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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Fiquei mais de uma hora refletindo sobre a questão no escuro, até que uma criada, em prantos, entrou com um lampião, seguida do meu amigo Trevor, pálido e controlado, trazendo estes documentos que estão aqui nos meus joelhos. Sentou-se na minha frente, aproximou a lâmpada da borda da mesa e entregou-me um bilhete escrito, como vê, numa única folha de papel cinzento: “O fornecimento de caça para Londres aumenta constantemente. O guarda-caça Hudson, segundo acreditamos, contou com o recebimento de papel caça-moscas para a preservação da vida dos seus faisões.”

– Ao ler o bilhete, fiquei com uma expressão tão confusa quanto a sua neste momento. Então eu o reli com bastante atenção. Era óbvio que, como eu imaginara, havia um sentido oculto naquela estranha combinação de palavras. Ou as palavras “papel caça-moscas” e “faisões” teriam um significado predeterminado? Esse sentido seria arbitrário, impedindo qualquer dedução. Contudo, não me agradava pensar assim, e a presença do nome “Hudson” parecia demonstrar que o assunto da mensagem era o que eu havia imaginado e o bilhete fora enviado por Beddoes e não pelo marinheiro. Tentei ler de trás para diante, mas a combinação “a vida dos seus faisões” não era promissora. Experimentei palavras alternadas, mas “fornecimento caça Londres” não parecia ajudar a esclarecer nada. Mas, de repente, a chave do enigma surgiu nas minhas mãos. Percebi que cada terceira palavra, a contar da primeira, servia para fornecer  uma mensagem que levaria o velho Trevor ao desespero.

– O aviso era curto e seco, como li para o meu amigo:

“A caça terminou. Hudson contou tudo. Fuja se quiser salvar a vida”.

– Vítor Trevor escondeu o rosto nas mãos trêmulas.

– “Sim, deve ser isso. É pior que a morte, porque também significa a desonra. Mas qual o significado de ‘guarda-caça’ e ‘faisões’?”

– “Nada tem a ver com a mensagem, mas poderia significar muita coisa se tivéssemos meios de descobrir o remetente. Você pode ver que ele começou escrevendo: ‘A caça...’ etc. Depois, para acompanhar o código preestabelecido, teve que arranjar palavras para preencher os espaços. Usou as primeiras que lhe vieram à cabeça e se há tantas referências ao esporte, pode-se ter quase certeza de que ele é apaixonado por caça ou uma pessoa interessada na criação de animais. Sabe alguma coisa a respeito desse Beddoes?”

– “Agora que você mencionou isso, lembro-me de que papai costumava receber convites para caçar nas terras dele, no outono.”

– “Então, não há dúvida de que é ele o autor do bilhete. Só falta descobrir o segredo com que esse marinheiro ameaçava esses dois homens ricos e respeitáveis.”

– “Temo que seja algo pecaminoso e vergonhoso!”, exclamou meu amigo. “Mas para você não terei segredos. Aqui está a declaração redigida por meu pai quando soube que era iminente o perigo representado por Hudson. Encontrei-a no armário japonês, como ele dissera ao médico. Abra e leia para mim. Não tenho forças nem coragem para ler pessoalmente.”

– Estes são os documentos que ele me entregou, Watson. Eu os lerei para você, como os li no velho gabinete naquela noite. Estão endossados no envelope, como você pode ver: “Detalhes da viagem do brigue , que zarpou de Falmouth no dia 8 de outubro de 1855 e naufragou a 15° 29’ de lat. Norte, 25° 14’ de long. Oeste, no dia 6 de novembro”. O documento tem a forma de carta e diz o seguinte:

Gloria ScottGloria Scott fora usado Gloria ScottGloria Scott HotspurGloria Scott Hotspur

– No pé da página estava escrito numa letra tão trêmula que mal se podia ler:

– Foi esta a narrativa que li naquela noite para o jovem Trevor, e acho, Watson, que, naquelas circunstâncias, foi muito dramática. O rapaz, desolado, resolveu ir para Terai plantar chá, e ouvi dizer que prosperou ali. Quanto ao marinheiro e a Beddoes, nunca mais ouvi falar neles após o dia em que li a carta. Os dois desapareceram completamente. Não foi apresentada queixa à polícia, de modo que Beddoes deve ter confundido uma ameaça com um fato. Hudson foi visto rondando pelas imediações e a polícia acreditou que ele havia liquidado Beddoes e depois fugido. Mas eu acredito que ocorreu exatamente o oposto. O mais provável é que Beddoes, levado ao desespero e julgando-se traído, vingou-se de Hudson e fugiu do país, levando todo o dinheiro em que conseguiu pôr as mãos. São estes os fatos do caso, doutor, e se forem úteis à sua coletânea, estão inteiramente ao seu dispor.

o ritual musgrave

Uma anomalia que me impressionava com freqüência no caráter de meu amigo Sherlock Holmes era que, embora nos seus sistemas de raciocínio ele fosse o homem mais cuidadoso e sistemático do mundo, e apesar de mostrar um discreto requinte na maneira de vestir, seus hábitos pessoais eram dos mais excêntricos e capazes de levar à loucura um companheiro de quarto. Não que eu seja muito convencional neste aspecto. O trabalho irregular no Afeganistão, além de uma natural tendência à boêmia, fez com que eu ficasse mais negligente do que convém a um médico. Mas eu tenho um limite. Quando encontro alguém que guarda os charutos no balde do carvão, o tabaco enfiado num chinelo persa e a correspondência ainda não respondida presa com um punhal no meio do consolo da lareira, começo a considerar-me um verdadeiro santo. Sempre afirmei também que o tiro ao alvo deve ser praticado ao ar livre, e quando Holmes, num dos seus estranhos humores, resolve instalar-se numa poltrona e adornar a parede fronteira com um patriótico V.R. feito à bala, sinto que nem a atmosfera nem a aparência de nossa sala ganharão com isso.

Nossos aposentos estavam sempre tão cheios de produtos químicos e relíquias criminais, que acabavam ocupando os lugares mais absurdos, como a manteigueira, ou até locais menos desejáveis. Mas os seus papéis eram o meu grande problema. Holmes tinha horror a destruir documentos, principalmente os relacionados com casos passados, e apenas uma vez por ano, ou a cada dois anos, conseguia coragem para juntá-los e arrumá-los, porque, como mencionei em algum ponto destas memórias incoerentes, os surtos de energia apaixonada, quando ele realizava façanhas extraordinárias associadas ao seu nome, eram seguidos de reações letárgicas. Então ficava deitado, segurando o violino ou seus livros, e mal se movia, a não ser para se transferir do sofá para a mesa. E assim, mês após mês, os papéis se acumulavam, até que todos os cantos da sala ficavam cobertos de manuscritos, que não deviam ser queimados de modo algum, e só podiam ser guardados por ele mesmo.

Numa noite de inverno, quando estávamos sentados diante da lareira e ele acabara de colar recortes no seu álbum de ocorrências policiais, arrisquei-me a sugerir que ele poderia ocupar as duas horas seguintes tornando a nossa sala um pouco mais habitável. Ele não pôde negar a justiça do pedido e, com expressão melancólica, dirigiu-se para o quarto, de onde voltou instantes depois com um grande baú de metal. Ele o colocou no meio da sala, sentou-se num banquinho diante dele e abriu a tampa. Vi que o baú já estava quase cheio de pilhas de documentos atados com fita vermelha e separados em pacotes.

– Há muitos casos guardados aqui, Watson – disse, lançando-me um olhar malicioso. – Acho que se você soubesse tudo o que este baú contém, seria capaz de me pedir para tirar alguns daqui, em vez de guardar outros documentos.

– Então são registros dos seus primeiros casos? Muitas vezes desejei ter anotações desses casos.

– Sim, meu rapaz. Tudo isto foi feito prematuramente, antes que meu biógrafo surgisse para me cobrir de glória. – Ele ergueu um pacote após outro, num gesto carinhoso: – Nem todos são sucessos, Watson. Mas entre eles há probleminhas interessantes. Aqui estão as anotações referentes aos crimes de Tarleton e o caso de Vamberry, o negociante de vinhos; a aventura da senhora russa e o caso singular da muleta de alumínio, assim como o depoimento completo de Ricoletti, o perna-de-pau, e sua mulher abominável. E aqui... Ah! Este é realmente algo especial.

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