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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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De manhã segui ao pé da letra as instruções de Holmes. O cabriolé foi escolhido com tantas precauções que não poderia ter sido colocado ali para nós. Logo após o café fui para Lowther Arcade, que atravessei a toda a velocidade. Uma carruagem estava à espera, dirigida por um cocheiro robusto envolto numa capa preta. No instante em que entrei ele chicoteou o cavalo e saiu em disparada para a estação de Victoria. Quando desci, ele manobrou a carruagem e partiu sem olhar na minha direção.

Até então tudo havia corrido perfeitamente. A bagagem estava à minha espera e não tive dificuldade em descobrir o vagão indicado por Holmes, tanto mais que era o único do trem com a placa de “Reservado”. Meu único motivo de ansiedade era o fato de Holmes não ter aparecido. O relógio da estação mostrava que faltavam apenas sete minutos para a hora da partida. Procurei inutilmente entre os grupos de viajantes e as pessoas que deles se despediam o vulto esguio do meu amigo. Não vi sinal dele. Passei alguns minutos ajudando um venerável padre italiano, que tentava em mau inglês fazer o carregador compreender que a bagagem devia ser remetida para Paris. Depois, olhando em torno mais uma vez, voltei ao vagão, onde descobri que o carregador, apesar do aviso, havia me dado o padre italiano como companheiro de viagem. Expliquei que sua presença era uma intromissão, mas inutilmente, pois meu italiano era ainda mais limitado que o inglês dele, de modo que encolhi os ombros, resignado, e continuei a olhar pela janela, à espera do meu amigo. Tive um arrepio de medo quando pensei que sua ausência poderia significar um golpe ocorrido durante a noite. As portas já estavam fechadas e o apito soou quando...

– Meu caro Watson, você nem sequer se dignou desejar-me bom-dia – disse uma voz.

Virei-me, num espanto incontrolável. O idoso clérigo voltou o rosto para mim. No mesmo instante as rugas desapareceram, o nariz se afastou do queixo, o lábio inferior recolheu-se, a boca deixou de murmurar, os olhos baços recuperaram o brilho, a silhueta encurvada endireitou-se. Logo em seguida, toda a estrutura desabou novamente, e Holmes desapareceu tão depressa quanto havia aparecido.

– Meu Deus! – exclamei. – Você me assustou.

– Todas as precauções são necessárias – murmurou. – Tenho motivos para acreditar que estão na minha pista. Ah, lá vem o próprio Moriarty.

O trem já tinha começado a se mover. Olhando para trás, vi um homem alto abrindo caminho furiosamente entre a multidão, agitando a mão como se quisesse fazer parar o trem. Tarde demais, pois ganhávamos velocidade rapidamente e logo depois saíamos da estação.

– Apesar de todas as precauções, escapamos por pouco, você vê – disse Holmes, rindo.

Levantou-se e, despindo a batina preta e o chapéu que faziam parte do disfarce, guardou-os numa valise.

– Leu o jornal da manhã, Watson?

– Não.

– Então não soube do que aconteceu em Baker Street?

– Baker Street?

– Atearam fogo ao nosso apartamento ontem à noite. Não houve grande prejuízo.

– Meu Deus, Holmes! Isso é intolerável!

– Devem ter perdido completamente a minha pista depois que prenderam o meu agressor, do contrário não imaginariam que eu voltaria para casa. Mas tomaram a precaução de vigiar você e foi isso que trouxe Moriarty à estação de Victoria. Teria cometido algum deslize na vinda?

– Fiz exatamente o que você sugeriu.

– Encontrou a carruagem?

– Encontrei. Estava esperando.

– Reconheceu o cocheiro?

– Não.

– Era o meu irmão Mycroft. Em casos deste tipo é uma vantagem circular sem a ajuda de um mercenário. Mas precisamos planejar agora o que faremos com Moriarty.

– Este trem é expresso e, como faz conexão com o vapor, creio que nos livramos completamente dele.

– Meu caro Watson, é evidente que não percebeu o que eu queria dizer quando afirmei que esse homem é meu equivalente intelectual. Acha que se fosse eu o perseguidor me deixaria dissuadir por um obstáculo tão insignificante? Por que o menospreza a tal ponto?

– O que ele fará?

– O que eu faria.

– O que você faria, então?

– Tomaria um trem especial.

– Mas deve ser tarde.

– De modo algum. Este trem pára em Canterbury e é preciso esperar pelo menos um quarto de hora pelo vapor. Ele nos alcançará ali.

– Até parece que somos nós os criminosos. Vamos mandar prendê-lo assim que chegarmos.

– Seria arruinar o trabalho de três meses. Pegaríamos o peixão, mas os peixinhos escapariam por todas as malhas da rede. Na segunda-feira pegaremos todos. Não, prendê-lo é inadmissível.

– Então, o que faremos?

– Saltaremos em Canterbury.

– E depois?

– Depois seguiremos até Newhaven e de lá para Dieppe. Moriarty fará novamente o que eu faria. Seguirá para Paris, descobrirá a nossa bagagem e aguardará dois dias no depósito. Enquanto isso, compraremos duas malas de pano, incentivaremos os fabricantes dos países pelos quais viajarmos, e seguiremos tranqüilamente para a Suíça, via Luxemburgo e Basiléia.

Sou um viajante muito experimentado para me importar com a perda de bagagem, mas confesso que me aborreci com a idéia de ser obrigado a fazer desvios e a me esconder de um homem cuja ficha era negra de incontáveis infâmias. Mas era evidente que Holmes entendia a situação com mais clareza que eu. Portanto saltamos em Canterbury, descobrindo que precisaríamos esperar uma hora pelo trem para Newhaven.

Eu ainda olhava com melancolia o trem que desaparecia rapidamente com a minha bagagem quando Holmes puxou-me pela manga e apontou para a linha.

– Já está chegando, vê?

Ao longe, entre as florestas de Kent, erguia-se uma fina coluna de fumaça. Um minuto depois avistamos um vagão e a locomotiva voando pela curva ampla que terminava na estação. Mal tivemos tempo para nos esconder atrás de uma pilha de bagagem quando o trem passou ruidoso, lançando um jorro de ar quente no nosso rosto.

– Lá vai ele – disse Holmes, enquanto observávamos o vagão oscilando sobre os dormentes. – Há limites para a inteligência do nosso amigo, como vê. Seria um golpe de mestre se ele tivesse deduzido o que eu deduzi e agido de acordo.

– E o que ele teria feito se nos alcançasse?

– Não há a menor dúvida de que me mataria. Contudo, o jogo é para duas pessoas. A questão agora é saber se devemos fazer um almoço antecipado aqui ou correr o risco de morrer de fome antes de chegarmos ao de Newhaven.

Viajamos para Bruxelas naquela noite e passamos dois dias na cidade, seguindo no terceiro dia para Estrasburgo. Na manhã de segunda-feira Holmes telegrafou para a polícia de Londres e à noite encontramos a resposta à nossa espera no hotel. Ele rasgou o envelope e, com uma praga, atirou o telegrama na lareira.

– Eu devia ter adivinhado! – gemeu. – Ele escapou!

– Moriarty?

– Prenderam toda a gangue, menos ele. Escapuliu. É claro que quando saí do país, não sobrou ninguém capaz de enfrentá-lo. Mas pensei que havia colocado toda a jogada nas mãos deles. Acho que é melhor você voltar para a Inglaterra, Watson.

– Por quê?

– Porque de agora em diante serei uma companhia perigosa. Aquele homem não tem mais o que fazer. E está perdido se voltar a Londres. Se conheço bem o temperamento dele, vai concentrar todas as energias em se vingar de mim. Foi o que disse em nossa rápida conversa e acho que falava sério. Volte para a sua clientela, é o que recomendo.

Não era uma sugestão atraente para um velho lutador e também um velho amigo. Sentados na sala de jantar em Estrasburgo, discutimos a questão durante meia hora, mas na mesma noite continuamos a viagem, seguindo para Genebra.

Durante uma semana muito agradável passeamos pelo vale do Ródano. Depois, mudando de direção em Leuk, seguimos para o Passo Gemmi, ainda coberto de neve, e dali, atravessando Interlaken, chegamos a Meiringen. Foi uma viagem encantadora. Embaixo, o verde frágil da primavera e, no alto, o branco virgem do inverno; mas eu sabia que nem por um instante Holmes esquecia a sombra que o ameaçava. Nas acolhedoras aldeias alpinas, ou nos solitários passos das montanhas eu percebia, pelo rápido exame de todas as fisionomias que cruzavam o nosso caminho, que ele estava convencido de uma coisa: por mais que viajássemos, não conseguiríamos nos livrar do perigo que seguia nossos passos.

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