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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Oh, estou farta de perguntas! – ela exclamou, impaciente.

– Eu creio que a senhorita tem duas irmãs.

– Como sabe disso?

– Logo que entrei no quarto vi que tem sobre a lareira um retrato de um grupo de três mulheres, uma das quais é a senhorita, sem dúvida, enquanto as outras se parecem muito com a senhorita; assim, não havia dúvida sobre o parentesco.

– O senhor tem razão. Aquelas são minhas irmãs, Sarah e Mary.

– E aqui do meu lado há outro retrato, tirado em Liverpool, de sua irmã mais nova, na companhia de um homem que parece ser um comissário de bordo, pelo uniforme. Vejo que ela era solteira, na época.

– O senhor é um ótimo observador.

– É a minha profissão.

– Bem, o senhor tem razão. Mas ela se casou alguns dias depois com o senhor Browner. Ele estava na linha da América do Sul, mas gostava tanto dela que não conseguia ficar longe por muito tempo; de modo que ele se transferiu para os navios da linha Liverpool e Londres.

– Ah, o Conqueror, talvez?

– Não, o May Day, da última vez que ouvi falar. Uma vez Jim veio me ver. Isso foi antes de quebrar a promessa; depois disso, ele sempre bebia quando estava em terra, um pequeno trago já o deixava completamente louco. Ah, foi um dia fatal quando ele pegou de novo num copo. Primeiro ele se esqueceu de mim, depois brigou com Sarah, e agora que Mary deixou de me escrever, não sei como as coisas estão entre eles.

Era evidente que a srta. Cushing falava sobre um assunto que a afetava profundamente. Como a maioria das pessoas que levavam uma vida solitária, no começo ela se mostrou reservada, mas acabou tornando-se extremamente comunicativa. Contou-nos vários detalhes sobre o cunhado, falou de seus antigos inquilinos, os estudantes de medicina; falou-nos de suas peraltices, dando-nos seus nomes e os dos hospitais. Holmes ouvia tudo com atenção, fazendo uma pergunta de vez em quando.

– A respeito da sua segunda irmã, Sarah – disse ele –, imagino que, sendo ambas solteiras, não quiseram morar juntas.

– Ah, o senhor não conhece o gênio de Sarah, do contrário nem pensaria numa coisa dessas. Eu tentei quando me mudei para Croydon, e ficamos juntas até dois meses atrás, quando tivemos de nos separar. Não quero falar mal de minha própria irmã, mas ela sempre foi uma intrometida e uma pessoa difícil de se contentar.

– A senhorita está dizendo que ela brigou com os parentes de Liverpool?

– Sim, e eles eram então os melhores amigos. Ela foi para lá para ficar perto deles. E agora ela vive acusando Jim Browner. Nos últimos seis meses em que esteve aqui só falava das bebedeiras e dos modos dele. Eu desconfio que ele a pegou fazendo mexericos e lhe passou um sabão, e fosse esse o começo de tudo.

– Obrigado, srta. Cushing – disse Holmes, levantando-se e fazendo uma mesura. – Sua irmã Sarah mora, como disse, em New Street, Wallington? Adeus, e lamento muito que a senhorita tenha sido importunada com um caso que, como diz, não tem nada a ver consigo.

Quando saímos, estava passando um carro e Holmes o fez parar.

– A que distância fica Wallington?

– Apenas a 1,5 quilômetro, senhor.

– Muito bem. Entre, Watson. Temos de malhar enquanto o ferro ainda está quente. Este caso é simples, mas tem um ou dois detalhes muito interessantes relacionados com ele. Por favor, pare na primeira agência telegráfica que encontrar.

Holmes enviou um telegrama curto, e durante toda a viagem ficou recostado no carro, com o chapéu enterrado até o nariz para se proteger do sol. Nosso condutor parou diante de uma casa que não era diferente da que havíamos deixado. Meu amigo pediu que nos esperasse, e quando ia bater à porta, esta se abriu e apareceu um jovem, vestido de preto, com um chapéu reluzente.

– A senhorita Cushing está em casa? – perguntou.

– Ela está muito doente – disse o jovem. – Desde ontem ela está sofrendo de sintomas cerebrais muito graves. Como seu médico, não posso permitir que ninguém a veja. Peço-lhe que volte dentro de dez dias.

Ele calçou as luvas, fechou a porta e saiu andando pela rua.

– Bem, se não podemos, não podemos – disse Holmes, em tom jovial.

– Talvez ela não pudesse ou mesmo não nos dissesse muita coisa.

– Eu não quero que ela me diga nada. Só queria vê-la. Mas acho que consegui o que queria. Leve-nos para um hotel decente, cocheiro, onde possamos almoçar, e depois disso poderemos ir ver nosso amigo Lestrade na delegacia.

Fizemos uma refeição agradável durante a qual Holmes só falou sobre violinos, contando com grande entusiasmo como ele comprara seu Stradivarius, que valia pelo menos 500 guinéus, de um negociante judeu em Tottenham, Court Road por apenas 55 xelins. Isso o levou a falar de Paganini, e ficamos durante uma hora bebendo vinho, enquanto ele me contou histórias e mais histórias sobre aquele homem extraordinário. Quando chegamos à delegacia, já era final de tarde, e a luz do sol se transformara numa claridade amena. Lestrade nos aguardava na porta.

– Há um telegrama para você, Holmes – disse ele.

– Ah! A resposta!

Abriu o telegrama, deu uma olhada e colocou-o no bolso.

– Está tudo bem – ele disse.

– Descobriu alguma coisa?

– Descobri tudo!

– Como? – Lestrade o olhou, estupefato. – Está brincando?!

– Nunca falei mais sério em minha vida. Foi cometido um crime chocante, e acho que descobri todos os detalhes.

– E o criminoso?

Holmes rabiscou algumas palavras nas costas de um de seus cartões de visita e o passou a Lestrade.

– Este é o nome dele – disse. – O senhor não conseguirá efetuar sua prisão até amanhã à noite. Eu gostaria que não mencionasse meu nome com relação a este caso, já que prefiro vê-lo relacionado a crimes que apresentem dificuldades para sua elucidação. Vamos, Watson.

Partimos para a estação, deixando Lestrade com uma expressão de satisfação no rosto, olhando para o cartão que Holmes lhe dera.

– O caso – disse Holmes, quando já estávamos em nossos aposentos em Baker Street, fumando e conversando – é um daqueles em que tivemos de raciocinar para o passado, das causas aos efeitos, como nos casos que você relatou com os títulos de “Um estudo em vermelho” e “O sinal dos quatro”. Escrevi a Lestrade pedindo-lhe para nos fornecer os detalhes que ainda faltam, e que ele só vai conseguir depois de prender o homem. Ele certamente vai conseguir isso porque, embora destituído de raciocínio, é tão persistente quanto um buldogue depois que entende o que tem de fazer e, na verdade, foi justamente a sua tenacidade que o levou até o topo na Scotland Yard.

– Quer dizer que o caso ainda não está completo? – perguntei.

– Nos fatos essenciais, sim. Sabemos quem é o autor do caso revoltante, embora ainda não tenhamos identificado uma das vítimas. Você, é claro, já tirou suas próprias conclusões.

– Eu acho que Jim Browner, o comissário de bordo da linha de Liverpool, é o homem de quem você suspeita.

– Oh, é mais do que suspeita.

– Mesmo assim não vejo mais do que vagos indícios.

– Para mim, ao contrário, nada podia ser mais claro. Deixe-me mostrar-lhe os passos principais. Nada sabíamos do caso quando começamos a trabalhar nele, o que é sempre uma vantagem. Não tínhamos teorias prontas. Estávamos lá simplesmente para observar e tirar conclusões de nossas observações. O que foi que vimos primeiro? Uma senhora respeitável e calma, que parecia totalmente inocente de qualquer crime, e um retrato que mostrou ter ela duas irmãs mais jovens. Imediatamente me ocorreu que a caixa podia ser destinada a uma delas. Deixei a idéia de lado, já que ela poderia ser abandonada ou confirmada, à nossa vontade, mais tarde. Então fomos para o jardim, como você se lembra, e vimos o estranho conteúdo da caixinha amarela. O barbante era do tipo usado por marinheiros e logo um bafejo do mar era perceptível em nossa investigação. Quando observei que o nó era comum entre marinheiros, que o pacote havia sido mandado de um porto e que a orelha masculina fora furada para uso de brinco, coisa mais comum entre gente do mar do que de terra, tive certeza de que todos os personagens da tragédia seriam encontrados entre nossas classes marítimas. Quando examinei o endereço no pacote, vi que era para a senhorita S. Cushing. Ora, a irmã mais velha seria, é claro, a senhorita Cushing e, embora sua inicial fosse “S”, poderia pertencer também a uma das outras duas. Nesse caso teríamos de reiniciar nossa investigação em uma nova base. Assim sendo, entrei na casa com a intenção de esclarecer este ponto. Eu estava prestes a dizer a ela que me convencera de que fora cometido um equívoco quando, você deve se lembrar, eu parei de repente. O fato é que eu acabara de ver uma coisa que me encheu de surpresa e, ao mesmo tempo, diminuiu consideravelmente o campo de nossa pesquisa. Você, como médico, Watson, sabe que não existe parte do corpo humano que varie tanto quanto uma orelha. Cada uma é, como regra geral, completamente distinta e diferente das demais. No último número do Jornal Antropológico você vai encontrar duas pequenas monografias que escrevi sobre o assunto. Portanto, eu tinha examinado as orelhas na caixa com os olhos de um especialista e percebi as particularidades anatômicas. Imagine agora minha surpresa quando, ao olhar para a srta. Cushing, notei que a orelha dela correspondia exatamente à orelha feminina que eu tinha acabado de examinar. O caso era mais do que uma coincidência. Ali estava a mesma aurícula curta, a mesma curva aberta do lóbulo superior, o mesmo desenho da cartilagem interna. No essencial, era a mesma orelha. Claro que vi logo a enorme importância da observação. Era lógico que a vítima era um parente, provavelmente bem próximo. Comecei a conversar com ela sobre a família, e você se lembra de que ela nos deu imediatamente detalhes excelentes e valiosos. Em primeiro lugar, o nome da irmã era Sarah, e o endereço era o mesmo até recentemente, e assim ficou claro como tinha ocorrido o engano e a quem se destinava o pacote. Ela falou, então, do comissário de bordo, casado com a terceira irmã, e soubemos que, em certa época, ele ficou tão íntimo da srta. Sarah que ela até acabou se mudando para Liverpool a fim de ficar perto dos Browners, mas uma briga os afastou mais tarde. Esta briga interrompeu as comunicações durante meses, de modo que, se Browner tivesse que endereçar um pacote à srta. Sarah, sem dúvida nenhuma usaria o antigo endereço. E agora o assunto começou a se esclarecer maravilhosamente. Sabíamos da existência de Browner, um homem impulsivo, de paixões fortes – lembre-se de que ele abandonou um emprego bem superior a fim de ficar mais perto da esposa; um homem também sujeito a bebedeiras ocasionais. Tínhamos motivo para supor que sua esposa fora assassinada e que um homem – possivelmente um homem do mar – também fora morto. Como motivo do crime surge-nos imediatamente o ciúme. Por que a srta. Sarah Cushing deveria receber as provas do crime? Provavelmente porque, durante sua estada em Liverpool, ela, de alguma forma, tinha participado dos acontecimentos que culminaram com a tragédia. Note que esta linha de navios aporta em Belfast, Dublin e Waterford; dessa forma, supondo-se que Browner tenha cometido o crime e embarcado em seguida no seu navio, o May Day, Belfast seria o primeiro lugar de onde ele poderia enviar sua terrível encomenda. Nesta altura, uma segunda solução seria possível, e embora a considere muito improvável, eu estava decidido a elucidá-la antes de seguir em frente. Um apaixonado frustrado poderia ter matado o sr. e sra. Browner, e a orelha masculina podia ser a do marido. Havia muitas objeções graves a esta teoria, mas era possível. Então mandei um telegrama ao meu amigo Algar, da polícia de Liverpool, e pedi-lhe para verificar se a sra. Browner estava em casa e se o marido tinha embarcado no May Day. Depois disso fomos para Wallington, visitar a srta. Sarah. Em primeiro lugar, eu estava curioso para ver até que ponto o tipo de orelha da família estava reproduzido nela. Além disso, é lógico, ela podia nos dar informações importantes, mas eu não estava muito convencido que ela iria fazê-lo. Ela deve ter ouvido falar no caso no dia anterior, já que toda Croydon falava do assunto, e ela mesma deve ter compreendido a quem se destinava o pacote. Se ela estivesse disposta a ajudar a polícia, já teria entrado em contato com as autoridades. Entretanto, era nosso dever visitá-la, e fomos. Descobrimos que a notícia da chegada do pacote – já que a doença dela data desse dia – teve um impacto enorme sobre ela, até mesmo provocando uma febre cerebral. Estava mais do que claro que ela percebera o significado, mas também estava claro que nós teríamos de esperar algum tempo até recebermos alguma ajuda da parte dela. Em todo caso, não dependeríamos totalmente dela. Tínhamos respostas à nossa espera na delegacia, para onde pedi que Algar as enviasse. Nada podia ser mais conclusivo. A casa da sra. Browner estava fechada havia mais de três dias e os vizinhos achavam que ela viajara para o sul, para visitar parentes. Verificou-se nos escritórios da companhia que Browner partira a bordo do May Day e eu calculo que ele esteja no Tâmisa amanhã à noite. Quando ele chegar, o obtuso mas decidido Lestrade estará esperando por ele, e eu não tenho nenhuma dúvida de que completaremos todos os detalhes.

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