangada. Quando se virou para nós, um reflexo de luz revelou que usava óculos.