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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Não, era uma faca. Vi nitidamente o brilho da lâmina.

– Mas por que alguém o perseguiria com tanta hostilidade?

– Ah, esta é a questão!

– Se Holmes for da mesma opinião, isso explicará sua maneira de agir, não acha? Supondo que sua teoria esteja correta, se ele agarrar o homem que o ameaçou ontem à noite, terá feito grande progresso no sentido de descobrir quem roubou o tratado naval. É absurdo supor que você tenha dois inimigos, um que o rouba enquanto o outro ameaça sua vida.

– Mas o sr. Holmes disse que não ia a – Eu o conheço há algum tempo e nunca soube que fizesse algo sem um bom motivo.

E com isso nossa conversa passou para outros temas.

Mas o dia foi cansativo para mim. Phelps ainda estava debilitado em conseqüência da doença prolongada e seus problemas o haviam deixado irritadiço e nervoso. Procurei inutilmente interessá-lo no Afeganistão, na Índia, em questões sociais, em qualquer coisa que afastasse seus pensamentos do problema. Voltava sempre ao tratado perdido, ruminando, imaginando, especulando sobre o que Holmes estaria fazendo, que medidas lorde Holdhurst tomaria e que notícias receberíamos pela manhã. Ao anoitecer, seu nervosismo tornou-se doloroso.

– Tem confiança implícita em Holmes? – ele perguntou.

– Eu o vi fazer coisas extraordinárias.

– Mas já chegou a esclarecer um caso tão misterioso como este?

– Sem dúvida. Eu o vi resolver casos mais intrincados que este.

– Mas estavam em jogo interesses tão grandes?

– Isso eu não sei. Mas sei com certeza que atuou por solicitação de três das casas reinantes européias em questões de importância vital.

– Você o conhece bem, Watson. É um sujeito tão enigmático que nunca sei exatamente o que pensar dele. Acha que ele está otimista? Que espera bons resultados?

– Ele não disse nada.

– Mau sinal.

– Pelo contrário. Notei que quando está desnorteado sempre o demonstra. Quando está seguindo uma pista mas ainda não tem certeza de que seja a correta é que ele fica mais taciturno. Agora, meu caro, não podemos ajudá-lo ficando nervosos. De modo que peço que vá se deitar para estar descansado amanhã, sejam quais forem os acontecimentos que nos aguardem.

Consegui finalmente convencê-lo a seguir meu conselho, embora soubesse que, como ele estava muito excitado, talvez não dormisse. E sua inquietação era contagiosa, porque eu também fiquei rolando na cama boa parte da noite, remoendo o estranho problema, elaborando uma centena de teorias, cada qual mais impossível que a outra. Por que Holmes ficara em Woking? Por que havia pedido à srta. Harrison para permanecer no quarto o dia inteiro? Por que tivera o cuidado de não informar aos moradores de que pretendia ficar nas proximidades? Fiquei quebrando a cabeça até adormecer, na tentativa de encontrar uma explicação que abrangesse todos os fatos.

Eram sete horas quando acordei e me dirigi imediatamente para o quarto de Phelps. Encontrei-o abatido e exausto após uma noite insone. A primeira coisa que fez foi perguntar se Holmes já havia chegado.

– Chegará na hora que prometeu, nem um minuto a menos ou a mais.

Minhas palavras estavam corretas. Pouco depois das oito horas, um cabriolé parou à porta e dele saltou nosso amigo. Da janela vimos que ele tinha a mão esquerda envolta em ataduras e estava muito sério e pálido. Entrou em casa, mas levou algum tempo para subir a escada.

– Parece um homem derrotado – exclamou Phelps.

Fui obrigado a confessar que ele tinha razão.

– Afinal, a pista do caso provavelmente está aqui na cidade.

Phelps gemeu.

– Não sei por quê, mas esperava muita coisa na volta dele. Não estava com a mão enrolada assim ontem. O que terá acontecido?

– Está ferido, Holmes? – perguntei, quando meu amigo entrou na sala.

– É só um arranhão, e por culpa minha – respondeu, cumprimentando-nos com um aceno de cabeça. – Este seu caso, sr. Phelps, é um dos mais misteriosos que já investiguei.

– Temia que o considerasse difícil demais.

– Foi uma experiência extraordinária.

– Essa atadura indica complicações – observei. – Quer nos contar o que aconteceu?

– Depois do café, meu caro Watson. Lembre-se de que respirei 45 quilômetros do ar de Surrey esta manhã. Suponho que não tenha chegado nenhuma resposta ao meu anúncio referente ao cabriolé. Bem, não se pode acertar sempre.

A mesa estava posta e, quando eu estava prestes a tocar a campainha, a sra. Hudson entrou com chá e café. Minutos depois trouxe as travessas cobertas e nós três nos sentamos à mesa. Holmes esfaimado, eu, curioso, e Phelps no mais sombrio estado depressivo.

– A sra. Hudson mostrou-se à altura da ocasião – observou Holmes, descobrindo um prato de galinha ao . – Sua é um tanto limitada, mas, como escocesa, tem uma boa idéia do que seja um O que é que você tem aí, Watson?

– Presunto e ovos – respondi.

– Ótimo. O que deseja, sr. Phelps? Galinha ao , ovos, ou o senhor mesmo se servirá?

– Obrigado. Não consigo comer nada.

– Ora, vamos! Experimente esse prato que está na sua frente.

– Não, obrigado. Prefiro não comer mesmo.

– Neste caso – disse Holmes, com uma piscadela maliciosa – não fará objeção a me ajudar a servir.

Phelps ergueu a tampa e na mesma hora deu um grito e ficou imóvel, tão pálido quanto a travessa que olhava. Sobre ela estava um pequeno cilindro de papel azul-acinzentado. Pegando-o, devorou-o com os olhos e em seguida começou a dançar loucamente pela sala, apertando-o contra o peito e gritando de alegria. Logo depois deixou-se cair numa poltrona, tão enfraquecido e exausto das próprias emoções que precisamos obrigá-lo a tomar para evitar que desmaiasse.

– Calma! Calma! – disse Holmes em tom tranqüilizador, batendo-lhe no ombro. – Foi um erro apresentá-lo assim tão bruscamente. Mas Watson dirá que nunca resisto a um toque dramático.

Tomando-lhe a mão, Phelps beijou-a.

– Que Deus o abençoe! Salvou a minha honra.

– Bem, a minha também estava em jogo. Garanto que é tão odioso para mim fracassar num caso como seria para o senhor falhar numa missão.

Phelps guardou o precioso documento no bolso interno do casaco.

– Não tenho coragem de adiar por mais tempo o seu mas estou louco para saber como o conseguiu e onde o encontrou.

Sherlock Holmes tomou uma xícara de café e concentrou-se no presunto com ovos. Depois, levantando-se, acendeu o cachimbo e instalou-se na sua poltrona.

– Vou contar primeiro o que fiz e então como o consegui. Depois de deixá-los na estação fiz um agradável passeio pela admirável paisagem de Surrey até uma aldeia encantadora chamada Ripley, onde tomei chá na estalagem, tendo a precaução de encher meu frasco de bolso e acrescentar alguns sanduíches. Fiquei ali até a noite, quando voltei a Woking. Cheguei à estrada que passa por pouco depois de escurecer.

Esperei até que o caminho ficasse deserto – não é muito movimentado em hora nenhuma do dia, parece-me. Depois, pulei o muro e entrei no jardim.

– O portão não estava aberto? – perguntou Phelps.

– Estava, mas tenho tendências peculiares nesses assuntos. Escolhi o lugar onde ficam os três abetos e, protegido por eles, aproximei-me sem ser visto por ninguém da casa. Agachei-me entre os arbustos e rastejei de um para o outro – prova disso é o estado lamentável dos joelhos das minhas calças – até chegar a uma moita de rododendros bem em frente à janela do seu quarto. Ali, agachado, aguardei os acontecimentos.

– A veneziana não estava abaixada e vi a srta. Harrison lendo junto à mesa. Eram 22:15h quando ela fechou o livro, abaixou as venezianas e saiu. Ouvi quando ela fechou a porta e tive certeza de que havia girado a chave na fechadura.

– A chave? –  exclamou Phelps.

– Sim. Dei instruções à srta. Harrison para trancar a porta pelo lado de fora e levar a chave quando fosse dormir. Ela cumpriu rigorosamente todas as minhas ordens e sem a sua cooperação esse papel não estaria agora no seu bolso. Ela saiu, as luzes se apagaram e eu permaneci agachado na moita de rododendros.

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