Бесплатная библиотека
Читайте книгу на сайте или телефоне

Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
1 ... 10 11 12 13 14 15 16 17 18 ... 59
Перейти на страницу:

Uma hora se passa. Mikhail olha o relógio e vejo que irá partir. Tenho que fazer alguma coisa - imediatamente. Cada vez que o olho me sinto mais

insignificante, e entendo menos como é que Esther me trocou por alguém que parece tão fora da realidade (ela mencionava que ele tinha poderes “mágicos”).

Mesmo que seja muito difícil fingir que estou à vontade, conversando com

alguém que é meu inimigo, preciso fazer algo.

- Vamos saber algo mais de nosso leitor - digo para a mesa, que fica

imediatamente em silêncio. - Ele está aqui, vai ter que ir embora daqui a pouco, quase não falou de sua vida. O que você faz?

Mikhail, apesar das vodcas que tomou, parece recuperar a sobriedade.

- Organizo encontros no restaurante armênio.

- O que isso quer dizer?

- Que conto histórias no palco. E deixo que as pessoas na platéia também

contem suas histórias.

- Eu faço a mesma coisa em meus livros.

- Eu sei. Foi isso que fez com que me aproximasse...

Ele vai dizer quem é!

- Nasceu aqui? - pergunta Marie, interrompendo imediatamente a

continuação da frase (“... que me aproximasse de sua mulher”.).

- Nasci nas estepes do Casaquistão.

Casaquistão. Quem vai ter coragem de perguntar onde é o Casaquistão?

- Onde é o Casaquistão? - pergunta o representante de vendas.

Bem-aventurados os que não têm medo de esconder aquilo que não sabem.

- Eu já esperava por esta pergunta - e agora os olhos de Mikhail

demonstram uma certa alegria. - Sempre quando digo que nasci ali, dez minutos depois estão dizendo que venho do Paquistão, do Afeganistão. Meu país fica na Ásia Central. São apenas 14 milhões de habitantes para uma superfície muitas vezes maior que a França, com seus 60 milhões.

- Ou seja, um lugar onde ninguém reclama de falta de espaço - comenta

meu editor, rindo.

- Um lugar onde, durante o século XX, ninguém tinha o direito de reclamar de nada, mesmo que quisesse. Primeiro, quando o regime comunista acabou com a propriedade privada, o gado ficou abandonado nas estepes, e 48,6% dos

habitantes morreram de fome. Vocês entendem? Quase a metade da população do meu país morreu de fome entre 1932 e 1933.

O silêncio toma conta da mesa. Afinal, tragédias atrapalham a

comemoração, e um dos presentes resolve mudar de assunto. Entretanto, eu

insisto que o “leitor” continue falando do seu país.

- Como é a estepe? - pergunto.

- Gigantescas planícies quase sem vegetação, você deve saber.

Eu sei, mas era minha vez de perguntar algo, manter a conversa.

- Me lembrei algo sobre o Casaquistão - diz meu editor. -Há algum tempo,

recebi um manuscrito de algum escritor que mora ali, descrevendo os testes atômicos que foram realizados

- Nosso país tem sangue em sua terra, e em sua alma. Mudou o que não

podia ter mudado, e pagaremos o preço disso por muitas gerações. Conseguimos fazer com que um mar inteiro desaparecesse.

E a vez de Marie interferir.

- Ninguém faz desaparecer um mar.

- Tenho 25 anos, e demorou apenas este tempo, uma simples geração, para

que a água que estava ali há milênios se transformasse em poeira. Os governantes do regime comunista resolveram mudar o curso de dois rios, Amu-Darya e Syr-Darya, de modo que pudessem irrigar algumas plantações de algodão. Não

conseguiram seu objetivo, mas era tarde demais - o mar deixou de existir, e a terra cultivada se transformou em deserto.

“A falta de água afetou por completo o clima local. Hoje em dia,

gigantescas tempestades de areia espalham 150 mil toneladas de sal e de pó todo ano. Cinqüenta milhões de pessoas em cinco países foram afetadas pela decisão irresponsável - mas irreversível - dos burocratas soviéticos. O pouco que sobrou de água é poluída, foco de todo tipo de doença.”

Anotei mentalmente o que dizia. Podia ser útil para alguma de minhas

conferências. Mikhail continuou, e seu tom nada tinha de ecológico, mas de trágico.

- Conta meu avó que o mar de Arai era antigamente chamado de mar Azul,

por causa da cor de sua água. Hoje já não está mais lá, e mesmo assim as pessoas não querem deixar suas casas e mudar-se para outro locaclass="underline" ainda sonham com as ondas, os peixes, ainda guardam suas varas de pescar e conversam sobre barcos e iscas.

- Mas, as explosões atômicas, é mesmo verdade? - insiste meu editor.

- Penso que todos que nasceram em meu país sabem o que sua terra sentiu,

porque todo casaque tem sua terra no sangue. Durante 40 anos as planícies foram sacudidas por bombas nucleares ou termonucleares, num total de 456 até 1989.

Destas explosões, 116 foram feitas em espaço aberto, somando uma potência 2.500 vezes maior que a bomba que foi jogada na cidade japonesa de Hiroshima, durante a II Guerra Mundial. O resultado é que milhares de pessoas foram

contagiadas com radioatividade, câncer no pulmão, enquanto nasciam outros milhares de crianças com deficiências motoras, ausência de membros ou

problemas mentais.

Mikhail olha o relógio.

- Se me permitem, preciso ir.

Metade da mesa lamenta, a conversa estava ficando interessante. A outra

metade fica contente: é um absurdo falar de coisas trágicas em uma noite tão alegre.

Mikhail cumprimenta todos com um aceno de cabeça e me abraça. Não

porque sente um afeto especial por mim, mas para poder sussurrar:

- Como eu disse antes, ela está bem. Não se preocupe.

ão se preocupe, ele me disse! Por que estaria preocupado: por uma

mulher que me abandonou? Que me fez ser interrogado pela

-N polícia, sair na primeira pagina de jornais e revistas de escândalo, sofrer dias e noites, quase perder meus amigos, e...

-... e escrever Tempo de rasgar, tempo de costurar. Por favor, somos adultos, vividos, não vamos ficar nos enganando: claro que você gostaria de saber como ela está.

“E vou mais longe ainda: você quer vê-la.”

- Se sabe disso, por que facilitou meu encontro com ele? Agora tenho uma

pista: se apresenta todas as quintas-feiras no tal restaurante armênio.

- Muito bem. Siga em frente.

- Você não me ama?

- Mais do que ontem e menos do que amanhã, como diz um destes cartões-

postais que compramos em papelarias. Sim, eu te amo. Na verdade, estou

perdidamente apaixonada, começo a pensar em mudar-me para cá, para este

gigantesco e solitário apartamento - e sempre que toco no tema, quem muda é você... de assunto. Mesmo assim, esqueço meu amor-próprio e insinuo como

seria importante vivermos juntos, escuto que ainda é cedo para isso, penso que talvez sinta que pode perder-me como perdeu Esther, ou que ainda espera sua volta, ou que será privado de sua liberdade, tem medo de ficar sozinho e tem medo de ficar acompanhado - enfim, uma loucura completa essa nossa relação.

Mas, já que perguntou, essa é a resposta: te amo muito.

- Então, por que fez isso?

- Porque não posso conviver eternamente com o fantasma da mulher que

partiu sem explicações. Li seu livro. Acredito que, somente quando encontrá-la, quando resolver este assunto, seu coração poderá ser realmente meu.

“Foi isso que aconteceu com meu vizinho: eu o tinha perto o suficiente para ver como foi covarde com nossa relação, como jamais assumiu o que ele tanto desejava, mas achava perigoso demais para ter. Muitas vezes você disse que a liberdade absoluta não existe: o que existe é a liberdade de escolher qualquer coisa, e a partir daí tornar-se comprometido com sua decisão. Quanto mais estava perto do meu vizinho, mais admirava você: um homem que aceitou continuar

1 ... 10 11 12 13 14 15 16 17 18 ... 59
Перейти на страницу:
0
Сюжет
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
0
Атмосфера
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
0
Главный герой
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
0
Общее впечатление
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
Итоговая оценка: 0.0 из 10 (голосов: 0 / История оценок)