Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– E não têm cachorro?
– Sim, mas está preso do outro lado da casa.
– A que horas se deitam os criados?
– Por volta das 22 horas.
– Soube que William também se recolhia mais ou menos a essa hora.
– É exato.
– Estranho que exatamente nessa noite ele estivesse acordado. Gostaria que nos mostrasse a casa, sr. Cunningham.
Um corredor de pedra, que dava para a cozinha, conduzia por uma escada de madeira diretamente ao primeiro andar. Terminava num patamar fronteiro à outra escada mais rebuscada, que saía do vestíbulo. Para esse patamar davam as portas da sala de visitas e de vários quartos, inclusive os dos srs. Cunningham pai e filho. Holmes caminhava devagar, observando a arquitetura da casa. Percebi por sua expressão que seguia uma pista importante, mas não consegui imaginar em que direção suas deduções o conduziam.
– Sr. Holmes, tudo isto certamente é desnecessário – disse o sr. Cunningham meio impaciente. – Meu quarto fica no final da escada e o de meu filho logo depois. Deixo a seu critério verificar se seria possível o ladrão subir até aqui sem que percebêssemos.
– Precisa tentar outra pista, na minha opinião – disse o filho, com um sorriso malicioso.
– Peço que tenham um pouco de paciência. Eu gostaria, por exemplo, de ver até que ponto se pode avistar a frente da casa pelas janelas. Este é o quarto do seu filho – disse, abrindo uma porta – e aquele, eu presumo, é o quarto de vestir onde ele estava fumando quando foi dado o alarme. Para onde dão as janelas?
Ele atravessou o quarto, abriu a porta e deu uma olhada no aposento contíguo.
– Espero que esteja satisfeito agora – disse o sr. Cunningham secamente.
– Obrigado. Acho que vi tudo o que desejava.
– Então, se for realmente necessário, podemos ir para o meu quarto.
– Se não for demasiado incômodo.
O juiz de paz deu de ombros e entrou na frente em seu quarto, que era mobiliado com simplicidade e nada tinha de extraordinário. Quando atravessava o quarto em direção à janela, Holmes recuou de modo que ele e eu fôssemos os últimos do grupo. Ao pé da cama havia uma mesinha quadrada sobre a qual se viam um prato de laranjas e um jarro de água. Quando passávamos por ela, Holmes, para minha imensa surpresa, inclinou-se na minha frente e deliberadamente derrubou a mesinha. A jarra quebrou-se em mil pedaços e as frutas rolaram para todos os cantos do quarto.
– Você é desajeitado, Watson – disse friamente. – Molhou todo o tapete.
Abaixei-me, confuso, e comecei a recolher as frutas, compreendendo que por algum motivo o meu amigo queria que eu assumisse a culpa. Os outros fizeram o mesmo, recolocando a mesa no lugar.
– Ora! Para onde ele foi? – exclamou o inspetor.
Holmes havia desaparecido.
– Esperem aqui um instante – disse Alec Cunningham. – Na minha opinião, o sujeito não está muito bom da cabeça. Venha comigo, papai. Vamos ver onde ele se meteu!
Saíram às pressas do quarto, enquanto o inspetor, o coronel e eu ficamos ali, olhando uns para os outros.
– Palavra que concordo com o sr. Alec – disse o policial. Talvez seja conseqüência da doença, mas parece-me que...
Foi interrompido por um grito repentino de “Socorro! Socorro! Assassino!” Com um arrepio, reconheci a voz do meu amigo e saí correndo do quarto para o patamar. Os gritos, que estavam reduzidos a um murmúrio inarticulado e rouco, vinham do quarto que tínhamos visto antes. Entrei correndo e fui até o quarto de dormir. Os dois Cunninghams estavam inclinados sobre o vulto prostrado de Sherlock Holmes, o mais moço agarrando-lhe o pescoço com as duas mãos, enquanto o mais velho torcia-lhe um dos pulsos. No mesmo instante nós três o libertamos e Holmes levantou-se muito pálido e evidentemente exausto.
– Prenda estes homens, inspetor! – arquejou.
– Sob que acusação?
– O assassinato do cocheiro William Kirwan!
O inspetor olhou para ele, aturdido.
– Ora, sr. Holmes... – disse finalmente. – Tenho certeza de que não fala a sério...
– Quieto, homem! Olhe para eles! – ordenou Holmes secamente.
De fato, nunca tinha visto uma confissão de culpa tão nitidamente estampada num rosto humano. O mais velho parecia aturdido. Seu rosto de traços bem marcados estava carrancudo. O filho, por sua vez, havia perdido toda a vivacidade que o caracterizava e a ferocidade de um animal selvagem brilhava em seus olhos escuros, distorcendo os traços harmoniosos. O inspetor não disse nada, mas, aproximando-se da porta, fez soar seu apito. Dois policiais surgiram imediatamente.
– Não tenho alternativa, sr. Cunningham. Confio em que tudo isto se revele um erro absurdo, mas compreenda que... Ah! Largue isso!
Deu um golpe com a mão e o revólver que o rapaz fazia menção de sacar caiu no chão.
– Guarde isso – disse Holmes, colocando rapidamente o pé sobre a arma. – Será útil no julgamento. Mas é disto que realmente precisamos.
E ergueu um pedaço de papel amassado.
– O resto do bilhete? – perguntou o inspetor.
– Exatamente.
– E onde estava?
– Onde eu tinha certeza de que estaria. Esclarecerei todo o caso daqui a pouco. Acho, coronel, que o senhor e Watson podem ir para casa. Eu me encontrarei com os dois dentro de uma hora, no máximo. O inspetor e eu precisamos conversar com os prisioneiros. Mas estarei de volta para o almoço, com certeza.
Sherlock Holmes cumpriu a palavra. Cerca de uma hora depois estava conosco na sala de fumar do coronel. Vinha acompanhado de um homenzinho idoso, apresentado como o sr. Acton. Em sua residência fora cometido o primeiro roubo.
– Queria que o sr. Acton ouvisse o meu relato do caso, pois é natural que ele esteja muito interessado nos detalhes – disse Holmes. – Meu caro coronel, temo que amaldiçoe a hora em que resolveu acolher em sua casa um sujeito complicado como eu.
– Pelo contrário – protestou o coronel. – Considero o maior privilégio poder acompanhar de perto os seus métodos de trabalho. Confesso que ultrapassam minhas expectativas e que sou incapaz de compreender os resultados. Até agora não vi um só vestígio de pista.
– Temo que minhas explicações o decepcionem, mas sempre tive o hábito de deixar bem claros os meus métodos, seja para o meu amigo Watson, seja para qualquer pessoa que revele por eles um interesse inteligente. Mas, para começar, como ainda estou um tanto abalado com a agressão sofrida no quarto de vestir, creio que tomarei um pouco do seu , coronel. Minhas forças andam combalidas ultimamente.
– Espero que não sofra outro ataque nervoso.
Sherlock Holmes deu uma boa risada.
– Chegaremos lá. Antes farei um relato do caso na sua devida ordem, mostrando os vários pontos que orientaram a minha decisão. Interrompam-me, por favor, se alguma dedução não estiver bem clara.
– É da maior importância na arte da detecção saber distinguir, entre vários fatos, quais os triviais e quais os decisivos. Do contrário, a energia e a atenção se dispersariam em vez de se concentrarem. Neste caso eu não tinha, desde o início, a menor dúvida de que a chave estava no pedaço de papel encontrado na mão do morto.
– Antes de prosseguir, gostaria de chamar a atenção para o fato de que, se o relato de Alec Cunningham estivesse correto e o assaltante, depois de atirar em William Kirwan, tivesse desaparecido imediatamente, era óbvio que não fora ele quem arrancara o papel da mão do morto. Mas, caso não fosse ele, teria que ser o próprio Alec Cunningham, pois quando o velho desceu, vários criados já estavam no local. O detalhe é simples, mas o inspetor não o percebeu porque partia do pressuposto de que os magnatas da região nada tinham a ver com o caso. Quanto a mim, faço questão de me desfazer de preconceitos e obedecer docilmente quando os fatos me orientam. Assim, logo na primeira etapa da investigação, comecei a olhar com desconfiança o papel desempenhado pelo sr. Alec Cunningham.
– Fiz um exame cuidadoso do fragmento de papel que o inspetor nos mostrou. Ficou logo claro para mim que ele era parte de um documento extraordinário. Aqui está. Vocês notam agora algo de muito sugestivo nele?