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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– “Preciso ver aquele papel, Musgrave. O papel que o seu mordomo achou que valia a pena examinar mesmo arriscando-se a perder o emprego.”

– “É um tanto absurdo esse nosso Ritual, mas tem pelo menos o encanto da antiguidade como justificativa. Tenho uma cópia das perguntas e respostas, se quiser dar uma olhada nela.”

– Entregou-me este documento que está aqui, Watson. É o estranho catecismo a que cada Musgrave se submete ao atingir a maioridade. Vou ler as perguntas e respostas:

– De quem é isto?

– Daquele que se foi.

– Quem o terá?

– Aquele que virá.

– Qual foi o mês?

– O sexto a partir do primeiro.

– Onde estava o sol?

– Sobre o carvalho.

– Onde estava a sombra?

– Debaixo do olmo.

– A quantos passos?

– Norte por dez e dez, leste por cinco e cinco, sul por dois e dois, oeste por um e um, e assim debaixo.

– O que daremos em troca?

– Tudo o que é nosso.

– Por que o daremos?

– Por razões de confiança.

– “O original não tem data, mas a grafia é de meados do século XVII”,  observou Musgrave. “Mas temo que ajude muito na solução do mistério.”

– “Pelo menos nos proporciona outro mistério ainda mais interessante que o primeiro. É possível que a solução de um seja a solução do outro. Perdoe, Musgrave, se digo que seu mordomo parece ter sido um homem muito esperto, com uma percepção mais aguçada do que dez gerações de fidalgos.”

– “Não entendo. O documento não me parece ter qualquer importância prática.”

– “Pois a mim parece extremamente prático e imagino que Brunton tenha pensado da mesma maneira. É provável que o tenha visto bem antes da noite em que foi surpreendido.”

– “É bem possível. Nunca tomamos qualquer precaução para escondê-lo.”

– “Ele queria simplesmente reavivar a memória naquela última vez. Como você disse, ele tinha uma espécie de mapa e o estava comparando com o manuscrito. Enfiou-o no bolso quando você apareceu?”

– “É. Mas o que ele teria a ver com esse velho costume da nossa família, e o que significa toda esta confusão?”

– “Creio que não será muito difícil descobrir”, respondi. “Com a sua permissão, tomaremos o primeiro trem que segue para Sussex e examinaremos mais profundamente a questão no próprio local.”

– Naquela mesma tarde estávamos em Hurlstone. É possível que você tenha visto fotos ou tenha lido descrições da famosa construção antiga, de modo que me limitarei a dizer que a residência é em forma de L, sendo o braço longo a parte mais moderna, e o curto, o núcleo antigo a partir do qual o outro se desenvolveu. Sobre a porta baixa e pesada, no centro da parte antiga, está gravada a data de 1607, mas especialistas afirmam que as traves e o trabalho de cantaria são bem mais antigos. As paredes de largura extraordinária e as minúsculas janelas daquela ala levaram a família, no último século, a construir uma ala nova, passando a antiga a ser usada como depósito e adega, quando era usada. Um esplêndido parque, cheio de belas árvores antigas, rodeia a casa, e o lago a que meu cliente se referiu fica perto da alameda, a cerca de 200 metros da construção.

– Eu já estava convencido, Watson, de que não havia três mistérios independentes no caso, mas só um e que se conseguisse interpretar corretamente o Ritual Musgrave, teria na minha mão a pista que me levaria à verdade referente tanto ao mordomo Brunton como à criada Howells. Concentrei todas as minhas energias nessa direção. Por que o mordomo estaria tão ansioso para dominar aquele antigo ritual? Evidentemente porque via nele algo que escapara a todas aquelas gerações de aristocratas, e do qual esperava tirar alguma vantagem pessoal. O que seria e como afetaria o seu destino?

– Ficou óbvio para mim, ao ler o Ritual, que as medidas deviam referir-se a algum local mencionado no resto do documento, e que se pudéssemos encontrá-lo, estaríamos numa boa pista para descobrir o segredo que os antigos Musgraves haviam julgado necessário embalsamar de maneira tão curiosa. Havia dois pontos de partida, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, não podia haver dúvidas. Bem na frente da casa, do lado esquerdo da alameda, havia um patriarca entre todos os carvalhos, uma das árvores mais magníficas que já vi.

– “Ele já existia quando o seu Ritual foi redigido?”, perguntei, quando passamos pelo carvalho.

– “Provavelmente já estava aí na época da conquista normanda. Tem 7 metros de circunferência.”

– Um dos pontos que eu determinara estava garantido.

– “Existem velhos olmos por aqui?”, perguntei.

– “Havia um muito antigo lá adiante, mas foi atingido por um raio há dez anos e cortamos o que restou do tronco.”

– “É possível ver o local onde ele ficava?”

– “Certamente.”

– “Não há outros olmos?”

– “Antigos, não. Mas temos uma porção de faias.”

– “Gostaria de ver o lugar onde ficava o olmo.”

– Tínhamos vindo de charrete e meu cliente levou-me até o local antes mesmo de entrarmos na casa. Havia uma cicatriz no gramado naquele ponto, que ficava quase no meio do caminho entre o carvalho e a residência. Aparentemente minha investigação progredia.

– “Creio que é impossível saber a altura do olmo...”

– “Posso dizer agora mesmo, 19,20 metros...”

– “Como sabe?”, eu perguntei, surpreso.

– “Quando meu velho preceptor me passava exercícios de trigonometria, eles eram sempre sobre medidas de altura. Em menino calculei todas as árvores e construções da propriedade.”

– Era uma sorte inesperada. Estava obtendo os meus dados mais depressa do que imaginara.

– “Diga-me, o mordomo algum dia fez esta pergunta a você?”

– Reginald Musgrave olhou-me espantado.

– “Agora que falou nisso... Brunton perguntou-me a respeito da altura da árvore alguns meses atrás, por causa de uma discussão com um criado.”

– Era uma excelente notícia, Watson, porque indicava que estávamos no caminho certo.

– Observei o sol. Estava baixo no céu e calculei que em menos de uma hora ficaria exatamente sobre os ramos mais altos do velho carvalho. Uma das condições mencionadas no Ritual estaria então preenchida. E a sombra do olmo significaria o seu ponto extremo; caso contrário, o tronco teria sido escolhido como ponto de referência. Então eu precisava descobrir onde cairia o ponto extremo da sombra quando o sol fosse ocultado pelo carvalho.

– Deve ter sido muito difícil, Holmes, já que o olmo não estava mais lá.

– Bem, se Brunton era capaz de calcular, eu também seria. Além disso, não era realmente uma dificuldade. Fui com Musgrave até o gabinete dele, e eu mesmo talhei este prego de madeira, ao qual atei este barbante com um nó de metro em metro. Depois peguei uma vara de pescar com 1,80 metro e voltei com meu cliente ao ponto onde estivera o olmo. O sol roçava a copa do carvalho. Finquei a vara verticalmente, marquei a direção da sombra e a medi. Tinha 2,70 metros de comprimento. O cálculo era simples, naturalmente. Se uma vara de 1,80 metro lançava uma sombra de 2,70 metros, uma árvore de 19,20 metros projetaria certamente sombra de 28,80 metros, e uma sombra estaria, é claro, em linha com a outra. Medi a distância, que me levou quase até a parede da casa, e marquei o lugar com o prego. Pode imaginar a minha alegria, Watson, quando vi, a 5 centímetros do prego, uma depressão cônica no solo. Eu sabia que era a marca deixada por Brunton quando fez a sua medição. Eu estava, portanto, na pista dele.

– A partir dali prossegui cautelosamente, depois de estabelecer os pontos cardeais com a ajuda da minha bússola portátil. Dez passos com cada pé levaram-me ao longo da parede da casa. Marquei novamente o local com um prego. Em seguida, medi com cuidado cinco passos para leste e dois para o sul, o que me deixou na soleira da velha porta. Dois passos para oeste significavam que eu precisava avançar pelo corredor com piso de pedras, onde estava o ponto indicado pelo Ritual.

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