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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Um após outro penetramos no salão que era, evidentemente, aquele em que havia estado o sr. Melas. O inspetor acendeu a lanterna e vimos as duas portas, a cortina, a lâmpada e a armadura de malha japonesa que ele havia descrito. Na mesa viam-se dois copos, uma garrafa vazia de e osrestos de uma refeição.

– O que é isto? – perguntou Holmes de repente.

Imóveis, ouvimos um som baixo, semelhante a um gemido, vindo de algum lugar acima de nossas cabeças. Holmes correu para a porta e foi até o vestíbulo. O ruído vinha do segundo andar. Ele subiu a escada correndo, seguido de perto pelo inspetor e por mim, enquanto Mycroft nos acompanhava tão depressa quanto seu corpo volumoso lhe permitia.

No segundo andar ficamos diante de três portas. Era da porta do meio que saíam os sons sinistros, que às vezes passavam de um murmúrio rouco a um lamento agudo. Estava trancada, mas com a chave do lado de fora. Holmes abriu-a e entrou correndo. Mas saiu no mesmo instante, com a mão na garganta.

– É carvão! – ele gritou. – Vamos esperar um pouco. Ele se dissipará.

Espiando para dentro, vimos que a única luz existente no quarto provinha de uma chama azul, baça, que ardia num pequeno tripé colocado no centro. A chama lançava um círculo lívido e estranho sobre o assoalho e, nas sombras mais adiante, vislumbramos duas silhuetas agachadas contra a parede. Pela porta aberta saía um horrível cheiro venenoso, que nos fez arquejar e tossir. Holmes correu para o alto da escada, a fim de aspirar ar fresco e, entrando novamente no quarto, escancarou a janela e atirou o tripé ao jardim.

– Entraremos dentro de um minuto – arquejou, saindo outra vez às pressas. – Onde encontraremos uma vela? Duvido que seja possível riscar um fósforo naquele ar. Mantenha a lanterna perto da porta e nós os tiraremos de lá, Mycroft. Agora!

Entramos correndo, agarramos os homens envenenados e os arrastamos para o patamar. Estavam ambos de lábios azulados e inconscientes, rostos inchados e congestionados, olhos saltando das órbitas. As fisionomias estavam tão alteradas que, se não fosse pela barba preta e a silhueta atarracada, não teríamos reconhecido o intérprete grego, que se despedira de nós horas antes no Clube Diógenes. Tinha mãos e pés amarrados e sobre um olho havia marcas de um golpe violento. O outro homem, amarrado de modo idêntico, era alto e estava no último estágio da magreza. Tinha no rosto várias marcas de esparadrapo formando um desenho grotesco. Parou de gemer quando o deitamos no chão, e uma olhada de relance para ele mostrou-me que, pelo menos no seu caso, havíamos chegado tarde demais. O sr. Melas, porém, estava vivo, e em menos de uma hora, com a ajuda de amônia e , tive a satisfação de vê-lo abrir os olhos e saber que minha mão o havia trazido de volta do vale sombrio onde todos os caminhos se encontram.

A história que ele contou foi simples e confirmou as minhas deduções. O visitante, ao entrar em casa, havia tirado da manga um punhal, aterrorizando-o de tal modo com a idéia de morte instantânea e inevitável, que fora fácil seqüestrá-lo pela segunda vez. De fato, era quase hipnótico o efeito que o bandido cheio de risos exercera sobre o infeliz lingüista, pois só falava nele de mãos trêmulas e faces pálidas. Fora levado rapidamente a Beckenham, atuando como intérprete na segunda entrevista, mais dramática ainda que a primeira. Os dois ingleses ameaçaram o prisioneiro de morte imediata se ele não concordasse com suas exigências. Finalmente, vendo-o indiferente a todas as ameaças, jogaram-no de volta à prisão. Depois de acusarem Melas de traição, por causa dos anúncios publicados em todos os jornais, tinham-no atordoado com um golpe de bengala. Ele não se lembrava de mais nada até nos ver inclinados sobre ele.

Este foi o caso estranho do Intérprete Grego, cuja explicação continua envolta em certo mistério. Conseguimos descobrir, comunicando-nos com o senhor que respondeu ao anúncio, que a infeliz senhora pertencia a uma rica família grega e que estava na Inglaterra em visita a amigos. Nessa ocasião conhecera um rapaz chamado Harold Latimer, que exercera tamanha influência sobre ela a ponto de convencê-la a fugir com ele. Os amigos, escandalizados com o fato, tinham se limitado a informar o irmão em Atenas e lavado as mãos. O irmão, chegando à Inglaterra, cometera a imprudência de se colocar à mercê de Latimer e de seu sócio, chamado Wilson Kemp, um homem de péssimos antecedentes. Os dois, ao descobrirem que, por ignorar o idioma, ele estava indefeso em suas mãos, mantiveram-no prisioneiro, tentando, por meio de violência e de fome, obrigá-lo a ceder-lhes os bens dele próprio e da irmã. Mantinham-no na casa sem o conhecimento da moça, e o esparadrapo no rosto tinha o objetivo de dificultar sua identificação, caso ela chegasse a vê-lo. Mas a percepção feminina reconhecera-o imediatamente através do disfarce quando, por ocasião da visita do intérprete, encontrara-o pela primeira vez. Mas a pobre moça também era prisioneira, pois não havia mais ninguém na casa, exceto o empregado que servia de cocheiro e sua mulher, ambos instrumentos dos conspiradores. Ao verem que o segredo fora revelado e que o prisioneiro não seria coagido, os dois bandidos, levando a moça, abandonaram em poucas horas a casa alugada, depois de se vingarem, segundo julgavam, do homem que os havia desafiado e daquele que os traíra.

Meses depois, recebemos de Budapeste um estranho recorte de jornal. Dizia que dois ingleses que viajavam com uma mulher haviam morrido de maneira trágica, ambos apunhalados. A polícia húngara achava que haviam brigado e infligido um ao outro ferimentos mortais. Holmes, contudo, tinha uma opinião diferente e afirma até hoje que se conseguíssemos encontrar a moça grega, saberíamos como haviam sido vingados os males feitos a ela e ao irmão.

o tratado naval

O mês de Julho subseqüente ao meu casamento tornuou-se memorável graças a três casos interessantes em que tive o privilégio de acompanhar Sherlock Holmes e estudar seus métodos. Eles estão registrados em minhas anotações com os seguintes títulos: “A aventura da segunda mancha”, “A aventura do tratado naval” e “A aventura do capitão cansado”. O primeiro envolve interesses tão importantes e incrimina tantas famílias destacadas do reino que durante muitos anos será impossível trazê-lo a público. Mas nenhum caso em que Holmes se envolveu mostrou com tanta nitidez o valor de seus métodos analíticos ou impressionou tão profundamente as pessoas que trabalharam com ele. Ainda conservo um relatório fiel da entrevista em que ele demonstrou os fatos verdadeiros do caso a Dubugue, da polícia de Paris, e a Fritz von Waldbaun, o conhecido perito de Dantzig, que haviam desperdiçado suas energias em questões secundárias. Mas só depois da chegada do novo século a história poderá ser revelada sem risco. Enquanto isso, passo ao segundo da minha lista, que também prometia, a certa altura, ser de importância nacional, e foi marcado por vários incidentes que lhe dão um caráter especial.

Em meus tempos de escola, eu fora muito amigo de um garoto chamado Percy Phelps, que tinha mais ou menos a minha idade, embora estivesse duas turmas à minha frente. Percy era um garoto muito inteligente. Arrebatou todos os prêmios que a escola distribuía, acabando por conquistar uma bolsa de estudos que o levou a continuar sua carreira triunfante em Cambridge. Tinha excelentes relações e, mesmo quando não passávamos de garotinhos, sabíamos que o irmão da mãe dele era lorde Holdhurst, o grande político conservador. Esse importante parentesco de pouco lhe serviu na escola; pelo contrário, achávamos emocionante persegui-lo no recreio, agredindo-o nos tornozelos com um bastão de críqueteMas as coisas mudaram quando ele ingressou no mundo exterior. Ouvi falar vagamente de seus talentos e, graças à influência que o protegia, conquistou um bom cargo no Foreign Office. Daí em diante esqueci-me completamente dele, até que esta carta recordou-me sua existência:

Briarbrae, Woking

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