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Nada dura para sempre [em Português]

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Nada dura para sempre [em Português]
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- O doente da ala dois está com dores de cabeça.

Posso dar-lhe acetominofena…? à meia-noite, Paige tinha acabado de adormecer quando o telefone tocou.

- Apresente-se na SU Um. - Tratava-se de um ferimento causado por faca e, quando Paige acabou de o tratar, já era uma e meia da manhã. Às duas e um quarto foi novamente acordada.

- Doutora Taylor… Sala de Urgências Um. Stat.

Paige respondeu, ensonada:

- Tudo bem. - “O que é que ele disse que significava? Mexe esse cu, filho.”

Fez um esforço por se levantar e percorrer o corredor até à sala de urgências. Tinha dado entrada um doente com a perna partida. Este gritava de dores.

- Façam uma radiografia - ordenou Paige. - E dêem-lhe Demerol, cinquenta miligramas. - Poisou a mão no ombro do doente. - Vai ficar bom.

Procure descansar.

No sistema de altofalantes, uma metálica voz desincorporada disse:

- Doutora Taylor… Ala Três. Stat.

Paige olhou para o doente queixoso, sem vontade de o deixar.

Tornou-se a ouvir a voz:

- Doutora Taylor… Ala Três. Stat.

- Já vou - murmurou Paige. Apressou-se a sair e atravessou o corredor a correr, até à Ala Três. Um doente tinha vomitado, aspirado e estava engasgado.

- Ele não consegue respirar - disse a enfermeira.

- Façam-lhe uma sucção - ordenou Paige. Enquanto verificava o doente a recuperar a respiração, ouviu novamente o seu nome no sistema de altofalantes:

- Doutora Taylor… Ala Quatro. Ala Quatro.

Paige abanou a cabeça e correu para a Ala Quatro, para um doente que gritava de espasmos abdominais. Paige fez-lhe um exame rápido.

- Pode ser uma disfunção intestinal. Façam uma ecografia - disse Paige.

Quando voltou para junto do doente com a perna partida, o analgésico já tinha atuado. Mandou que o levassem para a sala de operações e tratou-lhe da perna. Quando estava a terminar, ouviu de novo o seu nome:

- Doutora Taylor, dirija-se à Sala de Urgências Dois.

Stat.

- A úlcera gástrica da Ala Quatro está a causar dores… às três e meia da manhã:

- Doutora Taylor, o doente do quarto 310 está com uma hemorragia…

Houve um ataque cardíaco numa das alas e Paige ouvia, nervosa, a batida cardíaca do doente quando escutou o seu nome a ser chamado no sistema de altofalantes:

- Doutora Taylor… SU Dois. Stat… Doutora Taylor… SU Dois. Stat.

“Não posso entrar em pânico”, pensou Paige. “Devo manter-me calma.”

Estava assustada. Quem era mais importante, o doente que estava a examinar ou o doente seguinte? - Fique aqui - disse futilmente. - Já volto.

Quando Paige se dirigia à SU Dois, ouviu de novo o seu nome:

- Doutora Taylor… SU Um. Stat… Doutora Taylor…

SU Um. Stat.

“Oh, meu Deus!”, pensou Paige. Teve a sensação de ter sido apanhada no meio de um terrível e interminável pesadelo.

Durante o que sobrou da noite, Paige foi acordada para atender um caso de intoxicação alimentar, um braço partido, uma hérnia hiatal e uma costela partida. Quando conseguiu regressar ao quarto dos médicos de serviço, estava tão exausta que mal conseguia mexer-se. Cambaleou até à maca e mal fechara os olhos o telefone tocou.

Pegou nele, com os olhos fechados:

- Es… tá…

- Doutora Taylor, estamos à sua espera.

- O quê? - Permaneceu deitada, tentando lembrar-se de onde estava.

- A sua ronda está a começar, doutora.

- A minha ronda? - “Esta é uma espécie de brincadeira de mau gosto”, pensou Paige. “É desumano. Não podem obrigar ninguém a trabalhar assim!” Mas estavam à sua espera.

Dez minutos mais tarde, Paige estava de novo a fazer a ronda, meio adormecida. Deu um encontrão no doutor Radnor:

- Perdão - murmurou -, mas não consegui dormir…

Este deu-lhe umas palmadinhas amigáveis no ombro:

- Irá habituar-se a isso.

Quando finalmente Paige saiu de serviço, dormiu durante catorze horas seguidas.

A pressão intensa e o ritmo de trabalho provaram ser de mais para alguns dos residentes, os quais simplesmente desapareceram do hospital. “Isso não irá acontecer comigo,”, jurou Paige.

A pressão era implacável. No final de uma das rendições de Paige, após trinta e seis esgotantes horas, estava tão exausta que não fazia ideia de onde se encontrava.

Cambaleou para o elevador e permaneceu ali, com a mente entorpecida.

Tom Chang aproximou-se dela:

- Sente-se bem?

- Estou bem - murmurou Paige.

- Está com mau aspecto - observou ele.

- Obrigada. Porque é que agem assim connosco? - perguntou Paige.

Chang deu um risinho:

- A teoria é a de que isso nos mantém em contato com os nossos doentes.

Se formos para casa e os deixarmos aqui, não sabemos o que se passa com eles enquanto estivermos fora.

- Tem lógica - anuiu ela. Não tinha nenhuma. - Como é que podemos cuidar deles se estamos a dormir em pé? Chang tornou a rir-se:

- Não sou eu que imponho as regras. É assim que todos os hospitais trabalham. - Olhou para Paige de perto:

- Vai conseguir chegar a casa?

Paige olhou para ele e afirmou arrogantemente:

- Claro que sim.

- Passe bem. - Chang desapareceu pelo corredor abaixo.

Paige esperou que o elevador chegasse. Quando finalmente chegou, ali estava ela em pé, a dormir profundamente.

Dois dias mais tarde, Paige tomava o pequeno-almoço com Kat:

- Queres ouvir uma confissão terrível? - perguntou Paige.

- Por vezes, quando me acordam às quatro da manhã para dar uma aspirina a alguém, vou a cambalear pelo corredor abaixo ainda meio a dormir e passo pelos quartos onde todos os doentes estão bem aconchegados e a ter uma boa noite de sono e fico com vontade de atirar com todas as portas e gritar “Toca a acordar!”

Kat estendeu-lhe a mão:

- Junta-te ao clube.

Os doentes eram de todos os feitios, tamanhos, idades e raças. Uns estavam assustados, outros eram corajosos, gentis, arrogantes, exigentes, compreensivos. Eram seres humanos que sofriam.

A maioria dos médicos eram dedicados aos pacientes.

Tal como em qualquer profissão, havia bons médicos e maus médicos.

Eram jovens e idosos, desajeitados e competentes, atenciosos e desagradáveis. Alguns deles, numa ou noutra altura, assediaram sexualmente Paige. Alguns eram subtis, outros rudes. - de noite, nunca se sente sozinha? Eu sei que eu sinto.

Será que…

- Estas horas matam-nos, não concorda? Sabe que descobri o que me dá energia? Uma boa vida sexual. Porque é que nós…?

- A minha mulher foi passar uns dias fora da cidade.

Tenho uma cabana próximo de Carmel. Este fim-de-semana podíamos…

- E os doentes.

- Então, a senhora é que é a minha médica, hem? Sabe o que havia de me curar…?

- Aproxima-te da cama, querida. Quero ver se isso aí é verdadeiro…

Paige cerrava os dentes e ignorava-os a todos. “Quando eu e o Alfred nos casarmos, isto irá parar.” O simples fato de pensar em Alfred deixou-a radiante. Iria regressar de Äfrica em breve. Em breve.

Uma manhã, antes da ronda, Paige e Kat conversaram sobre o assédio sexual de que estavam a ser alvo.

- Grande parte dos médicos comportam-se como perfeitos cavalhe iros, mas alguns deles parecem julgar que somos gratificações ligadas à profissão e que estamos aqui para os servir - disse Kat. - Não há semana em que pelo menos um dos médicos não me faça convites. “Porque não vem beber um copo a minha casa? Tenho alguns CD’s ótimos.” Ou que na sala de operações, quando estou a ajudar, o cirurgião esfrega o braço no meu peito.

Um tarado disse-me: “Sabe, sempre que peço frango, prefiro a carne escura.”

Paige suspirou:

- Julgam que nos estão a lisonjear tratando-nos como objetos sexuais.

Antes nos tratassem como médicas.

- Muitos deles nem sequer nos querem por perto.

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