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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Agora, meu caro amigo, você sabe exatamente em que ponto estamos e por que preciso da sua ajuda. É óbvio que, quando as mulheres se afastaram, o homem as seguiu a distância e assistiu à briga entre marido e mulher pela janela. Depois, entrou na sala e o animal que ele levava na caixa soltou-se. Tudo isto é certo. Mas ele é a única pessoa neste mundo capaz de contar exatamente o que aconteceu naquela sala.

– E você pretende interrogá-lo?

– Certamente... mas na presença de uma testemunha.

– E sou eu a testemunha?

– Se quiser ter a bondade... Caso o homem seja capaz de esclarecer a questão, tudo bem. Se ele se recusar, não temos alternativa a não ser pedir um mandado de prisão.

– Mas como sabe que ele estará lá quando chegarmos?

– Tomei certas precauções. Deixei de guarda um dos meus rapazes de Baker Street. Alguém que não o perderá de vista um instante, para onde quer que ele vá. Nós o encontraremos em Hudson Street amanhã, Watson. Entretanto, eu mesmo seria um criminoso se o impedisse de dormir por mais tempo.

Era meio-dia quando chegamos ao local da tragédia e, sob a orientação de meu amigo, fomos para Hudson Street. Apesar de sua capacidade de ocultar as emoções, eu percebia que Holmes estava numa excitação contida e eu mesmo vibrava com aquele prazer meio esportivo, meio intelectual que invariavelmente sentia quando participava das suas investigações.

– É esta a rua – disse, enveredando por uma ruazinha curta, de casas modestas de dois andares e fachadas de tijolos. – Ah, aí vem Simpson para fazer seu relatório.

– Ele está em casa, sr. Holmes – anunciou um pequeno árabe, correndo ao nosso encontro.

– Ótimo, Simpson! – aprovou Holmes, dando-lhe um tapinha na cabeça. – Vamos, Watson. A casa é esta.

E enviou seu cartão com o recado de que se tratava de assunto importante. Alguns minutos depois estávamos diante do homem que procurávamos. Apesar do dia quente, ele se inclinava sobre o fogo e o quarto minúsculo parecia um forno. Sentado numa cadeira, completamente torto e encolhido, dava uma indescritível impressão de deformidade, mas o rosto que virou na nossa direção, embora moreno e abatido, devia ter sido de uma beleza excepcional. Olhou-nos desconfiado, com olhos amarelados, e sem falar ou levantar-se, fez um gesto indicando duas cadeiras.

– Sr. Henry Wood, que residia na Índia, eu creio – disse Holmes, amável. – Vim falar a respeito da morte do coronel Barclay.

– E o que eu saberia a respeito?

– É o que quero verificar. Deve saber que, se o caso não for esclarecido, a sra. Barclay, velha amiga sua, será provavelmente julgada por homicídio.

O homem estremeceu violentamente.

– Não sei quem é, nem como chegou a saber disso, mas jura que é verdade o que está dizendo?

– Estão apenas esperando que ela volte a si para prendê-la.

– Meu Deus! É da polícia?

– Não.

– Então o que é que o senhor teve com este caso?

– É dever de todos zelar para que a justiça seja feita.

– Juro que ela é inocente.

– Então o culpado é o senhor?

– Não, não sou.

– Quem matou o coronel James Barclay?

– Foi a justiça divina que o matou. Mas saiba que se eu lhe tivesse estourado os miolos, como tinha intenção de fazer, ele receberia de minhas mãos apenas aquilo que merecia. Se a própria consciência culpada não o tivesse abatido, é bem provável que seu sangue me pesasse sobre a alma. Quer que eu conte a história? Não vejo por que não deveria, já que não tenho motivos para me envergonhar.

– Foi assim, senhor. Como vê, agora tenho costas de camelo e costelas completamente tortas, mas houve um tempo em que o cabo Henry Wood era o homem mais elegante do 117o de Infantaria. Estávamos na Índia, acantonados, num lugar chamado Bhurtee. Barclay, que morreu há dias, era sargento da minha companhia. E a estrela do regimento, a moça mais bela que já viveu sobre a terra, era Nancy Devoy, filha do sargento mestiço. Dois homens a amavam e ela amava um deles. São capazes de rir ao olhar para esta pobre coisa agachada diante do fogo e ouvi-la dizer que era a mim que ela amava, por minha bela aparência.

– Embora o coração dela fosse meu, o pai estava decidido a casá-la com Barclay. Eu era um rapaz irresponsável, imprudente, e ele tivera uma formação e já estava destinado à carreira militar. Mas a moça conservou-se fiel a mim e parecia que eu a teria para mim, quando estourou o Motim e o país virou um inferno.

– Nosso regimento estava isolado em Bhurtee, com meia bateria de artilharia, uma companhia de Sikhs e uma porção de civis, inclusive mulheres. Dez mil rebeldes nos cercavam, alertas como um bando de em volta de uma ratoeira. Na segunda semana, a água acabou e era uma questão de vida ou morte entrarmos em contato com a coluna do general Neill, que avançava para o norte. Era a nossa única chance, porque não havia possibilidade de abrir caminho à força com mulheres e crianças. Ofereci-me como voluntário para avisar o general Neill do perigo que corríamos. Minha proposta foi aceita e eu conversei a respeito com o sargento Barclay, considerado o melhor conhecedor do terreno. Ele traçou um caminho que me permitiria passar pelas linhas rebeldes. Às 22 horas daquela noite parti em missão.Tinha mil vidas a salvar, mas eu só pensava em uma pessoa quando saltei a muralha depois do anoitecer.

– O caminho passava por um rio seco e esperávamos que ele me protegesse das sentinelas inimigas. Mas, ao completar uma curva de rastros, caí no meio de um grupo de seis rebeldes que estava à minha espera na escuridão. No mesmo instante recebi um golpe na cabeça, fiquei atordoado, e amarraram meus pés e mãos. Mas o pior golpe foi vibrado no meu coração, ao recuperar os sentidos e ouvir o suficiente para saber que meu camarada, o próprio homem que traçara o caminho, me traíra por intermédio de um criado nativo, entregando-me ao inimigo.

– Bem, não preciso me estender nesta parte da história. Sabem agora do que James Barclay era capaz. Bhurtee foi salvo por Neill no dia seguinte, mas os rebeldes levaram-me para seu refúgio e passei longos anos sem ver um rosto branco. Era torturado e tentava fugir, eles me recapturavam e novamente me torturavam. Podem ver o estado em que me deixaram. Um grupo que fugiu para o Nepal carregou-me e passei então por Darjeeling, onde os montanheses da região assassinaram os rebeldes que me mantinham prisioneiro. Tornei-me escravo deles até conseguir escapar. Mas, em vez de seguir para o sul, tive de ir para o norte, até que me encontrei entre afegãos. Vaguei por ali durante vários anos, até finalmente voltar a Punjab, onde vivi entre os nativos e aprendi a me sustentar com as mágicas que tinha aprendido. Que utilidade teria para mim, um infeliz aleijado, voltar à Inglaterra, ou procurar os meus antigos camaradas? Nem mesmo o desejo de vingança me levaria a isso. Preferia que Nancy e meus companheiros pensassem que Henry Wood havia morrido de pé a que me vissem arrastar-me apoiado num graveto, como um chimpanzé. Ninguém duvidou que eu estivesse morto e era isso o que eu desejava. Soube que Barclay havia se casado com Nancy e que estava sendo promovido rapidamente no regimento, mas nem isso fez com que eu me manifestasse.

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