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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Você me acompanhou maravilhosamente! – exclamei.

– Até aí seria difícil errar. Mas seus pensamentos voltaram a Beecher e você o olhou com atenção, como se estudasse o caráter estampado na fisionomia. E então franziu as pálpebras, continuando a olhar firme, ar pensativo. Recordava os incidentes da carreira de Beecher. Eu sabia muito bem que você seria incapaz de fazer isso sem pensar na missão que ele empreendeu a favor do norte, durante a Guerra Civil, porque lembro-me de tê-lo ouvido manifestar profunda indignação pela maneira como ele foi recebido pelas camadas mais turbulentas do nosso povo. Você tinha sentimentos tão exaltados sobre isso que eu sabia que não pensaria em Beecher sem se lembrar disso também. Quando, instantes depois, vi seus olhos se afastarem do quadro, suspeitei que sua mente se voltara para a Guerra Civil e, ao observar-lhe o traço severo dos lábios, os olhos brilhantes e as mãos contraídas, tive certeza de que estava pensando na valentia demonstrada pelas duas facções naquela luta desesperada. Mas, em seguida, você ficou triste, sacudiu a cabeça. Estava pensando nos sofrimentos, no horror e no desperdício de vidas. Sua mão deslizou até o antigo ferimento e um sorriso surgiu nos seus lábios, o que indicou que você estava pensando no lado ridículo desse método de resolver questões internacionais. A essa altura, concordei com você que era absurdo, e tive o prazer de descobrir que minhas deduções estavam corretas.

– Totalmente! E, embora você tenha explicado, confesso que continuo tão abismado quanto antes.

– Foi muito superficial, meu caro Watson, asseguro-lhe. Eu não me intrometeria, chamando sua atenção, se você não tivesse revelado certa incredulidade no outro dia. Mas a noite trouxe uma brisa. O que diz de um passeio por Londres?

Eu estava cansado da nossa sala acanhada e concordei com prazer. Durante três horas passeamos juntos, observando o eterno caleidoscópio da vida que fluía e refluía em Fleet Street e no Strand. A conversa característica de Holmes, com sua atenta observação de detalhes e sutil capacidade de dedução, me divertiu e me fascinou.

Eram 22 horas quando voltamos a Baker Street. Uma carruagem esperava à nossa porta.

– Hum! Carruagem de médico. Clínico geral, pelo que vejo – observou Holmes. – Não clinica há muito tempo, mas tem tido muito trabalho. Veio consultar-nos, eu imagino! Ainda bem que estamos de volta!

Eu tinha bastante conhecimento dos métodos de Holmes para acompanhar seu raciocínio e verificar que a natureza e o estado dos vários instrumentos médicos na cesta de vime que pendia da lanterna no interior do veículo haviam fornecido os detalhes para a rápida dedução. A luz na nossa janela indicava que o visitante tardio era, de fato, para nós. Curioso para saber o que teria levado um colega de profissão à nossa casa a essa hora, acompanhei Holmes até a sala.

Um homem pálido, de rosto comprido e suíças louras, levantou-se da poltrona junto à lareira quando entramos. Não devia ter mais de 33 ou 34 anos, mas a expressão abatida e a cor doentia da pele revelavam uma vida que havia solapado suas forças, roubando-lhe a juventude. Tinha um jeito nervoso e tímido, como o de uma pessoa sensível. A mão branca e magra que apoiou na lareira ao levantar-se era mais de um artista que de um cirurgião. Vestia-se com discrição em tons escuros – casaca preta, calça cinzenta, com um toque de cor na gravata.

– Boa-noite, doutor – disse Holmes amavelmente. – Ainda bem que está esperando há poucos minutos apenas.

– Então falou com o cocheiro?

– Não, a vela da mesinha me mostrou. Sente-se, por favor, e diga em que posso servi-lo.

– Meu nome é dr. Percy Trevelyan e moro em Brook Street, 403.

– Não é o autor de uma monografia sobre lesões nervosas obscuras? – eu perguntei.

Seu rosto pálido corou de prazer ao verificar que eu conhecia seu trabalho.

– É tão raro ouvir falar neste trabalho que achei que ele estava completamente esquecido. Os editores me deram informações desanimadoras sobre as vendas. Suponho que seja médico.

– Cirurgião aposentado do Exército.

– Meu sempre foram as doenças nervosas. Gostaria de transformá-lo numa especialidade exclusiva, mas é claro que de início é preciso aceitar o que aparece. Mas isto não vem ao caso, sr. Sherlock Holmes. Sei que seu tempo é precioso. O fato é que uma seqüência de acontecimentos muito estranhos vem ocorrendo ultimamente na minha casa, em Brook Street, e esta noite eles chegaram a tal ponto que achei impossível esperar mais tempo para pedir seu conselho e sua ajuda.

Sherlock Holmes sentou-se e acendeu o cachimbo.

– Pode dispor de ambos. Faça um relato detalhado dos fatos que o perturbaram, por favor.

– Um ou dois são tão banais que me envergonho de mencioná-los – respondeu o dr. Trevelyan. – Mas o caso é tão inexplicável e o aspecto que assumiu recentemente é tão complicado que contarei tudo, e então avaliará o que é essencial e o que não é.

– Sou obrigado, para começar, a falar um pouco a respeito de meus estudos universitários. Estudei na Universidade de Londres e espero que não pense que estou me gabando indevidamente se disser que minha carreira de estudante foi considerada pelos professores bastante promissora. Depois de me formar, continuei a dedicar-me à pesquisa, ocupando uma função secundária no King’s College Hospital. Tive a sorte de atrair bastante interesse com minha pesquisa sobre a patologia da catalepsia, e finalmente conquistando o prêmio Bruce Pinkerton e uma medalha pela monografia sobre lesões nervosas, à qual o seu amigo acaba de aludir. Não estarei exagerando se disser que, na época, era opinião geral que eu faria uma bela carreira.

– Mas o grande obstáculo era a falta de capital. Compreenderão logo que um especialista de objetivos elevados é obrigado a começar numa das ruas de Cavendish Square, pagando aluguéis caros e despesas de instalação. Além dessa despesa preliminar, precisará manter-se durante alguns anos e alugar carruagem e cavalo apresentáveis. Tudo isso estava além das minhas possibilidades. Limitava-me a esperar que, fazendo economia, em dez anos eu teria o suficiente para montar a clínica desejada. Mas, de repente, um incidente inesperado abriu-me novas perspectivas.

– Trata-se da visita de um cavalheiro chamado Blessington, que me era completamente desconhecido. Entrou na minha sala certa manhã e foi direto ao assunto.

– “É Percy Trevelyan, que fez uma carreira tão destacada e ganhou um prêmio recentemente?”

– Respondi que sim.

– “Responda com franqueza”, ele continuou, “pois descobrirá que é do seu interesse. Tem inteligência para fazer sucesso. Mas tem tato também?”

– Não pude deixar de sorrir diante daquela pergunta inesperada.

– “Espero ter o suficiente.”

– “Maus hábitos? Inclinação para a bebida?”

– “Ora, meu senhor!”, exclamei.

– “Tem razão! Não se preocupe, mas eu precisava perguntar. Com todas essas qualidades, por que não está clinicando?”

– Dei de ombros.

– “Vamos, fale!”, disse, com sua maneira expansiva. “É a velha história. Muita inteligência e pouco dinheiro, não é? O que diria se eu o fizesse começar em Brook Street?”

– Olhei para ele , espantado.

– “É em meu benefício, não no seu!”, exclamou. “Falarei com toda a franqueza e, se lhe convier, para mim será ótimo. Tenho alguns milhares para investir e decidi fazê-lo na sua pessoa.”

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