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A Herdeira [em Português]
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Atendia aos jornalistas sempre que possível, tentando recompor a imagem um pouco desgastada da companhia, e eles apreciavam essa solicitude. Quando ela não tinha a resposta à pergunta de algum repórter, não tinha a menor dúvida em pegar o telefone e perguntar a alguém.

Os primos iam de avião a Zurique para as reuniões semanais. Elizabeth passava com eles tanto tempo quanto possível. Via-os juntos e reunia-se com cada um deles separadamente. Falava com eles e estudava-os, pensando encontrar algum indício de que um deles fosse capaz de deixar pessoas inocentes morrerem numa explosão, de vender segredos a concorrentes e de procurar destruir a Roffe and Sons.

Um de seus primos. Ivo Palazzi, com o seu irresistível encanto. Alec Nichols, tipo perfeito, o próprio gentleman, sempre solícito quando Elizabeth precisava dele. Charles Martel, um homem dominado e amedrontado. Homens assim podiam ser perigosos quando acuados. Walther Gassner. O tipo do herói alemão. Belo e extremamente afável.

Como seria ele no íntimo? Casara-se com Anna, treze anos mais velha do que ele.

Casara-se por amor ou por dinheiro? Quando Elizabeth estava com eles, observava, escutava, sondava. Mencionava a explosão no Chile e observava as reações de cada um.

Falava das patentes que a Roffe tinha perdido para outras companhias e discutia as indenizações a serem pagas. Não conseguia apurar nada. Fosse quem fosse, era muito hábil para se deixar trair. Teria de ser colhido numa armadilha. Lembrou-se da nota do próprio punho de Sam no relatório. Era preciso apanhar o patife. Ela teria de encontrar um meio.

Elizabeth ficava cada vez mais fascinada com o funcionamento interno da indústria farmacêutica. As más notícias eram deliberadamente espalhadas. Quando se sabia que algum doente morrera depois de ter tomado um medicamento de um concorrente, meia hora depois cerca de dez homens estavam dando telefonemas através do mundo. "Sabe o que estão dizendo?"

Entretanto, aparentemente, todas as companhias pareciam viver nas melhores relações possíveis. Os chefes de algumas das grandes firmas reuniam-se regularmente em encontros informais. Elizabeth foi convidada para uma dessas reuniões. Foi a única mulher presente. Os homens debateram os seus problemas comuns. O presidente de uma das grandes companhias, um homem de meia-idade que tinha seguido Elizabeth a noite inteira, disse-lhe em dado momento:

- As restrições são cada vez mais absurdas. Se a aspirina fosse descoberta hoje, duvido muito que as autoridades a aprovassem. Por falar nisso, minha bela jovem, tem alguma idéia de há quanto tempo nós temos a aspirina?

A bela jovem respondeu:

- Desde quatrocentos anos antes de Cristo, quando Hipócritas descobriu a salicina na casca do salgueiro. O homem olhou para ela e o sorriso morreu em seus lábios.

- Certo - murmurou ele, e afastou-se.

Todos os chefes de companhia concordavam em que um dos seus maiores problemas era o das firmas sem escrúpulos que roubavam as fórmulas dos produtos que tinham êxito, mudavam os nomes e lançavam os medicamentos no mercado. Isso custava às empresas de boa reputação centenas de milhões de dólares por ano. Na Itália, não havia sequer a necessidade de roubar.

- AIitália é um país que não tem regulamento de patentes a respeito de medicamentos - disse um dos diretores a Elizabeth. - Por algumas centenas de milhares de liras, qualquer pessoa pode comprar as fórmulas e vender os produtos com outro nome. Gastamos milhões de dólares em pesquisas. E eles se limitam a arrecadar os lucros.

- Isso acontece apenas na Itália? - perguntou Elizabeth. - A Itália e a Espanha são os piores lugares. A França e a Alemanha Ocidental, mais ou menos. Só nos Estados Unidos e na Inglaterra é que não acontece isso.

Elizabeth olhava para aqueles homens indignados e tinha vontade de saber quantos deles estariam envolvidos nos roubos das patentes da Roffe and Sons.

Elizabeth tinha a impressão de que estava passando a maior parte da vida a bordo de aviões. O seu passaporte ficava bem à mão, na primeira gaveta de sua mesa. Uma vez por semana, pelo menos, havia uma chamada angustiosa do Cairo, da Guatemala ou de Tóquio, e poucas horas depois, Elizabeth estava a bordo de um avião com alguns homens de sua confiança para atender a alguma emergência. Encontrava-se com gerentes de fábricas e suas famílias em cidades grandes como Bombaim ou em pontos remotos como Puerto Vallarta, e pouco a pouco principiou a ver a Roffe and Sons sob outra perspectiva.

Não era mais um acúmulo impessoal de relatórios e estatísticas. Chegava um relatório da Guatemala e isso significava Emilio Núnez, sua mulher gorda e feliz e seus doze filhos. Copenhague era Nils Bjorn e a mãe inválida com quem ele vivia. O Rio de Janeiro fazia lembrar uma noite passada com Alexandre Duval e sua vivaz companheira.

Elizabeth mantinha-se regularmente em contato com Emil Joeppli. Telefonava-lhe sempre por uma linha privativa e às vezes ia visitá-lo à noite em seu pequeno apartamento no Aussershl. Era cautelosa até pelo telefone.

- Como vão as coisas?

- Um pouco mais lentamente do que eu esperava, Senhorita Roffe.

- Precisa de alguma coisa?

- Não. Só de tempo. Encontrei um problema, mas creio que já resolvi.

- Muito bem. Telefone-me se precisar de alguma coisa, seja lá o que for.

- Está bem. Muito obrigado, Senhorita Roffe.

Elizabeth desligara o telefone com vontade de dizer mais alguma coisa, de apressá-lo, pois sabia que o vencimento dos empréstimos contraídos com os bancos estava próximo.

Precisava muito do produto em que Joeppli estava trabalhando, mas sabia que pouco adiantava pressioná-lo e continha sua impaciência. As experiências não podiam evidentemente estar terminadas antes do prazo concedido pelos banqueiros. Mas ela tinha um plano. Pretendia levar Julius Badrutt secretamente até o laboratório para que ele visse pessoalmente o projeto. Os bancos dariam o tempo necessário.

Elizabeth trabalhava cada vez mais em conjunto com Rhys Williams, e com frequência ficavam juntos até altas horas da noite. Quase sempre trabalhavam sozinhos.

Jantavam na sala privativa do escritório ou no elegante apartamento que ela passara a ocupar. Era um edifício moderno em Zurichberg, com as janelas dando para o lago de Zurique, amplo, arejado e bem-iluminado.

Elizabeth estava cada vez mais consciente do poderoso magnetismo animal de Rhys, mas, se ele sentia qualquer atração por ela, tinha o maior cuidado em não dar a maior demonstração. Era sempre gentil e simpático. A sua atitude era mais ou menos protetora, e essa palavra tinha no espírito de Elizabeth ressonância pejorativa.

Queria se apoiar nele, confiar nele, mas sabia que precisava tomar cuidado. Mais de uma vez, estivera a ponto de contar a Rhys tudo sobre os atos de sabotagem na companhia, mas recuava sempre. Não era ainda tempo de falar sobre o assunto com ninguém. Tinha de saber mais.

Elizabeth estava adquirindo confiança em si mesma. Na reunião de vendas, tinham discutido o caso de um preparado para os cabelos que estava tendo pouca saída.

- Há muitas devoluções das farmácias - disse um dos chefes de vendas. - O produto não pegou. Precisamos de mais publicidade.

- Nossa verba de publicidade Está esgotada - disse Rhys. - Temos de tomar uma providência diferente.

- Vamos tirar o produto das farmácias - disse então Elizabeth.

- Como? - perguntaram todos, voltando-se para ela.

- É isso mesmo. Devemos continuar a campanha de publicidade e passar a vender o produto exclusivamente nos salões de beleza. Procurem dar a impressão de que é uma mercadoria exclusiva, difícil de encontrar.

Rhys pensou um pouco e disse:

- Muito bem. Agrada-me a idéia.

As vendas do produto subiram da noite para o dia. Depois, Rhys deu-lhe os parabéns.

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