Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Nunca senti um tal arrepio de decepção como aquele, Watson. Por um instante pensei que tinha errado completamente o cálculo. O sol poente batia em cheio no chão do corredor e eu via que as velhas pedras cinzentas, desgastadas pelo uso e que formavam o piso, estavam firmemente cimentadas e com certeza não eram deslocadas há muitos anos. Brunton não estivera trabalhando por ali. Bati no piso, mas o som era o mesmo em toda parte, não havia sinal de brechas ou rachaduras. Felizmente Musgrave, que começava a entender o sentido do meu procedimento e estava tão excitado quanto eu, tirou do bolso o manuscrito para verificar os meus cálculos.
– “”,exclamou. “Esqueceu o .”
– Eu havia pensado que a palavra queria dizer que deveríamos cavar, mas naquele momento percebi o engano.
– “Então há porões aqui embaixo?”, perguntei.
– “Sim, tão antigos quanto a casa. Vamos por esta porta.”
– Descemos por uma escada circular de pedra e meu amigo, riscando um fósforo, acendeu uma grande lanterna que estava sobre um barril a um canto. No mesmo instante tornou-se óbvio que finalmente estávamos no lugar certo e não éramos as únicas pessoas que o visitavam nos últimos tempos.
– Ele havia sido usado para armazenar lenha, mas as achas, que antes deviam estar espalhadas pelo chão, estavam empilhadas dos lados, a fim de deixar um espaço livre no centro. Nesse espaço via-se uma laje grande e pesada, com uma argola enferrujada no centro, à qual fora amarrado um grosso cachecol de pastor.
– “Por Deus! É o cachecol de Brunton! Eu o vi com ele, sou capaz de jurar. O que é que o patife andou fazendo por aqui?”
– Por sugestão minha foram chamados dois policiais do condado. E então tentei levantar a laje com a ajuda do cachecol. Só consegui movê-lo ligeiramente e precisei do auxílio de um dos policiais para conseguir finalmente afastá-la para o lado. Apareceu um buraco negro embaixo e todos nós olhamos lá para dentro, enquanto Musgrave, ajoelhado, aproximou a lanterna.
– Uma pequena câmara com cerca de 2 metros de profundidade e 1,20 metro de largura surgiu diante de nós. De um lado havia uma arca baixa de madeira com adornos de bronze, a tampa aberta e uma estranha chave antiga na fechadura. Estava recoberta de espessa camada de poeira. A umidade e os vermes haviam corroído a madeira, de modo que seu interior se achava revestido de mofo. Vários discos de metal – velhas moedas, aparentemente –, como este aqui, estavam espalhados no fundo da arca, que não tinha mais nada.
– Naquele momento, porém, mal demos atenção à arca, porque nossos olhos foram atraídos pelo que estava ao lado. Era o vulto de um homem, vestido com um terno preto, agachado, testa inclinada sobre a borda da arca e braços estendidos para os lados. A posição fizera afluir todo o sangue estagnado para o rosto e ninguém poderia reconhecer aquela fisionomia alterada, violácea; mas a altura, as roupas, os cabelos, eram suficientes para mostrar ao meu cliente, quando ele puxou o corpo, que era de fato do mordomo desaparecido. Estava morto há dias, mas não havia ferimentos ou marcas que indicassem de que modo chegara ao seu horrível fim. Depois que o corpo foi carregado para fora da adega, nós continuávamos diante de um problema quase tão grande quanto aquele que tínhamos de início.
– Confesso que até então, Watson, eu estava decepcionado com a investigação. Esperava resolver o assunto quando descobrisse o local indicado no Ritual; mas agora eu estava ali, e, aparentemente, tão distante quanto antes do que a família havia escondido com tão complicadas precauções. É verdade que eu havia descoberto o paradeiro de Brunton, mas precisava descobrir agora o que havia acontecido com ele e que papel fora desempenhado no caso pela mulher desaparecida. Sentei-me num barril a um canto, e refleti cuidadosamente sobre toda a questão.
– Você conhece meus métodos nesses casos, Watson. Coloquei-me no lugar do homem e, depois de avaliar sua inteligência, tentei imaginar como eu teria agido nas mesmas circunstâncias. A questão foi simplificada pelo fato de a inteligência de Brunton ser de primeira ordem, dispensando qualquer concessão para uma equação pessoal, como dizem os astrônomos. Ele sabia que algo valioso fora escondido e localizara o esconderijo. Havia descoberto que a laje que o cobria era pesada demais para ser erguida por uma só pessoa. O que faria então? Não podia pedir ajuda de fora, ainda que fosse alguém de confiança, sem abrir portas e correr um risco considerável de ser surpreendido. Seria melhor, se possível, conseguir ajuda dentro de casa. Mas a quem poderia pedir? A moça fora apaixonada por ele. Um homem sempre acha difícil compreender que finalmente perdeu o amor de uma mulher, por pior que a tenha tratado. Ele tentaria, com algumas gentilezas, fazer as pazes com a moça Howells e, em seguida, a aliciaria como cúmplice. Juntos iriam à noite ao porão e conseguiriam erguer a laje. Até aí, eu era capaz de acompanhar suas ações como se as tivesse testemunhado.
– Mas para duas pessoas, uma delas mulher, deve ter sido um trabalho difícil erguer aquela laje. Um robusto policial de Sussex e eu não havíamos achado fácil a tarefa. O que fariam para facilitá-la? Provavelmente o que eu mesmo teria feito. Levantei-me e examinei cuidadosamente os pedaços de madeira espalhados pelo chão. Quase na mesma hora encontrei o que estava procurando. Uma tora com cerca de 90 centímetros de comprimento apresentava numa extremidade uma marca acentuada, e várias outras estavam achatadas dos lados, como se tivessem sido comprimidos por um grande peso. Evidentemente, à medida que erguiam a laje, iam colocando pedaços de madeira na brecha, até que finalmente, quando a abertura já estava suficientemente grande para permitir a passagem, mantiveram-na assim com um pedaço de madeira colocado de través, e que poderia muito bem ter ficado marcado na parte inferior, já que todo o peso da laje o comprimiria contra a borda oposta. Até então, eu me achava em terreno seguro.
– Mas, como reconstituir o drama da meia-noite? Era claro que apenas uma pessoa podia introduzir-se na câmara, e essa pessoa seria Brunton. A moça devia ter esperado em cima. O mordomo abriu a arca, passou para ela o conteúdo, provavelmente – já que a arca estava vazia – e depois... E depois, o que teria acontecido?
– Que explosão de vingança havia eclodido subitamente na alma daquela apaixonada mulher celta ao ver à sua mercê o homem que a tinha repudiado – e talvez mais profundamente do que suspeitávamos? O pedaço de madeira teria rolado por acaso e deixado Brunton preso no lugar que se transformou na sua sepultura? Ela era culpada apenas do silêncio em relação ao destino do mordomo? Ou algum súbito golpe da sua mão teria atirado longe o apoio, fazendo com que a laje se fechasse? Fosse como fosse, tive a impressão de ver o vulto dessa mulher ainda segurando o seu tesouro e fugindo desvairada pela escada circular, com os gritos abafados que deixava para trás vibrando nos seus ouvidos, juntamente com batidas frenéticas de mãos contra a laje de pedra que mataria por sufocação o seu amante infiel.
– Era este o segredo do rosto pálido, dos nervos abalados, das gargalhadas histéricas na manhã seguinte. Mas o que havia no cofre? O que ela teria feito com o conteúdo? Claro que deviam ser os fragmentos de metal e os calhaus que meu cliente havia retirado do lago. Ela os atirara na água na primeira oportunidade a fim de apagar os últimos vestígios do seu crime.
– Durante cerca de vinte minutos fiquei sentado, imóvel, pensando no caso. Musgrave continuava de pé, muito pálido, agitando a lanterna e olhando para dentro do buraco.
– “São moedas de Carlos I”, disse, examinando as poucas que ainda restavam no cofre. “Como vê, tínhamos razão ao fixar a data para o Ritual.”