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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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o aleijado

Certa noite de verão, alguns meses após meu casamento eu estava sentado sozinho, fumando o último cachimbo antes de ir para o quarto, e cochilava sobre um romance, porque o dia de trabalho fora exaustivo. Minha mulher já havia subido e o ruído da porta sendo trancada algum tempo depois indicava que os criados também já tinham se recolhido. Levantei-me da poltrona e estava sacudindo as cinzas do cachimbo quando de repente ouvi a campainha.

Olhei para o relógio. Eram 23:45h. Não podia ser uma visita em hora tão tardia. Um paciente, era claro, e talvez uma consulta que levasse a noite inteira. Resignado, fui até o vestíbulo e abri a porta. Para minha surpresa, dei com Sherlock Holmes no patamar.

– Ah, Watson! Esperava chegar a tempo de pegá-lo ainda de pé.

– Entre, meu caro, por favor.

– Você parece surpreso e não sem razão! Aliviado também, eu creio! Hum! Continua fumando aquela mistura  dos tempos de solteiro! A cinza solta no seu casaco é inconfundível. É fácil perceber que você está habituado a usar uniforme, Watson; jamais passará por civil cem por cento enquanto mantiver o hábito de levar o lenço na manga. Pode me hospedar esta noite?

– Com prazer.

– Você disse que tinha acomodações para um solteiro e vejo que não está hospedando nenhum cavalheiro no momento. Sua chapeleira anuncia isso.

– Ficarei encantado se você dormir aqui.

– Obrigado. Vou usar o gancho vago na chapeleira. Lamento ver que você teve um operário inglês nesta casa. Isto é sinal de problemas. Não são os encanamentos de água, espero.

– Não. O gás.

– Ah! Ele deixou duas marcas de solas tacheadas no seu linóleo, exatamente no lugar onde incide a luz. Não, obrigado, jantei em Waterloo, mas fumarei com todo prazer um cachimbo na sua companhia. (sic or.)

Passei-lhe a minha bolsa de fumo e ele se sentou na minha frente, fumando em silêncio durante algum tempo. Eu sabia muito bem que somente um caso importante o traria à minha casa àquela hora, de modo que aguardei pacientemente que ele se decidisse a falar.

– Vejo que tem trabalhado muito – observou, olhando-me atentamente.

– Sim, tive um dia muito atarefado. Pode parecer tolice – acrescentei –, mas não sei como você deduziu isto.

Holmes riu consigo mesmo.

– Tenho a vantagem de conhecer os seus hábitos, meu caro Watson. Quando a sua ronda de visitas é curta, você vai a pé, e quando é longa, toma uma carruagem. Noto que suas botas, embora gastas, não estão absolutamente sujas. Não há dúvida de que no momento anda bastante ocupado para justificar a carruagem.

– Excelente! – exclamei.

– Elementar. É um dos casos em que a pessoa que raciocina pode produzir um efeito que parece extraordinário ao interlocutor, porque este deixou de perceber um pequeno detalhe que é a base da dedução. O mesmo pode ser dito, meu caro amigo, para o efeito de um de seus resumos, que são totalmente falsos, já que dependem de você reter em suas mãos determinados fatores do problema que nunca são apresentados ao leitor. No momento estou na posição desses mesmos leitores, porque disponho de vários fios de um dos casos mais estranhos que jamais intrigaram a mente humana, mas não tenho um ou dois que são necessários para completar a minha teoria. Mas eu os terei, Watson! Eu os terei!

Seus olhos estavam brilhantes, e as faces, ligeiramente coradas. Por um instante o véu que protegia sua natureza interior entreabriu-se, mas só por um instante. Quando olhei novamente para ele, seu rosto readquiria a expressão impassível de um pele-vermelha que induzia tanta gente a considerá-lo mais uma máquina do que um ser humano.

– O problema apresenta características interessantes – observou. – Posso dizer até que são características de interesse excepcional. Já examinei a questão e creio que cheguei perto da solução. Se puder me acompanhar nessa última etapa, você me prestará um grande serviço.

– Será um prazer.

– Poderia ir a Aldershot amanhã?

– Tenho certeza de que Jackson se encarregará dos meus clientes.

– Ótimo. Quero sair no trem das 11:10h de Waterloo.

– Isso me dará tempo para tomar providências.

– Neste caso, se não estiver com sono, vou dar-lhe um resumo do que aconteceu e do que falta fazer.

– Eu estava com sono antes de você chegar, mas agora estou completamente acordado.

– Vou resumir a história o máximo possível sem omitir nenhum fato fundamental. É possível que já tenha lido alguma reportagem a respeito. Trata-se do suposto assassinato do coronel Barclay, do Royal Munsters, em Aldershot, que estou investigando.

– Não soube nada a respeito.

– Ainda não atraiu muita atenção, a não ser local. Os fatos são apenas de dois dias atrás. Em resumo, trata-se do seguinte:

– O Royal Munsters, como sabe, é um dos mais famosos regimentos irlandeses do Exército britânico. Fez maravilhas tanto na Criméia como durante o Motim, e depois distinguiu-se em várias outras ocasiões. Era comandado até segunda-feira à noite por James Barclay, um corajoso veterano, que começou como soldado raso, foi promovido por bravura na época do Motim e chegou ao comando do regimento no qual havia carregado um mosquete.

– O coronel Barclay, quando era sargento, casou-se com uma jovem chamada Nancy Devoy, filha de um antigo sargento mestiço da mesma corporação. Houve, portanto, como você pode imaginar, um certo atrito social quando o jovem casal (pois eram ainda jovens) ingressou em novo ambiente. Mas, aparentemente, eles se adaptaram depressa e a sra. Barclay foi sempre muito popular entre as senhoras do regimento, assim como o marido o era entre os outros oficiais. Devo acrescentar que era muito bonita, e ainda hoje, após mais de trinta anos de casada, conserva uma aparência impressionante.

– A vida familiar do coronel Barclay parece ter sido sempre feliz. O major Murphy, que me contou a maioria dos fatos, afirma que nunca soube de nenhum desentendimento entre os dois. Ele acha que, de modo geral, Barclay era mais dedicado à mulher do que ela ao marido. Ficava muito inquieto se ela se  ausentava por um dia inteiro. Ela, por sua vez, embora dedicada e fiel, parecia menos afetuosa. Contudo, eram considerados no regimento o próprio modelo do casal de meia-idade. Não havia nada em suas relações que sugerisse às pessoas a tragédia que ocorreria.

– Parece que o próprio coronel Barclay tinha alguns traços singulares de temperamento. Era um velho militar geralmente jovial e bem-humorado, mas em certas ocasiões mostrava-se capaz de ser violento e vingativo. Este aspecto do seu temperamento nunca se manifestava em relação à mulher, ao que parece. Outro fato que impressionou o major Murphy e três entre cinco dos oficiais com quem conversei era a estranha depressão que o acometia de vez em quando. Conforme a expressão do major, o sorriso desaparecia de seus lábios como que arrancado por mão invisível quando ele participava dos gracejos e brincadeiras na hora do rancho. E ficava dias seguidos mergulhado na mais profunda depressão. Isto e uma certa dose de superstição eram os únicos traços incomuns do seu temperamento observados pelos colegas de farda. Esta última peculiaridade fazia com que ele detestasse ficar sozinho, principalmente depois de anoitecer. Esse traço pueril em uma natureza bastante máscula provocou algumas vezes comentários e conjecturas:

– O primeiro batalhão do Royal Munsters (o antigo 117o) está sediado em Aldershot há alguns anos. Os oficiais casados residem fora dos alojamentos e o coronel, quando era comandante, ocupava uma vila chamada “Lachine”,localizada a cerca de 1 quilômetro do Campo Norte. A casa é cercada de jardins, mas o lado oeste não fica a mais de 30 metros da estrada. A criadagem é formada por um cocheiro e duas criadas. Além dos patrões, são os únicos moradores de Lachine,pois os Barclays não têm filhos e não costumavam receber visitantes locais.

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