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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Seu companheiro!

Holmes tirou do bolso uma grande folha de papel fino e desdobrou-a cuidadosamente sobre os joelhos.

– O que acha disto? – perguntou.

O papel estava coberto de marcas de pegadas de um animal de pequeno porte. Patas de cinco dedos com vestígios de unhas longas, e as marcas inteiras não eram maiores do que uma colher de sobremesa.

– É um cachorro – eu disse.

– Já ouviu falar de algum cão que subisse numa cortina? Encontrei marcas nítidas deixadas por este animal.

– Um macaco, então?

– Mas isto não é pegada de macaco.

– Então, o que será?

– Nem cão, nem gato, nem macaco, nem qualquer animal nosso conhecido. Tentei reconstituí-lo com base nas medidas. Aqui estão quatro pegadas do local onde o animal estava imóvel. Como vê, não há mais de 40 centímetros entre as patas dianteiras e as traseiras. Acrescente a isso o comprimento do pescoço e da cabeça e verá que o animal tem cerca de 60 centímetros ao todo, provavelmente mais, se tiver cauda. Mas observe esta outra medida. O animal estava em movimento; temos, portanto, a largura do seu passo. Em cada caso não ultrapassa 8 centímetros. Temos aqui a indicação de um corpo longo ao qual estão ligadas pernas muito curtas. O animal não foi suficientemente gentil para deixar algum pêlo, mas a forma geral deve ser a que indiquei. Além disso, é capaz de subir correndo por uma cortina, e é carnívoro.

– Como deduziu isto?

– Pelo fato de ter subido correndo a cortina. Havia uma gaiola de canário pendurada na janela e, aparentemente, seu objetivo era abocanhar o pássaro.

– Então que animal seria esse?

– Se eu pudesse identificá-lo, faria um grande progresso no sentido de solucionar o caso. Provavelmente é da família da doninha ou do arminho. Entretanto, é maior do que qualquer um desses que eu já tenha visto.

– Mas, o que tem ele a ver com o crime?

– Isto também ainda não está claro. Mas já descobrimos muita coisa, como você pode perceber. Sabemos que havia um homem na estrada assistindo à briga do casal Barclay – as venezianas estavam levantadas e a sala iluminada. Sabemos também que ele correu pelo gramado, entrou na sala acompanhado do estranho animal e, ou agrediu o coronel, ou – o que também é possível – o coronel caiu por ter ficado terrivelmente assustado ao vê-lo, cortando a cabeça na quina da guarda da lareira. Finalmente, temos o estranho fato de que o intruso levou a chave da sala quando saiu.

– Parece que suas descobertas deixaram o caso ainda mais complicado do que antes – observei.

– Exatamente. Mostraram que o caso era bem mais complexo do que parecia a princípio. Analisei a questão e cheguei à conclusão de que devo abordá-la por outro ângulo. Mas, Watson, eu não estou deixando você dormir. Posso muito bem contar tudo a caminho de Aldershot, amanhã.

– Obrigado, mas você foi longe demais para parar agora.

– É certo que quando a sra. Barclay saiu de casa às 19:30h, estava bem com o marido. Nunca foi, como já mencionei, ostensivamente afetuosa, mas o cocheiro a ouviu conversando amigavelmente com o coronel. Mas também é certo que, ao voltar, ela foi diretamente para a sala onde seria menos provável encontrar o marido e pediu chá, como faria uma pessoa agitada. E finalmente, quando a marido entrou, irrompeu em violentas recriminações. Portanto, entre 19:30h e 21 horas aconteceu alguma coisa que alterou completamente os sentimentos dela em relação ao marido. Mas a srta. Morrison esteve ao seu lado durante aquela hora e meia. Tenho certeza absoluta, portanto, de que, apesar da negativa, ela sabia de alguma coisa.

– Minha primeira hipótese foi de que houve algum episódio entre esta moça e o velho soldado, e que ele confessou tudo à esposa. Isso explicaria a raiva na volta e também o fato de a moça negar que tivesse acontecido alguma coisa. A hipótese não seria totalmente incompatível com a maioria das palavras ouvidas. Mas havia a referência a David e a conhecida afeição do coronel pela mulher pesando contra isso, para não mencionar a trágica intromissão desse outro homem, que poderia, é claro, não ter nada a ver com o que aconteceu. Não foi fácil tomar uma decisão, mas, de modo geral, eu estava inclinado a afastar a idéia de que houve alguma coisa entre o coronel e a srta. Morrison, embora estivesse mais convencido do que nunca de que a moça tem a pista do que transformou em ódio o afeto da sra. Barclay pelo marido. Enveredei pelo caminho óbvio, portanto, visitando a srta. Morrison e explicando que eu estava absolutamente convencido de que ela sabia dos fatos e afirmando que sua amiga, a sra. Barclay, poderia parar no banco dos réus se o caso não fosse esclarecido.

– A srta. Morrison é uma jovem miúda e etérea, de olhos tímidos e cabelos louros. Mas não lhe faltam argúcia e bom senso. Ficou refletindo durante algum tempo a respeito das minhas palavras e depois, virando-se para mim com ar decidido, fez esta declaração extraordinária, que resumirei para você.

– “Prometi a minha amiga não falar nada sobre o caso, e promessa é promessa. Mas se eu puder realmente ajudá-la, quando ela está sendo acusada de uma coisa tão grave e seus próprios lábios estão selados pela doença, creio que estou dispensada do compromisso. Vou contar exatamente o que se passou na noite de segunda-feira.

– “Estávamos voltando da Missão de Watt Street, por volta de 20:45h, e no caminho tínhamos que passar por Hudson Street, uma rua muito tranqüila. Há apenas um lampião, do lado esquerdo, e quando nos aproximávamos dele, vi um homem caminhando na nossa direção, costas muito curvadas, e com uma coisa parecida com uma caixa equilibrada sobre um dos ombros. Parecia aleijado, pois mantinha a cabeça baixa e caminhava de joelhos inclinados. Quando passamos por ele, o homem ergueu a cabeça para nos olhar à luz do lampião, parou e gritou com uma voz assustadora: ‘Meu Deus, é Nancy!’ A sra. Barclay ficou extremamente pálida e teria caído se aquela criatura horrível não a tivesse segurado. Eu ia chamar a polícia quando ela, para minha surpresa, dirigiu-se ao sujeito em tom polido. ‘Pensei que tivesse morrido há trinta anos, Henry’, disse com voz trêmula. ‘E estive morto’, respondeu, e era horrível ouvir o tom de sua voz.

– “Tinha o rosto muito moreno, assustador, e olhos brilhantes que me aparecem em sonhos. Os cabelos e as suíças eram grisalhos, e a pele, muito marcada de rugas como uma maçã murcha.‘Vá andando um pouco, meu bem’, disse a sra. Barclay. ‘Quero falar com este homem. Não há nada a temer.’

– “Tentava falar com serenidade, mas continuava extremamente pálida e mal conseguia articular as palavras, tão trêmulos estavam seus lábios.

– “Fiz o que ela pediu e os dois conversaram durante alguns minutos. Em seguida, ela desceu a rua de olhos faiscantes e vi o aleijado de pé, junto ao lampião, sacudindo no ar os punhos cerrados, como se estivesse enfurecido. Ela não pronunciou nenhuma palavra até chegarmos à minha porta e então, segurando minha mão, suplicou que eu não contasse a ninguém o que se passara. ‘É um velho conhecido meu que decaiu na vida’, ela disse. Quando prometi que não contaria nada, ela me beijou e depois disso não tornei a vê-la. Contei toda a verdade e se não a revelei à polícia, foi por não ter percebido o perigo que corria a minha amiga. Sei que só pode ser vantajoso para ela que tudo se esclareça.”

– Este foi o relato, Watson, e para mim, como pode imaginar, foi como uma luz em noite escura. Tudo o que parecia desconexo antes começou logo a ocupar seu lugar verdadeiro, e eu tive um pressentimento sombrio de toda a seqüência de acontecimentos. Minha providência seguinte, é óbvio, foi procurar o homem que tinha impressionado tanto a sra. Barclay. Se ainda estivesse em Aldershot, não seria difícil encontrá-lo. Não há muitos civis ali, e um homem deformado chamaria atenção. Passei o dia nessa busca e ao anoitecer – ao anoitecer de hoje, Watson – eu o encontrei. Chama-se Henry Wood e mora na rua em que as duas senhoras o encontraram. Está há apenas cinco dias no lugar. Fazendo o papel de agente de registros, tive uma conversa muito interessante com a senhoria. O homem é mágico e ator profissional, e à noite percorre cantinas, onde se exibe. Carrega numa caixa um animal, que parece ter assustado bastante a senhoria. Ela afirma nunca ter visto criatura semelhante. O homem utiliza o animal em algumas das mágicas, segundo ela contou. Revelou-me tudo isso e também não sabe como o homem consegue viver, de tão torto que ele é; fala às vezes numa língua estranha, e nas duas últimas noites ela o ouviu gemer e chorar no quarto. Aparentemente tinha dinheiro, mas o depósito que pagou incluía o que ela achou que era um florim falso. Mostrou-me a moeda, Watson. Era uma rupia indiana.

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