Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
Certa vez – lembro-me –, quando cruzávamos o Gemmi e caminhávamos às margens do melancólico Daubensee, uma pedra grande se deslocou da encosta à nossa direita, rolou e caiu no lago atrás de nós. No mesmo instante Holmes subiu correndo a encosta e, de pé num ponto elevado, olhou em todas as direções. Em vão, nosso guia assegurou-lhe que a queda de uma pedra era um fato corriqueiro na primavera, naquele ponto. Ele não disse nada, mas sorriu para mim com o ar de quem vê a realização daquilo que esperava.
Mas, mesmo conservando-se alerta, nunca se mostrou deprimido. Pelo contrário, não me lembro de tê-lo visto tão exuberante. Aludia repetidamente ao fato de que, se pudesse ter certeza de que a sociedade se livraria do professor Moriarty, ele encerraria alegremente a sua carreira.
– Chegaria a dizer, Watson, que não vivi de todo em vão – observou. – Se meus registros fossem encerrados esta noite, eu olharia o fato com serenidade. O ar de Londres é mais suave por causa de minha presença. Em mais de mil casos, creio que não usei meus talentos nem uma só vez do lado errado. Ultimamente tenho sido tentado a estudar os problemas da natureza, e não os mais superficiais, produtos de nossa sociedade artificial. Suas memórias estarão encerradas, Watson, no dia em que eu coroar a minha carreira com a captura ou a eliminação do mais perigoso e inteligente criminoso da Europa.
Serei breve, mas exato, no pouco que me resta contar. Não é um assunto em que me demore de boa vontade, mas sei que tenho o dever de não omitir nenhum detalhe.
Foi no dia 3 de maio que chegamos à aldeia de Meiringen, onde nos hospedamos no Englisher Hof, então administrado por Peter Steiler, pai. Nosso anfitrião era um homem inteligente e falava um inglês excelente, pois trabalhara durante três anos como garçom no Grosvenor Hotel de Londres. Seguindo o seu conselho, saímos juntos na tarde do dia 4, com a intenção de transpor as colinas e passar a noite na aldeia de Rosenlaui. Recebemos recomendações insistentes para não ultrapassarmos de modo algum as quedas de Reichenbach, que ficam no meio da subida da montanha, sem fazer um pequeno desvio para admirá-las.
Na verdade, é um lugar assustador. A torrente, aumentada pela neve derretida, mergulha num tremendo abismo, de onde a espuma jorra como fumaça de uma casa em chamas. A garganta onde o rio se projeta é uma brecha profunda, cercada de rochedos brilhantes, negros como carvão, que vai se estreitando até formar um poço fervilhante de profundidade incalculável. O poço transborda e lança a torrente para diante por cima de sua borda irregular. O longo jato de água verde que desce ruidosamente sem cessar e a espessa cortina de espuma saltando eternamente para o alto deixam as pessoas tontas com o seu constante rodopio e clamor. De pé junto à borda, observamos as cintilações da água caindo lá embaixo, sobre as pedras negras, e ouvimos o grito meio humano que subia do abismo juntamente com a espuma.
A trilha contorna uma parte da queda para permitir sua visão completa, mas termina bruscamente, e o viajante é obrigado a voltar por onde veio. Tínhamos começado o caminho de volta quando avistamos um rapazinho suíço que se aproximava correndo com uma carta na mão. O papel trazia o timbre do hotel que acabávamos de deixar e era dirigida a mim pelo hoteleiro. Minutos depois de sairmos, chegara uma senhora inglesa nos últimos estágios da tuberculose; passara o inverno em Davos Platz e viajava para se encontrar com amigos em Lucerna quando sofrera uma súbita hemorragia. Achavam que só viveria algumas horas, mas seria um grande consolo para ela ver um médico inglês, e se eu pudesse voltar etc. etc... O bom Steiler afirmou num que ele próprio consideraria um grande favor pessoal, já que a senhora se recusava terminantemente a consultar um médico suíço, e ele sentia que tinha grande responsabilidade no caso.
O apelo era do tipo que eu não podia ignorar. Impossível recusar o pedido de uma compatriota que morria em terra estrangeira. Contudo, tive escrúpulos em abandonar Holmes. Combinamos, finalmente, que ele ficaria com o jovem mensageiro suíço como guia e companheiro até que eu voltasse de Meiringen. Meu amigo ficaria algum tempo na catarata e depois seguiria devagar pela montanha na direção de Rosenlaui, onde eu me encontraria com ele à noite. Quando me virei, vi Holmes, encostado numa pedra e com os braços cruzados, olhando a torrente. Esta deveria ser a última vez que o veria neste mundo.
Quando eu estava perto do fim da descida, olhei para trás. Era impossível, daquele ponto, ver a queda, mas avistei a trilha em curva que contorna a montanha e chega até ela. Um homem caminhava rapidamente pela trilha, lembro-me bem. Vi sua silhueta escura nitidamente desenhada contra o fundo verde. Reparei nele e na energia com que caminhava, mas sumiu da minha mente quando apressei o passo para voltar ao hotel.
Talvez tenha levado pouco mais de uma hora para chegar a Meiringen. O velho Steiger estava na entrada do hotel.
– Espero que ela não tenha piorado – disse, aproximando-me depressa.
Uma expressão de surpresa surgiu no rosto dele, e ao primeiro tremor de suas sobrancelhas, meu coração pesou como chumbo.
– Não escreveu isto? – perguntei, tirando a carta do bolso. Não há nenhuma inglesa doente no hotel?
– Claro que não – exclamou. – Mas o papel tem o cabeçalho do hotel! Ah, deve ter sido escrita por aquele inglês alto que chegou depois que vocês saíram. Ele disse...
Mas não esperei as explicações do hoteleiro. Apavorado, eu já corria pela rua da aldeia em direção à trilha que acabara de descer. Levara uma hora para voltar. Apesar de todos os meus esforços, duas se passaram até que eu chegasse novamente à catarata de Reichenbach. Vi o bastão de Holmes ainda apoiado à rocha onde o tinha deixado, mas não havia sinal dele. Gritei inutilmente. A única resposta foi o eco de minha voz reverberando pelas montanhas.
Foi a visão do bastão que me deixou gelado e tonto. Ele não tinha seguido para Rosenlaui. Permanecera naquela trilha de 1 metro, com a parede a pique de um lado e o abismo do outro, até que seu inimigo o alcançasse. O jovem suíço também desaparecera. Estava a soldo de Moriarty, provavelmente, e deixara os dois juntos. O que teria acontecido, então? Quem iria contar o que aconteceu?
Fiquei ali um ou dois minutos procurando controlar-me, pois estava dominado pelo horror. Lembrei-me então dos métodos do próprio Holmes e tentei usá-los para reconstituir a tragédia. Era bem fácil, infelizmente! Durante a nossa conversa não tínhamos ido até o final da trilha, e o bastão marcava o ponto onde havíamos parado. O solo enegrecido fica permanentemente macio por causa do jorro incessante de espuma e até um pássaro deixaria ali a sua marca. Dois pares de pegadas estavam nitidamente impressos na trilha, afastando-se de onde eu me encontrava. Nenhum voltava. A alguns metros do final, o solo estava enlameado e pisoteado, os arbustos e plantas que ladeavam o abismo, quebrados e enlameados. Deitei-me de bruços e espiei para baixo, com a espuma jorrando à minha volta. Havia escurecido e eu via apenas, aqui e ali, a cintilação da umidade nas paredes negras, e ao longe, nas profundezas da garganta, o brilho da água em torvelinho. Gritei, mas somente o grito meio humano da queda voltou aos meus ouvidos.
Mas queria o destino que, afinal, eu recebesse uma última palavra do meu amigo e camarada. Eu disse que o bastão estava encostado no rochedo que se projetava para a trilha. No alto desse rochedo, o brilho de alguma coisa chamou minha atenção e, erguendo a mão, encontrei a cigarreira de prata que ele costumava levar no bolso. Quando a peguei, um papel que estava embaixo voou e caiu no chão. Ao desdobrá-lo, vi que eram três páginas rasgadas do caderninho de notas e endereçadas a mim. Era característico de Holmes que o endereço fosse nítido, a caligrafia clara e firme como se ele estivesse escrevendo em seu escritório.