Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– É claro. Portanto, não havia marcas, embora a noite fosse chuvosa. A seqüência de acontecimentos é extremamente interessante. O que fez então?
– Examinamos também a sala. Não há possibilidade de uma porta secreta e as janelas ficam a uns 9 metros do chão. Ambas estavam fechadas por dentro. O tapete elimina a possibilidade de um alçapão e o teto é do tipo comum, caiado de branco. Aposto a minha vida que quem roubou os papéis só poderia ter passado pela porta.
– E a lareira?
– Não há lareira e sim uma estufa. A corda da campainha está presa ao fio à direita da minha mesa. Quem a tocou deve ter ido direto à escrivaninha. Mas por que um criminoso tocaria a campainha? É um mistério insolúvel.
– O incidente, com certeza, é incomum. O que fez em seguida? Examinou a sala, presumo, para ver se o intruso havia deixado vestígios – uma ponta de charuto, uma luva caída, um grampo ou algo semelhante?
– Não encontramos nada.
– Algum cheiro?
– Não pensamos nisso.
– O cheiro de fumo seria importante nesse tipo de investigação.
– Eu não fumo, de modo que teria sentido qualquer cheiro de tabaco. Não havia nenhuma pista. O único fato concreto foi que a mulher do contínuo – sra. Tangey é o nome dela – saiu às pressas do local. Ele não conseguiu dar nenhuma explicação, a não ser que ela costuma ir para casa àquela hora. O policial e eu achamos que o melhor seria pegá-la antes que pudesse passar adiante os documentos, se estivessem com ela.
O alarme chegou à Scotland Yard e o sr. Forbes, o detetive, veio imediatamente e assumiu o caso com bastante energia. Pegamos um fiacre e em meia hora estávamos no endereço que o contínuo havia dado. Uma jovem abriu a porta. Soubemos que era a filha mais velha da sra. Tangey. A mãe ainda não havia chegado e ficamos esperando.
– Cerca de dez minutos depois, alguém bateu à porta e cometemos um erro grave, pelo qual assumo a responsabilidade. Em vez de abrirmos a porta, deixamos que a moça o fizesse. Ouvimos quando ela disse: “Mamãe, tem dois homens aqui à sua espera”. Logo depois ouvimos passos apressados no corredor. Forbes abriu a porta da sala e corremos para a peça dos fundos, ou cozinha, mas a mulher havia chegado antes. Fitou-nos com olhos desafiadores e então, reconhecendo-me de repente, manifestou absoluto espanto.
– “É o sr. Phelps, do escritório!”, exclamou.
– “Quem pensava que éramos quando fugiu de nós?”, perguntou o detetive.
– “Pensei que eram os cobradores. Tivemos problemas com um comerciante.”
– “A desculpa não serve”, replicou Forbes. “Temos motivos para acreditar que retirou um documento importante do Foreign Office e correu até aqui para escondê-lo. Terá que nos acompanhar à Scotland Yard para ser revistada.”
– Ela protestou e resistiu em vão. Chamaram uma carruagem e nós três voltamos nela, não sem antes examinar a cozinha e principalmente o fogão, para ver se ela teria escondido os papéis no instante em que ficou sozinha. Mas não havia sinais de cinzas ou papel picado. Quando chegamos à Scotland Yard, ela foi entregue a uma policial para ser revistada. Esperei agoniado até que ela voltasse com o relatório. Não havia sinal de documentos.
– Pela primeira vez fui dominado pelo horror da situação em toda a sua plenitude. Até então eu estivera agindo, e a atividade entorpecera meu raciocínio. Tinha tanta certeza de que ia recuperar logo o documento que não ousara pensar nas conseqüências, caso isso não ocorresse. Mas nada me restava a fazer e havia tempo de sobra para compreender a minha situação. Era horrível! Watson dirá que na escola eu era um menino nervoso e sensível. É o meu temperamento. Pensei no meu tio e nos seus colegas de Gabinete, na vergonha que eu traria para eles, para mim mesmo e para todos os que estavam ligados a mim. O que importava que eu fosse a vítima de um acidente extraordinário? Não havia desculpas para acidentes quando estavam em jogo interesses diplomáticos. Estava arruinado, vergonhosa e desesperadamente arruinado. Não sei o que fiz. Acho que fiz uma cena. Tenho uma vaga lembrança de um grupo de policiais me rodeando e tentando me acalmar. Um deles levou-me até Waterloo e me embarcou no trem para Woking. Creio que teria me acompanhado até em casa se não fosse o dr. Ferrier, que mora perto de mim e tomou o mesmo trem. O médico muito gentilmente encarregou-se de me trazer, o que foi bom, porque tive uma crise na estação e ao chegar a casa estava praticamente louco.
– Pode imaginar o susto da família quando foi despertada pela campainha do médico e me encontrou nessas condições. A pobre Annie e minha mãe ficaram desoladas. O dr. Ferrier ouvira o suficiente do detetive, na estação, para explicar o que havia acontecido, e a história não melhorou a situação. Era evidente que eu estava gravemente enfermo, de modo que Joseph tirou as coisas deste quarto alegre, que passou a ser o meu quarto de doente. E estou aqui há nove semanas, sr. Holmes, inconsciente, ou delirando com febre alta. Não fossem a srta. Harrison e os cuidados médicos, eu não estaria aqui conversando com o senhor. Ela cuidava de mim durante o dia e uma enfermeira ficava comigo à noite, pois em meus acessos de loucura eu era capaz de qualquer coisa. Aos poucos fui recobrando a razão, mas somente nos últimos três dias recuperei inteiramente a memória. Às vezes gostaria que isso não tivesse acontecido. A primeira coisa que fiz foi telegrafar ao sr. Forbes, o encarregado do caso. Ele veio até aqui e assegurou-me que, embora tivessem feito todo o possível, não se descobriu nenhuma pista. O contínuo e a mulher foram investigados, mas isso não ajudou a esclarecer o caso. As suspeitas da polícia recaíram sobre o jovem Gorot que, como devem lembrar, tinha ficado no escritório até mais tarde naquela noite. O fato de estar trabalhando em horário extraordinário e o sobrenome francês são os únicos pontos que poderiam despertar suspeitas; mas, para ser exato, só comecei a trabalhar depois que ele saiu, e sua família é de origem huguenote, embora tão inglesa nas simpatias e tradições quanto eu ou vocês. Nada se encontrou que o incriminasse em nenhum aspecto, e o caso foi encerrado. Recorro à sua ajuda, sr. Holmes, como a minha última esperança. Se não fizer nada por mim, minha honra e minha posição estarão perdidas para sempre.
O doente deixou-se cair nos travesseiros, exausto pela longa narrativa, enquanto a moça dava-lhe um copo contendo algum remédio estimulante. Holmes ficou sentado em silêncio, com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados, em atitude que pareceria de indiferença a um estranho, mas que eu sabia ser sinal da mais intensa concentração.
– Seu relato foi tão explícito que tenho poucas perguntas a fazer – disse finalmente. – Mas há uma extremamente importante. Contou a alguém que tinha esta tarefa especial para executar?
– A ninguém.
– Nem mesmo à srta. Harrison, por exemplo?
– Não. Não voltei a Woking entre o momento em que recebi a ordem e aquele em que comecei a executá-la.
– E ninguém de sua família passou pelo escritório por acaso, para vê-lo?
– Ninguém.
– Alguém sabia como chegar à sua sala?
– Sim, todos a conheciam.
– É claro que, se não disse nada a ninguém a respeito do tratado, estas perguntas são irrelevantes.
– Não disse nada.
– Sabe alguma coisa a respeito do contínuo?
– Nada, a não ser que é um velho soldado.
– De que regimento?
– Ouvi dizer que foi do Coldstream Guards.
– Obrigado. Conseguirei detalhes com Forbes, sem dúvida. As autoridades são excelentes para acumular fatos, embora nem sempre saibam utilizá-los. Que coisa linda é uma rosa!
Passando pelo sofá, aproximou-se da janela aberta e ergueu a haste de uma rosa de adorno e pôs-se a examinar a atraente mistura de vermelho e verde. Era uma nova faceta do seu temperamento, pois eu nunca o vira demonstrar qualquer interesse pela natureza.
– A dedução nunca é tão necessária como na religião – disse ele, recostando-se nas venezianas. – Pode ser transformada em ciência exata pela pessoa que raciocina. A mais elevada afirmação da bondade da Providência reside, para mim, nas flores. Tudo o mais, nossos talentos, desejos, alimentos, são necessários, em primeira instância, à nossa vida. Mas esta rosa é algo extra. Seu perfume e sua cor são um adorno da vida, não uma condição da existência. Somente a bondade doa algo extra. Repito, portanto, que temos muito a esperar das flores.