Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– “Mas por quê?”
– “É como qualquer outra especulação e mais segura que a maioria.”
– “O que é que eu devo fazer, neste caso?”
– “Digo já. Eu alugo a casa, providencio as instalações, pago os criados e administro tudo. De sua parte, basta ocupar a cadeira do consultório. Eu lhe darei dinheiro para as despesas e tudo o mais. Depois me dará 3/4 do que ganhar e ficará com 1/4 para si mesmo.”
– Foi esta a estranha proposta que me apresentou o homem chamado Blessington, sr. Holmes. Não pretendo cansá-lo com o relato da negociação. A história terminou com a minha mudança para a casa no ,* e ali comecei a clinicar nas condições que ele havia sugerido. Ele veio morar comigo na condição de paciente interno. Tinha o coração fraco e precisava de acompanhamento médico constante. Transformou as duas melhores peças do primeiro andar em sala e quarto para ele. Era um homem de hábitos singulares, não gostava de visitas e raramente saía. Apesar da vida irregular, em certo sentido era a própria regularidade. Todas as noites, à mesma hora, entrava no consultório, examinava os livros, separava 5 xelins e 3 pence de cada libra que eu ganhava e levava o restante para o cofre que havia no seu quarto.
– Posso afirmar que ele nunca teve motivo para lamentar a especulação. Desde o início foi um sucesso. Alguns casos bons e a reputação que eu havia adquirido no hospital produziram êxito imediato e nos últimos dois anos eu o tornei um homem rico.
– Narrei minha história e minhas relações com o sr. Blessington. Só falta contar o que aconteceu para me trazer aqui esta noite.
– Algumas semanas atrás, o sr. Blessington veio me procurar aparentemente muito agitado. Falou de um roubo que teria ocorrido no West End e, lembro-me bem, estava desnecessariamente agitado, afirmando que naquele dia mesmo mandaria colocar fechaduras mais resistentes nas portas e janelas. Passou uma semana nesse estranho estado de agitação, olhando constantemente pelas janelas e deixando de fazer o curto passeio que em geral precedia o seu jantar. Tive a impressão de que estava mortalmente apavorado com alguém ou alguma coisa, mas quando o interroguei a respeito, mostrou-se tão grosseiro que fui obrigado a mudar de assunto. Com o passar dos dias, o temor começou a diminuir, e ele já voltara aos antigos hábitos, quando um novo acontecimento deixou-o no estado de prostração em que está agora.
Aconteceu o seguinte. Há dois dias recebi a carta que vou ler. Não trazia data nem endereço.
Um nobre russo, atualmente residindo na Inglaterra, gostaria de solicitar a atenção profissional do dr. Percy Trevelyan. Há anos é vítima de ataques de catalepsia, mal em que o dr. Trevelyan é uma autoridade reconhecida. Ele pretende visitá-lo amanhã, às 18:15h, caso o dr. Trevelyan julgue de sua conveniência.
– A carta interessou-me profundamente porque a principal dificuldade no estudo da catalepsia é a raridade da doença. Podem compreender por que eu estava no consultório na hora marcada, quando o assistente mandou o paciente entrar.
– Era um homem idoso, magro, quieto e vulgar. Não correspondia de maneira alguma à idéia que geralmente se faz de um nobre russo. Fiquei ainda mais impressionado com a aparência de seu companheiro. Era um rapaz alto e de bela figura, fisionomia agressiva e fechada, torso e membros de um Hércules. Segurava o braço do outro quando entraram e ajudou-o a sentar-se numa cadeira com cuidados que não eram de se esperar em alguém com aquela aparência.
– “Perdoe a minha presença, doutor”, disse com ligeiro sotaque. “Este é meu pai e sua saúde é motivo de grande preocupação para mim.”
– Fiquei comovido com aquela ansiedade filial.
– “Gostaria de assistir à consulta?”, perguntei.
– “De modo algum!”, exclamou, com um gesto de horror. “É muito penoso para mim. Se assistisse a mais um ataque de meu pai, tenho certeza de que eu não sobreviveria a ele. Meu sistema nervoso é excepcionalmente sensível. Com sua permissão, ficarei na sala de espera enquanto o examina.”
– Concordei, naturalmente, e o rapaz se retirou. O paciente e eu mergulhamos no debate do seu caso, enquanto eu fazia anotações minuciosas. Ele não brilhava pela inteligência e suas respostas eram às vezes obscuras, o que atribuí ao limitado conhecimento do nosso idioma. De repente, enquanto eu escrevia, ele deixou de responder às minhas perguntas e, ao erguer a cabeça, tive um choque ao vê-lo sentado muito teso na cadeira, com expressão totalmente vazia e feições rígidas. Estava sofrendo um ataque da sua misteriosa doença.
– Meu primeiro impulso, como acabo de dizer, foi de compaixão e horror. O segundo, lamento dizer, foi de satisfação profissional. Verifiquei a pulsação e a temperatura do paciente, testei a rigidez muscular e os reflexos. Nada havia de pronunciadamente excepcional em qualquer desses aspectos, o que estava de acordo com minha experiência prévia. Eu havia obtido bons resultados em casos assim com a inalação de nitrato de amido, e aquela oportunidade parecia excelente para testar as suas virtudes. O vidro estava no laboratório, de modo que deixei o paciente sentado na cadeira e corri para buscá-lo. Levei algum tempo para encontrá-lo, talvez uns cinco minutos – e então voltei ao consultório. Imaginem o meu espanto ao encontrar a sala vazia. O paciente havia desaparecido!
– Claro que meu primeiro impulso foi correr à sala de espera. O filho também havia desaparecido. A porta que dava para o vestíbulo estava fechada, mas não trancada. Meu ajudante é um rapazinho novo e nem um pouco brilhante. Espera embaixo e sobe correndo a escada para levar os clientes até a porta quando toco a campainha no consultório. Ele não tinha ouvido nada e o caso virou um verdadeiro mistério. O sr. Blessington voltou do passeio pouco depois, mas não contei o que havia acontecido; para falar a verdade, habituei-me ultimamente a me comunicar o menos possível com ele.
– Bem, pensei que não tornaria a ver o russo e o filho. Imaginem a minha surpresa quando na tarde de hoje, à mesma hora, os dois entraram no meu consultório, exatamente como haviam feito na véspera.
– “Devo-lhe mil desculpas pelo desaparecimento repentino de ontem, doutor”, disse o paciente.
– “Confesso que fiquei bastante surpreso”, repliquei.
– “O fato é que quando me recupero desses ataques, nunca me lembro do que aconteceu antes. Quando voltei a mim, achei que estava numa sala estranha e saí para a rua meio tonto na hora em que o senhor estava ausente.”
– “E eu, vendo meu pai sair do consultório, pensei que a consulta tinha terminado. Só quando chegamos a casa, percebi o que havia acontecido.”
– “Não houve problema, exceto o fato de terem me deixado bastante intrigado”, eu disse, rindo. “Se quiser ter a bondade de se retirar para a sala de espera, continuarei a nossa consulta, que foi interrompida de modo tão brusco.”
– Durante cerca de meia hora discuti os sintomas com o paciente e, depois de prescrever um remédio, eu o vi sair apoiado no braço do filho.
– Já contei que o sr. Blessington costuma fazer um passeio a essa hora. Ele chegou pouco depois e subiu. Logo em seguida desceu correndo e entrou no consultório como um louco.
– “Quem esteve no meu quarto?”, gritou.
– “Ninguém”, eu respondi.
– “Mentira! Suba e veja!”
Ignorei a grosseria das suas palavras porque ele parecia estar transtornado de medo. Quando subíamos, ele apontou várias pegadas no tapete claro.
– “Pretende dizer que essas pegadas são minhas?”, gritou.
– Eram bem maiores que as dele e bastante recentes. Choveu forte à tarde, como sabem, e os dois pacientes eram as únicas pessoas que haviam entrado em casa. Era possível que o homem que ficara na sala de espera, por algum motivo, enquanto eu estava ocupado com o pai, tivesse subido ao quarto do meu paciente interno. Nada fora tocado ou roubado, mas as pegadas provavam que a intromissão era um fato inegável.