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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– “Para chegar à sala de bilhar eu precisava descer um lance de escada e atravessar o patamar que dava para a biblioteca e a sala de armas. Pode imaginar a minha surpresa quando olhei para o corredor e vi um reflexo de luz saindo da porta aberta da biblioteca, porque eu mesmo havia apagado a lâmpada e fechado a porta antes de me deitar. Naturalmente, no primeiro momento pensei que eram ladrões. As paredes dos corredores de Hurlstone são decoradas com troféus e armas antigas. Peguei um machado de guerra e, deixando a vela para trás, segui silenciosamente pelo corredor e olhei pela porta aberta.

– “Brunton, o mordomo, estava na biblioteca, sentado numa poltrona, inteiramente vestido, segurando um papel que parecia um mapa estendido sobre os joelhos. Estava com a cabeça apoiada na mão, pensando. Fiquei imóvel, muito espantado, observando-o do corredor escuro. Uma vela pousada na borda da mesa lançava uma luz fraca, mas suficiente para mostrar que ele estava inteiramente vestido. De repente, levantou-se, aproximou-se de uma escrivaninha, destrancou-a e abriu uma das gavetas. Dali retirou um papel e voltou a sentar-se na poltrona. Colocou-o ao lado da vela na borda da mesa e começou a lê-lo com a maior atenção. Indignado diante da tranqüilidade com que ele examinava os documentos de nossa família, adiantei-me um passo. Brunton, erguendo a cabeça, viu-me na porta. Levantou-se de um salto, pálido de susto, e enfiou no colete o papel semelhante a um mapa e que estivera lendo. ‘Então é assim que retribui a confiança que depositamos em você! Está dispensado a partir de amanhã.’

– “Inclinou-se com o aspecto de um homem totalmente arrasado e saiu sem uma palavra. A vela continuava na mesa e pude dar uma olhada no papel que Brunton havia tirado da gaveta. Para minha surpresa, não era nada de importante. Apenas uma cópia das perguntas e respostas da antiga e singular prática chamada Ritual Musgrave. É uma espécie de cerimônia específica da nossa família, pela qual cada Musgrave passa há séculos, ao atingir a maioridade. Uma coisa de interesse particular e talvez de alguma importância para um arqueólogo, como nossos brasões, e divisas, mas sem nenhuma utilidade prática.”

– “É melhor voltarmos mais tarde ao documento”, observei.

– “Se achar realmente necessário...”, ele respondeu com certa hesitação.

– “Continuando a minha narrativa, tornei a trancar a gaveta, usando a chave que Brunton haviadeixado. Virei-me para sair e fiquei surpreso ao ver que o mordomo tinha voltado e estava diante de mim. ‘Sr. Musgrave, não posso suportar a desonra’ disse numa voz rouca de emoção. ‘Sempre me orgulhei de estar acima de minha posição e a desonra iria me matar. Meu sangue cairia sobre sua cabeça, senhor – isto é exato – se me levar ao desespero. Se não pode me manter aqui depois do que se passou, pelo amor de Deus, permita que eu peça demissão e saia dentro de um mês, como se fosse por livre e espontânea vontade. Isto eu suportaria, sr. Musgrave, mas não ser expulso diante de todas as pessoas que conheço tão bem.’ ‘Não merece muita consideração, Brunton’, respondi. ‘Sua conduta é infame. Mas, como está há muito tempo na família, não quero desonrá-lo publicamente. Mas um mês é demais. Saia dentro de uma semana e apresente o motivo que quiser.’ ‘Só uma semana, senhor?’, exclamou, desesperado. ‘Quinze dias. Quinze dias pelo menos!’ ‘Uma semana!’, repeti. ‘E considere-se tratado com muita clemência.’

– “Ele saiu cabisbaixo, um homem arrasado, enquanto eu apagava a vela e voltava para o meu quarto.

– “Nos dois dias seguintes Brunton dedicou-se o máximo possível aos seus deveres. Não aludi ao que se passara e aguardei com curiosidade o motivo que ele apresentaria para disfarçar a sua humilhação. Na terceira manhã ele não apareceu, como de costume, para receber as minhas instruções do dia, após o café-da-manhã. Ao sair da sala, encontrei por acaso Rachel Howells, a criada. Já contei que ela estava se recuperando de uma doença recente e pareceu-me tão pálida e abatida que a censurei por estar trabalhando. ‘Devia estar na cama. Volte às suas obrigações quando estiver melhor.’

– “Ela olhou-me com uma expressão tão estranha que comecei a desconfiar de que a febre lhe afetara mesmo o cérebro. ‘Já estou bastante forte, sr. Musgrave’, respondeu. ‘Veremos o que diz o médico. Pare de trabalhar agora e, quando descer, avise a Brunton que quero falar com ele.’ ‘O mordomo desapareceu.’ ‘Desapareceu! Como?’ ‘Desapareceu. Ninguém o viu. Não está no quarto. É, foi embora, foi embora!’

– “E encostou-se na parede gritando e rindo ao mesmo tempo, enquanto eu, horrorizado diante daquele súbito ataque histérico, toquei a campainha para pedir ajuda. A moça foi levada para o quarto ainda gritando e soluçando, enquanto eu perguntava a respeito de Brunton. Não havia dúvida de que tinha desaparecido. Sua cama não fora desfeita; ninguém o vira depois que ele fora para o quarto na noite anterior; ainda assim era difícil descobrir como havia saído de casa, já que as janelas e as portas estavam trancadas pela manhã. Suas roupas, o relógio e até seu dinheiro estavam no quarto, mas o terno preto que costumava vestir havia desaparecido, assim como os chinelos. As botas, porém, continuavam ali. Para onde teria ido o mordomo Brunton no meio da noite e onde estaria naquele momento?

– “Claro que revistamos a casa do sótão às adegas, mas não encontramos sinal dele. Como disse, a velha casa é um labirinto, principalmente na ala original, agora praticamente desabitada, mas revistamos todas as peças e o sótão sem descobrir o menor sinal do desaparecido. Era inacreditável que ele tivesse ido embora sem levar os seus pertences. Mas onde ele estaria? Chamei a polícia local, mas sem resultado. Chovera na noite anterior, e examinamos os gramados e alamedas em torno da casa, mas inutilmente. As coisas estavam nesse pé quando uma nova ocorrência desviou nossa atenção do mistério inicial.

– “Rachel Howells esteve tão mal durante dois dias, ora delirando, ora histérica, que foi preciso contratar uma enfermeira para cuidar dela noite e dia. Na terceira noite após o desaparecimento de Brunton, a enfermeira, vendo que a doente dormia tranqüila, cochilou numa poltrona. Ao despertar de manhã cedo, encontrou a cama vazia, a janela aberta, e nenhum sinal de Rachel. Não foi difícil descobrir que direção ela havia tomado, pois a partir da janela seguimos as pegadas nítidas no gramado até a margem do lago, onde desapareciam junto a uma trilha de cascalho que vai até os limites da propriedade. O lago ali tem 2,5 metros de profundidade e você pode imaginar o que sentimos ao ver as pegadas da pobre moça enlouquecida chegarem até a margem.

– “Mandamos dragar as águas imediatamente, decididos a recuperar o corpo, mas não encontramos nenhum vestígio. Por outro lado, veio à tona um objeto dos mais inesperados: uma mala de pano, contendo um amontoado de metal enferrujado e manchado e vários pedaços de rocha ou vidro opaco. Este achado estranho foi a única coisa que retiramos do lago e, embora fizéssemos ontem todas as buscas e indagações possíveis, continuamos ignorando o paradeiro de Rachel Howells e Richard Brunton. A polícia do Condado não sabe o que fazer e vim procurá-lo como último recurso.”

– Você pode imaginar, Watson, com que atenção escutei esta extraordinária seqüência de acontecimentos, tentando uni-los e descobrir um elo entre eles. O mordomo havia desaparecido. A empregada idem. A empregada amava o mordomo, mas depois teve motivos para odiá-lo. Tinha sangue galês, era ardente e apaixonada. Estava profundamente abalada após o desaparecimento do mordomo e havia atirado no lago uma mala contendo objetos estranhos. Todos esses fatores precisavam ser levados em consideração, mas nenhum conduzia ao âmago da questão. Qual o ponto de partida daquela cadeia de acontecimentos? Víamos apenas o fim de uma linha emaranhada.

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