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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Stannis? Não sei.

– Ele também é agora um rei – Cley confidenciou. – Diz que a Rainha Cersei se deitou com o irmão, e, portanto, Joffrey é um bastardo.

– Joffrey, o Mal-Nascido – rosnou um dos cavaleiros dos Cerwyn. – Não é de admirar que seja desleal, com o Regicida como pai.

– Sim – disse outro –, os deuses detestam o incesto. Veja como derrubaram os Targaryen.

Por um momento, Bran sentiu-se incapaz de respirar. Uma mão gigantesca esmagava seu peito. Sentiu-se caindo e agarrou-se desesperadamente às rédeas da Dançarina.

Seu terror deve ter transparecido no rosto.

– Bran? – Cley Cerwyn o chamou. – Está se sentindo mal? É só mais um rei.

– Robb também o derrotará.

Virou a cabeça da Dançarina na direção dos estábulos, sem notar os olhares confusos que os Cerwyn lhe dirigiram. O sangue rugia em suas orelhas e, se não estivesse preso à sela, poderia muito bem ter caído.

Naquela noite, Bran rezou aos deuses do pai, pedindo um sono sem sonhos. Se os deuses ouviram, zombaram da sua esperança, pois o pesadelo que enviaram foi pior do que qualquer sonho de lobo.

Voe ou morra!”, gritava o corvo de três olhos enquanto o bicava. Chorou e suplicou, mas o corvo não tinha piedade. Destroçou seu olho esquerdo, e depois o direito, e quando ficou cego na escuridão, a ave começou a bicá-lo na testa, enfiando o bico terrivelmente afiado no seu crânio. Bran gritou até ficar certo de que seus pulmões iriam estourar. A dor era como um machado que abria sua cabeça, mas quando o corvo puxou o bico, todo pegajoso com pedaços de osso e cérebro, Bran conseguia ver de novo. O que viu fez com que arquejasse de medo. Estava agarrado a uma torre com muitos metros de altura, seus dedos escorregavam, com as unhas arranhando a pedra, e as pernas puxavam-no para baixo, as estúpidas e inúteis pernas mortas. “Socorro!”, gritou. Um homem dourado surgiu no céu por cima dele e o puxou. “As coisas que eu faço por amor”, murmurou suavemente enquanto o atirava, esperneando, para o vazio.

Tyrion

–Já não durmo como dormia quando era novo – disse-lhe o Grande Meistre Pycelle, em tom de desculpa pela reunião à alvorada. – Prefiro estar de pé, mesmo que o mundo esteja escuro, a deitar inquieto na cama, preocupado com tarefas a cumprir – ele disse, embora seus olhos de pálpebras pesadas fizessem-no parecer meio adormecido enquanto falava.

Nos arejados aposentos sob o viveiro de corvos, a criada lhes serviu ovos cozidos, ameixas em compota e mingau de aveia, enquanto Pycelle pontificava.

– Nestes tristes tempos, quando tantos passam fome, penso ser adequado que mantenha minha mesa frugal.

– Louvável – Tyrion admitiu, quebrando o grande ovo marrom que lhe lembrava muito a cabeça calva e manchada do Grande Meistre. – Eu adoto um ponto de vista diferente. Se há comida, eu como, para o caso de não haver nenhuma amanhã – sorriu. – Diga-me, seus corvos também são madrugadores?

Pycelle afagou a barba branca como a neve que caía pelo seu peito abaixo.

– Com certeza. Devo mandar buscar pena e tinta depois de comermos?

– Não há necessidade – Tyrion pousou as cartas na mesa ao lado do mingau, pergaminhos gêmeos bem enrolados e selados com cera em ambas as extremidades. – Mande sua moça embora para que possamos conversar.

– Deixe-nos, filha – Pycelle ordenou, e a criada apressou-se em sair da sala. – Então, essas cartas…

– São para os olhos de Doran Martell, Príncipe de Dorne – Tyrion tirou a casca rachada do ovo e deu uma mordida. Estava sem sal. – Uma carta, em duas cópias. Envie suas aves mais rápidas. O assunto é de grande importância.

– Vou enviá-las assim que quebrarmos o jejum.

– Envie-as já. Ameixas em compota podem esperar. O reino talvez não. Lorde Renly está trazendo sua tropa pela estrada das rosas, e ninguém sabe dizer quando Lorde Stannis zarpará de Pedra do Dragão.

Pycelle pestanejou.

– Se o senhor prefere…

– Prefiro.

– Estou aqui para servir – o meistre ficou solenemente em pé, fazendo tilintar suavemente o colar do seu cargo. Era coisa pesada, uma dúzia de colares de meistre enrolados uns nos outros e ornamentados com pedras preciosas. E parecia a Tyrion que os elos de ouro, prata e platina eram em número muito superior aos de metais inferiores.

Pycelle mexia-se tão devagar que Tyrion teve tempo de terminar o ovo e experimentar as ameixas, cozidas e aguadas demais para o seu gosto, antes que o som de asas o fizesse se levantar. Olhou o corvo, escuro no céu da alvorada, e dirigiu-se rapidamente para o labirinto de prateleiras que havia na outra ponta da sala.

Os medicamentos que o meistre tinha formavam uma vitrine impressionante; dúzias de potes selados com cera, centenas de frascos arrolhados, outras tantas garrafas de vidro opaco, incontáveis potes de ervas secas, com cada recipiente ordenadamente etiquetado na letra precisa de Pycelle. Uma mente metódica, Tyrion refletiu, e, de fato, uma vez decodificada a arrumação, era fácil ver que cada poção tinha o seu lugar. E coisas tão interessantes. Viu sonodoce e beladona, leite da papoula, lágrimas de Lys, grisalheira em pó, acônito e dança do demo, veneno de basilisco, olhocego, sangue de viúva…

Pondo-se nas pontas dos pés e esticando-se, conseguiu puxar uma pequena garrafa empoeirada da prateleira mais elevada. Quando leu a etiqueta, sorriu e enfiou-a na manga.

Estava de volta à mesa, descascando outro ovo, quando o Grande Meistre Pycelle desceu lentamente as escadas.

– Está feito, senhor – o velho sentou-se. – Um assunto como este… é melhor realizá-lo prontamente, de fato, de fato… de grande importância, foi o que disse?

–Ah, sim – Tyrion achou que o mingau estava grosso demais e faltando manteiga e mel. Também era verdade que manteiga e mel eram raramente vistos em Porto Real nos últimos tempos, embora Lorde Gyles mantivesse o castelo bem abastecido de ambos os produtos. Metade da comida que ingeriam nos dias que corriam provinha das terras dele ou da Senhora Tanda. Rosby e Stokeworth ficavam perto da cidade, para o norte, e ainda não tinham sido tocadas pela guerra.

– O próprio Príncipe de Dorne. Posso perguntar…

– É melhor não.

– Como quiser – a curiosidade de Pycelle estava tão madura, que Tyrion quase conseguia saboreá-la. – Talvez… o conselho do rei…

Tyrion batucou com a colher de madeira na borda da tigela.

– O conselho existe para aconselhar o rei, Meistre.

– Precisamente – Pycelle concordou –, e o rei…

– … é um garoto de treze anos. Eu falo com a sua voz.

– É bem verdade. De fato. A Mão do Próprio Rei. No entanto… Sua mui graciosa irmã, nossa Rainha Regente, ela…

– … carrega um grande fardo naqueles seus adoráveis ombros brancos. Não tenho nenhum desejo de somar mais peso a esse fardo. Você tem? – Tyrion inclinou a cabeça e lançou ao Grande Meistre um olhar interrogador.

Pycelle baixou os olhos para a comida. Havia algo nos desiguais olhos verde e negro de Tyrion que deixava o homem desconfortável. Sabendo disso, o anão dava-lhes bom uso.

– Ah – murmurou o velho para as suas ameixas. – Sem dúvida que tem razão, senhor. É muita atenção sua… poupá-la deste… fardo.

– É esse o tipo de pessoa que sou – Tyrion voltou a dedicar-se ao pouco satisfatório mingau. – Atencioso. Afinal de contas, Cersei é minha irmã querida.

– E uma mulher, com certeza – disse o Grande Meistre Pycelle. – Uma mulher muito incomum, mas… não é pouca coisa, tratar de todas as necessidades do reino, apesar da fragilidade do seu sexo…

Ah, sim, ela é uma frágil pomba, basta perguntar a Eddard Stark.

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