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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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Ah, ele era esperto. Não se limitava a coletar o ouro e trancá-lo num cofre do tesouro, não. Pagava as dívidas do rei com promessas e punha o ouro para trabalhar. Comprou carroças, lojas, navios, casas. Comprou cereais quando havia fartura e vendeu pão quando ele escasseou. Comprou lã do norte, linho do sul e renda de Lys, armazenou-os, movimentou-os, tingiu-os e os vendeu. Os dragões de ouro reproduziram-se e se multiplicaram, e Mindinho os emprestou e trouxe-os para casa com crias.

E, enquanto o fazia, colocou seus homens em posição. Os Guardiães das Chaves eram dele, todos os quatro. O Real Contador e o Real Balança eram homens que ele tinha nomeado. Tal como os funcionários a cargo das três casas de cunhagem. Mestres do porto, coletores de impostos, sargentos fiscais, administradores de lã, cobradores de pedágio, intendentes navais, administradores de vinho; nove em dez lhe pertenciam. Eram homens de médio nascimento, na sua grande maioria; filhos de mercadores, fidalgos menores, às vezes até estrangeiros, mas, considerando os resultados que obtinham, muito mais capazes do que seus predecessores bem-nascidos.

Ninguém tinha pensado em questionar as nomeações. E por que deveriam? Mindinho não era ameaça para ninguém. Um homem inteligente, sorridente e simpático, amigo de todos, sempre capaz de encontrar o ouro que o rei ou a sua Mão requeriam, e, no entanto, de um nascimento tão pouco distinto, um degrau acima de cavaleiro menor. Não era um homem a se temer. Não tinha vassalos que pudesse convocar, nenhum exército de servidores, nenhum grande castelo, nenhuma terra de que valesse a pena falar, nenhuma perspectiva de grande casamento.

Mas será que me atrevo a encostar nele?, Tyrion se perguntou. Mesmo se for um traidor? Não tinha nenhuma certeza de poder fazê-lo e muito menos agora, enquanto a guerra se desenrolava. Com o tempo, poderia substituir os homens de Mindinho pelos seus em posições chave, mas…

Um grito soou no pátio.

– Ah, Sua Graça matou uma lebre – observou Lorde Baelish.

– Sem dúvida, uma lenta – Tyrion retrucou. – Senhor, foi criado em Correrrio. Ouvi dizer que cresceu próximo dos Tully.

– Pode-se dizer que sim. Especialmente das moças.

– Quão próximo?

– Deflorei-as. É próximo o suficiente?

A mentira, Tyrion estava bastante certo de se tratar de uma mentira, era dita com um tal ar de indiferença que alguém podia quase acreditar. Poderia ter sido Catelyn Stark quem mentiu? A respeito da sua defloração e também do punhal? Quanto mais tempo vivia, mais Tyrion percebia que nada era simples e que poucas coisas eram verdadeiras.

– As filhas de Lorde Hoster não gostam de mim – Tyrion confessou. – Duvido que dessem ouvidos a qualquer proposta que eu possa fazer. Mas, vindas de você, as mesmas palavras poderiam cair mais docemente nos seus ouvidos.

– Isso iria depender das palavras. Se tem em mente oferecer Sansa em troca do seu irmão, desperdice o tempo de outra pessoa. Joffrey nunca abrirá mão do seu brinquedo, e a Senhora Catelyn não é tão tola a ponto de trocar o Regicida por uma menina insignificante.

– Pretendo ter também Arya. Pus homens à procura dela.

– Procurar não é encontrar.

– Lembrarei disso, senhor. Em todo caso, era a Senhora Lysa que eu esperava que pudesse influenciar. Para ela, tenho uma oferta melhor.

– Lysa é mais tratável do que Catelyn, sem dúvida… mas também mais temerosa, e, pelo que sei, odeia-o.

– Ela crê que tem bons motivos para isso. Quando fui seu hóspede no Ninho da Águia, insistiu que eu tinha assassinado seu marido e não se mostrou disposta a dar ouvidos a negações – Tyrion inclinou-se para a frente. – Se lhe entregar o verdadeiro assassino de Jon Arryn, poderá pensar melhor de mim.

Aquilo fez Mindinho endireitar-se.

– O verdadeiro assassino? Confesso que me deixa curioso. Quem tem em mente?

Foi a vez de Tyrion sorrir:

– Os presentes dou aos meus amigos, livremente. Lysa Arryn terá de compreender isso.

– É a amizade dela que lhe interessa, ou as suas espadas?

– Ambas.

Mindinho afagou o espigão bem tratado da sua barba.

– Lysa tem suas próprias aflições. Homens dos clãs que descem das Montanhas da Lua, em maior número do que há memória… e mais bem armados.

– Perturbador – disse Tyrion Lannister, que os armara. – Poderia ajudá-la com isso. Uma palavra minha…

– E o que lhe custaria essa palavra?

– Quero que a Senhora Lysa e o filho aclamem Joffrey como rei, que lhe jurem lealdade e que…

– … façam guerra aos Stark e aos Tully? – Mindinho balançou a cabeça. – Aí está a mosca na sua sopa, Lannister. Lysa nunca enviará seus cavaleiros contra Correrrio.

– Nem eu pediria isso. Não nos faltam inimigos. Usarei as suas forças para enfrentar Lorde Renly ou Lorde Stannis, caso ele saia de Pedra do Dragão. Em troca, darei justiça por Jon Arryn e paz no Vale. Até nomearei aquele seu pavoroso filho Protetor do Leste, como o pai era antes dele – quero vê-lo voar, sussurrou, tênue, uma voz de garoto na sua memória. – E para selar o acordo, darei a ela minha sobrinha.

Teve o prazer de ver uma expressão de genuína surpresa nos olhos cinza-esverdeados de Petyr Baelish.

– Myrcella?

– Quando tiver idade, poderá casar com o pequeno Lorde Robert. Até lá, será protegida da Senhora Lysa no Ninho da Águia.

– E que pensa Sua Graça, a rainha, desta manobra? – quando Tyrion encolheu os ombros, Mindinho explodiu em gargalhadas. – Era o que eu pensava. É um homenzinho perigoso, Lannister. Sim, eu poderia cantar esta canção a Lysa – de novo, o sorriso manhoso, a travessura no olhar. – Se quisesse.

Tyrion acenou com a cabeça, à espera, sabendo que Mindinho nunca tolerava um longo silêncio.

– Então – prosseguiu Mindinho após uma pausa, completamente impassível –, o que há para mim na sua panela?

– Harrenhal.

Foi interessante observar o rosto dele. O pai de Lorde Petyr tinha sido o menor dos pequenos senhores, o avô, um pequeno cavaleiro sem terras; pelo nascimento, não possuía mais do que alguns acres pedregosos na costa varrida pelo vento dos Dedos. Harrenhal era uma das mais ricas peças dos Sete Reinos, com terras vastas, ricas e férteis, e seu grande castelo mais formidável que qualquer outro do reino… e tão grande, que reduzia à insignificância Correrrio, onde Petyr Baelish tinha sido criado pela Casa Tully, até ser bruscamente expulso quando se atreveu a erguer os olhos para a filha de Lorde Hoster.

Mindinho demorou um instante ajustando as pregas da capa, mas Tyrion viu a cintilação da fome naqueles olhos manhosos de gato. Está na minha mão, compreendeu.

– Harrenhal está amaldiçoado – disse Lorde Petyr após um momento, tentando soar entediado.

– Então arrase o castelo e construa de novo como lhe for melhor. Não lhe faltará poder para tanto. Pretendo fazer de você suserano do Tridente. Aqueles senhores do rio provaram que não são de confiança. Que lhe prestem vassalagem pelas suas terras.

– Até os Tully?

– Se restar algum Tully quando terminarmos.

Mindinho parecia um garotinho que tivesse acabado de dar uma mordida furtiva num favo de mel. Estava tentando ficar atento às abelhas, mas o mel era tão doce...

– Harrenhal e todas as suas terras e rendimentos – sua voz saiu em tom de meditação. – De uma tacada, faria de mim um dos maiores senhores do reino. Não que seja ingrato, senhor, mas… Por quê?

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