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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Devo lembrar que, depois do meu casamento e do início na clínica particular, as relações estreitas que eu tinha com Holmes modificaram-se até certo ponto. Ele ainda me procurava de tempos em tempos, quando desejava um companheiro nas suas investigações, mas essas ocasiões tornaram-se cada vez mais raras, até que no ano de 1890 registrei apenas três casos. No inverno daquele ano e no início da primavera de 1891, 1i nos jornais que ele fora contratado pelo governo francês para investigar um assunto de suprema importância, e recebi dois bilhetes dele, um de Narbonne e outro de Nîmes, dos quais depreendi que sua estada na França seria longa. Foi com certa surpresa, portanto, que eu o vi entrar no meu consultório na noite de 24 de abril. Pareceu-me mais pálido e magro que de costume.

– Sim, tenho trabalhado demais – comentou, mais em resposta ao meu olhar que às minhas palavras. – Tenho sido um tanto pressionado ultimamente. Importa-se que eu feche as venezianas?

A única luz da sala provinha da lâmpada sobre a mesa, junto à qual eu estava lendo. Holmes, andando devagar junto à parede, fechou as venezianas com um gesto brusco e trancou-a com a barra.

– Está com medo de alguma coisa? – perguntei.

– Estou, sim.

– De quê?

– Pistolas de ar.

– Meu caro Holmes! O que quer dizer com isso?

– Você me conhece o suficiente, Watson, para saber que não sou absolutamente um homem nervoso. Ao mesmo tempo, é estupidez e não coragem ignorar um perigo que está próximo. Quer me dar um fósforo?

Deu uma profunda tragada no cigarro, como se ficasse grato ao seu efeito tranqüilizador.

– Devo me desculpar pela visita tardia e suplicar que seja suficientemente desprovido de preconceitos para permitir que eu saia daqui a pouco de sua casa saltando o muro dos fundos.

– Mas o que significa tudo isso?

Estendeu a mão e vi à luz da lâmpada que os nós de dois dedos estavam arranhados e sangrando.

– Como vê, não se trata de ninharia – falou, sorrindo. – Pelo contrário, é bastante sólido para quebrar a mão de um homem. A sra. Watson está em casa?

– Está fora, visitando a família.

– Verdade? Então está sozinho?

– Inteiramente.

– Então fica mais fácil propor que passe uma semana comigo no Continente.

– Onde?

– Em qualquer lugar. Não faz diferença.

Havia alguma coisa muito estranha naquela história. Holmes não costumava tirar férias sem objetivo, e algo no seu rosto pálido e abatido me dizia que seus nervos estavam em extrema tensão. Leu a pergunta nos meus olhos e, juntando as pontas dos dedos e apoiando os cotovelos nos joelhos, explicou a situação.

– E provável que nunca tenha ouvido falar no professor Moriarty.

– Nunca.

– Sim, este é o engenho e a maravilha de toda a história! O homem permeia Londres e ninguém ouviu falar nele. É isto que o coloca no ápice dos registros criminais. Afirmo com toda seriedade, Watson, que se eu pudesse derrotar esse homem, livrar a sociedade dele, acharia que a minha carreira havia chegado ao auge e estaria disposto a adotar um estilo de vida mais sereno. Cá entre nós, os casos recentes em que fui útil à família real da Escandinávia e à República da França deixaram-me em condições de viver uma vida tranqüila, que é mais do meu agrado, concentrando-me em pesquisas químicas. Mas não poderia descansar, Watson, não ficaria sentado tranqüilo na minha poltrona se soubesse que um homem como o professor Moriarty anda impunemente pelas ruas de Londres.

– O que ele fez?

– Sua carreira é extraordinária. É um homem bem-nascido e de excelente cultura, dotado pela natureza de um talento matemático excepcional. Com 21 anos escreveu um tratado sobre o Teorema Binário, que fez sucesso na Europa inteira. Com base nisso conquistou a cátedra de Matemática numa de nossas universidades menores e, ao que tudo indicava, tinha pela frente uma carreira brilhante. Mas suas tendências hereditárias são do tipo diabólico. Há uma disposição criminosa no seu sangue que, em vez de se modificar, ficou mais acentuada, tornando-se infinitamente mais perigosa devido à sua extraordinária capacidade mental. Boatos sinistros espalharam-se pela cidade universitária e ele acabou sendo obrigado a renunciar à cátedra e vir para Londres, onde se estabeleceu como instrutor do Exército. Isto é o que se sabe em geral. Mas o que vou contar agora é o que eu descobri.

– Como você sabe, Watson, ninguém conhece tão bem como eu os altos círculos criminais de Londres. Há anos venho percebendo uma força por trás do criminoso, um grande talento organizador que procura obstruir a ação da Justiça e proteger o malfeitor. Repetidamente, em casos dos mais variados tipos – falsificação, roubo, homicídio – senti a presença dessa força e percebi sua ação em muitos dos crimes não-solucionados em que não fui pessoalmente consultado. Há anos tento rasgar o véu que encobre isso, e finalmente consegui encontrar o fio da meada e segui-lo. E ele me conduziu, após mil voltas tortuosas, ao ex-professor Moriarty, a celebridade matemática.

– Ele é o Napoleão do crime, Watson. É o organizador de metade do que há de maligno e de quase tudo que passa despercebido nesta grande cidade. É um gênio, um filósofo, um pensador abstrato. Sua inteligência é excepcional. Fica imóvel como uma aranha no centro da teia, mas a teia tem milhares de ramificações, das quais ele conhece cada tremor. Ele mesmo pouco faz. Apenas planeja. Mas seus agentes são numerosos e esplendidamente organizados. Se há um crime a cometer, um documento a roubar, uma casa a ser invadida, um homem a ser liquidado – a informação é transmitida ao professor, o negócio organizado e executado. O agente pode ser surpreendido. Neste caso surge dinheiro para a fiança ou a defesa. Mas o poder central que utiliza o agente nunca é apanhado. Nem sequer se suspeita quem seja. Foi esta a organização que encontrei por dedução, Watson, dedicando toda a minha energia a desmascará-la e dissolvê-la.

– Mas o professor está rodeado de salvaguardas tão habilmente arquitetadas que, por mais que eu tentasse, parecia impossível obter provas que o condenassem num tribunal. Conhece meus talentos, meu caro Watson, e no entanto, depois de três meses fui obrigado a admitir que havia encontrado finalmente um adversário do meu nível intelectual. Meu horror diante de seus crimes transformou-se na admiração de sua habilidade. Mas finalmente ele cometeu um erro – um pequeno erro – que foi demais para ele, porque eu estava bem próximo, no seu encalço. Surgiu a oportunidade e, a partir desse ponto, teci minha rede em volta dele e agora está tudo pronto para fechá-la. Dentro de três dias, ou seja, na próxima segunda-feira, o caso estará no ponto, e o professor, com todos os principais integrantes da sua gangue, cairá nas mãos da polícia. Haverá então o maior julgamento criminal do século, o esclarecimento de mais de quarenta mistérios, e forca para todos. Mas se agirmos antes da hora, eles podem escapulir de nossas mãos no último instante.

– Se eu pudesse ter feito isso sem que o professor Moriarty soubesse, tudo correria bem. Mas ele era esperto demais para isso. Percebeu todas as minhas ações para lançar a rede à sua volta. Tentou escapulir várias vezes, mas eu o impedi. Se uma narrativa detalhada desta luta silenciosa fosse escrita, estaria entre os duelos mais brilhantes da história policial. Nunca cheguei antes a esse ponto, e nunca fui tão pressionado pelo adversário. Ele deu golpes fundos, mas consegui solapá-lo. Esta manhã tomei as últimas providências e faltam apenas três dias para terminar o caso. Estava sentado em meu quarto, refletindo sobre o assunto, quando a porta se abriu e o professor Moriarty surgiu na minha frente.

– Meus nervos são firmes, Watson, mas confesso que estremeci ao ver o próprio homem que estivera tão presente nos meus pensamentos ali, na soleira da minha porta. Sua aparência era bastante familiar. Muito alto e magro, sua testa forma uma curva branca e os olhos são profundamente engastados no rosto escanhoado. Pálido e de expressão ascética, conserva nos seus traços alguma coisa do professor. Os ombros são curvados em conseqüência de muito estudo e a cabeça inclina-se para a frente, sempre oscilando de um lado para o outro, como um réptil. Ficou me observando com grande curiosidade nos olhos de pálpebras franzidas.

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